4 de junho de 2026

O acesso à arte que nos convulsiona

André Marques

Um dos grandes problemas da música instrumental são as salas de concerto vazias. Foi por esta constatação que o Duofel escolheu tocar músicas dos Beatles, segundo Luiz Bueno, para quem o grupo de Liverpool representa a música genuinamente universal. Depois que o duo de violonistas incluiu canções dos Beatles em seu repertório, mas com uma interpretação e arranjos muito pessoais e inovadores, o público tem aumentado, afirma Bueno, mas as salas de concerto continuam com público pequeno. Os dois violonistas são muito conhecidos e já receberam muitos prêmios, incluindo alguns Sharp de música instrumental, porém não carregam nenhuma ilusão em relação a mídia. Eles sabem que para conquistar o público é preciso muito mais do que gravar em casa e disponibilizar nas redes sociais. “É preciso estar em contato direto, trabalhando muito, vendo as pessoas, olhos nos olhos”, diz Bueno, o mais falante da dupla.

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No último final de semana a dupla formada pelos violonistas Luiz Bueno e Fernando Melo participaram do projeto Brasil Musical, como convidados e dividindo o palco do Teatro HSBC com instrumentistas curitibanos, cuja proposta é justamente a de formar público para a música instrumental, reunindo músicos brasileiros de renome nacional e internacional, como o Duofel, Renato Borghetti, Gilson Peranzzetta, Waltel Branco, Ricardo Herz, Thiago Espírito Santo, André Marques, Vinícius Dorin, Leandro Fortes, Bruno Migotto, Edu Ribeiro, Renato Martins e Cleber Almeida, com paranaenses como o Mano a Mano Trio (formado pelo clarinetista Sérgio Albach, o baixista Glauco Sölter e o percussionista Vina Lacerda), o violonista Murillo Da Rós, o grupo Pandeirada Brasileira, o guitarrista Mario Conde, o saxofonista Paulo Siqueira, o pianista Jeff Sabbag, o baterista Endrigo Bettega, entre outros.

O Duofel foi o penúltimo show do projeto e contou com a participação dos curitibanos Mario Conde, no violão, e o baterista Endrigo Bettega. Mas o projeto Brasil Musical inteiro, que teve 11 apresentações desde o mês de agosto, setembro e outubro, foi sempre surpreendente. A começar pela fabulosa sintonia entre os músicos que tocavam juntos pela primeira vez e, alguns, sem sequer ensaiar, pela qualidade irretocável dos repertórios variando entre Beatles, Wayne Shoter, Hermeto Paschoal, Tom Jobin, Thelonius Monk, Egberto Gismonti e músicas de autoria dos próprios concertistas e convidados. A programação teve a abertura com o show do percussionista Renato Martins e o grupo Pandeirada Brasileira, no dia 29, seguido de Borghettinho com Daniel Migliavacca Quarteto, em  5 de setembro;  Vinícius Dorin e Leandro Fortes, com Graciano Zambonin e Ronaldo Saggioratto, no dia 14; do violinista Ricardo Herz e o Mano a Mano Trio, em 22 de setembro; Fábio Torres e Serginho Machado, com Glauco Sölter e Mario Conde, em 24 de setembro;  uma seleção de músicos paranaenses homenageando Waltel Branco, em 15 de setembro; Gilson Peranzzetta e Murillo Da Rós Trio, em 23 de setembro; Thiago Espírito Santo com Sérgio Coelho Trio,  no dia   5 de outubro, O Duofel, dia 6; e encerrando com a surpreendente performance de André Marques e Cleber Almeida, no domingo, 7 de outubro.

Promovido pelo segundo ano consecutivo pelo Canal/Mkt, o projeto contou o patrocínio do HSBC com incentivo do Governo Federal, através do Ministério da Cultura do Brasil pela Lei Rouanet. A edição deste ano do Brasil Musical tem como dinâmica o convite de músicos locais para dividir o palco do Teatro HSBC a artistas instrumentais de grande reconhecimento no País. Sucesso de público em 2011, o projeto promoveu ainda a democratização e o acesso à música instrumental a partir da realização de mesas redondas, intermediada pela pianista e produtora Marilia Giller antes dos espetáculos, com a participação de alunos de faculdades e escolas de música.

Ao encerrar o último concerto, cheio de improvisos com o pequeno grande André Marques (piano) – músico que integra o grupo de Hermeto Paschoal há 14 anos, acompanhado pelo baixista Glauco Sölter, que foi também o curador do projeto, e o super-saxofonista Paulo Siqueira, que eu não conhecia, mas que me deixou boquiaberto com a sua virtuosidade e sensibilidade – fiquei calculando o valor artístico e cultural, a importância de um projeto dessa magnitude e imaginando mil razões para que ele não tenha nenhuma visibilidade na mídia, que, em tese, teria a obrigação de incluir coisas assim na sua grade de programação.  Uma enxurrada de motivos  e conjecturas, por óbvio, me assaltaram, o que me faz mais uma vez perceber as imensas contradições, os paradoxos absurdos da humanidade, desde sempre acorrentada às mesquinharias do poder de não poder ir adiante no caminho da sua simplicidade evolutiva. Com tanta poesia no mundo, com tanta música que toca realmente fundo na alma, temos que aturar exatamente as coisas que não nos convulsionam – no bom sentido, é claro. 

Redação

Curadoria de notícias, reportagens, artigos de opinião, entrevistas e conteúdos colaborativos da equipe de Redação do Jornal GGN

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