
Do jornalismo de rasa banalidade à cultura do estupro no Brasil
por Luís Felipe Miguel
Talvez algumas pessoas já tenham percebido que tenho certa implicância com o Hélio Schwartsman. De fato, ele me parece a expressão máxima do Kitsch no jornalismo – Kitsch no sentido que Eco dava ao termo, a tentativa de passar por alta sofisticação o que não passa de rasa banalidade. São referências sem fim a livros de divulgação científica, a filósofos (em geral lidos de maneira muito contestável), tudo isso para chegar ao mesmo senso comum conservador do restante da Folha. Não perde oportunidade para dar “carteiradas intelectuais”, enfiando termos pomposos e chiques mesmo quando não cabem. E o que ele defende, afinal, é uma versão extrema da tese liberal da autonomia dos indivíduos (que nega qualquer relevância à estrutura social na produção das preferências), com simpatias evidentes pela sociobiologia – uma combinação particularmente reacionária.
A coluna de hoje ilustra muitos desses problemas. Schwartsman diz que é errado falar numa “cultura do estupro” no Brasil, aparentemente porque não existem festas comemorativas, nenhum deputado propôs a criação do Dia do Estuprador etc. Se mesmo entre presidiários os estupradores são execrados, diz ele, “a situação não pode ser muito diferente nos segmentos sociais que abraçam éticas mais kantianas” (eis aí a famosa carteirada).
Mas a cultura do estupro não é a exaltação aberta do estupro ou sua perpetração pela maioria dos homens. É um ambiente cultural que combina elementos como objetificação da mulher, celebração da agressividade sexual masculina e erotização da dominação. Em que o homem é apresentado, paradoxalmente, como o dominador, mas também alguém que “perde o controle” quando é “provocado”. Em que o estupro pode aparecer como uma espécie de homenagem à sua vítima, o que está presente seja em piadas de Rafinha Bastos, seja em discursos de Jair Bolsonaro.
E em que a oposição ao estupro (entre “kantianos” e “não-kantianos”, aliás) muitas vezes nasce não do horror com a violência sofrida pela vítima, mas da solidariedade a seu “proprietário legítimo” (marido, namorado, pai).
Esse caldo de cultura está presente entre nós. Justamente por isso, apesar de uma condenação moral ostensiva, continuamos tendo um estupro a cada 11 minutos no Brasil.
Brnca
5 de setembro de 2017 6:15 pmParabéns
Ótimo argumento do articulista contra a banalidade do mal do citado escrevinhador que desconhece até mesmo antiga matéria do seu jornal sobre uma festa arromba dos estudantes de medicina da Dr Arnaldo no clube dos médicos do HCSP onde o estupro foi café pequeno na festança para os recém aprovados no vestibular onde jorraram bebidas, drogas e outras cositas. Festa deviidamente abafada dias depois da divulgação por uma das recém-aprovadas. Portanto, neste país, é fácil deizer que estupro é fantasia de feminista.
maria rodrigues
5 de setembro de 2017 6:51 pmO que faz a população de hoje
O que faz a população de hoje conhecer a fundo essas práticas hediondas é o acesso fácil às novas tecnologias. De repente, com um celular, uma pessoas tira a foto por debaixo da saia de uma mulher, enquanto outra filma o que o tarado está fazendo, e tá feita a divulgação. A série de canais abertos, com os n programas policiais apresentam em redes local e nacional uma série de atentados contra as mulheres, ora levadas para os matos, para uma ruela, ou dentro da própria casa, para, ao final, serem estupradas, quando não mortas, quando não com seus corpos incendiados pra não deixarem vestígios.
Mas, quem pensa que antes as mulheres não sofriam tais violências está totalmente enganado. Em todos os tempos aqui no Brasil sempre prevaleceu o machismo, e a submissão da mulher. Faz parte da cultura de hoje e de ontem. Podem algumas coisas terem mudado, mas o problema sempre esteve presente.
Os tarados estavam em toda parte nos anos 50, 60,… E ainda tinha a mulher, a moçoila, que ficar segregada pela família, em geral pelo pai, se soubesse que a coitada “tinha perdido a virgindade, ou sido deflorada”. Quantas se deixaram enganar por um namorado, conhecido da família, e que depois ficava o cara na boa, e o pai da moça a mandava pra casa de parentes no outro lado do mundo pra não passar vergonha. Era machismo arraigado no namorado e no pai. E a mulher sempre vítima.
Quantas crianças hoje são violentadas por seus parentes mais próximos. E antigamente era diferente? Bastava um tio achar a menina-sobrinha bonita pra sentá-la no colo e fazer suas masturbações. Eu mesma quase fui vítima de um irmão de minha mãe com menos de 07 anos.
Minha velha dizia muito que achava estranho as pessoas dizerem que a vida atual era mais difícil. E, sob muitos argumentos, provava que não.
O valr dessas notícias está em que elas são divulgadas, com nomes e endereços, independente de ser o macho da favela ou do Leblon. O que não combina com a atualidade é a ausência de leis que coibam de uma vez por todas esses tarados. Se não tem como conviver em sociedade, que tenham o pênis amputado, ou parte do cérebro desativado, como aventou certa vez u grande neurologista, em afirmar que esses pervertidos não tem cura. Prova maior foi o bandido da luz vermelha, que cumpriu a pena integralmente, foi morar com um tio, que o matou quando o viu tentando estuprar sua esposa.
DudaS
5 de setembro de 2017 7:38 pmAs forças de investigação e
As forças de investigação e judiciais estão é estuprando cotidianamente a nação e o Estado brasileiro.
Isso é que tem que cessar, é o mais importante no momento.
tbeat03
5 de setembro de 2017 8:14 pmO que seria sociobiologia?
Seria o que o Eli Vieira tem feito com suas publicações? Seria interessante aprofundar este tema aqui no GGN. Obrigado!