As pesquisas de intenção de voto para a prefeitura de São Paulo seguem apontando Celso Russomano (PRB) na liderança. Após o início da propaganda política na tv e no rádio José Serra (PSDB) tem caído mais ou menos na mesma proporção que Fernando Haddad (PT) tem subido. Apesar da primeira posição nas enquetes, Russomano não tem uma distância dos concorrentes que lhe permita definir a parada em primeiro turno, e é bastante provável que tenhamos um segundo embate entre os dois candidatos mais votados.
Não será a primeira vez que PT e PSDB, partidos de raízes paulistas e que fizeram de São Paulo a plataforma para alcançar vôos presidenciais, estarão numa situação como esta. Qual seja, ir a um segundo turno precisando do apoio do adversário para derrotar um terceiro partido. Foi assim em 1994, quando Mário Covas (PSDB) precisou contar com a ajuda do petismo, à época representado pelo candidato José Dirceu, para derrotar Francisco Rossi e eleger-se governador em segundo turno. A história repetiu-se quatro anos depois, quando Covas superou Marta Suplicy (PT) por apenas 70 mil votos e qualificou-se com muita dificuldade para a segunda rodada eleitoral. Mesmo tendo feito um milhão e meio de votos a menos que Paulo Maluf, foi também com a ajuda do petismo que o tucano pôde superar o adversário e reeleger-se na etapa final com uma virada histórica. E assim ocorreu também em 2000, quando Marta, candidata a prefeita, contou com o apoio de Covas, já hospitalizado à época, para poder superar Maluf no segundo turno, e levar o PT pela segunda vez em sua História ao comando da maior cidade do país.
Pois bem. Caso a tendência apontada nas pesquisas atuais se confirmem Russomano estará no segundo turno, representando a velha direita paulista, de corte janista e malufista, e/ou os segmentos sociais ascendentes, que ao que parece vão se configurando como uma novíssima direita. A outra vaga na rodada final, desta forma, deverá ficar entre José Serra (PSDB) e Fernando Haddad (PT). Num hipotético segundo turno assim, cabe a pergunta óbvia, mas de difícil resposta: PT e PSDB se uniriam contra um adversário comum, como fizeram no passado? Que razões teria o petismo para apoiar um adversário que lhe faz frente não só no plano municipal, mas também na eleição para o governo do estado em 2014 e, mais do que isso, que até o momento talvez seja o único adversário competitivo o suficiente para ameaçar o projeto de poder do partido a nível federal? Por outro lado, quais motivos teria o tucanato para fortalecer, naquele que é o núcleo de sua cidadela política, o estado de São Paulo, o seu principal adversário, com inevitáveis conseqüências para as disputas de vida ou morte que o PSDB travará para o Palácio dos Bandeirantes e o Palácio do Planalto daqui a dois anos?
Ainda há muita campanha pela frente, e o processo de desconstrução e desgaste do “bom moço da televisão” Russomano deverá ocorrer. Exceção somente à eleição de 1990, disputada entre Maluf e Fleury (PMDB), provavelmente nunca antes, desde a redemocratização, uma força política distinta de PSDB e PT teve uma condição tão favorável de se aproveitar não só da disputa entre os distintos projetos de país que os dois partidos representam, mas da própria discordia que ambos alimentaram nos últimos anos, a qual faz o gesto de Covas em relação a Marta ou os anteriores dos petistas em direção a Covas parecerem cada vez mais uma lembrança do passado.
Wagner Iglecias é doutor em Sociologia e professor da Escola de Artes, Ciências e Humanidades da USP.
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