Da Folha
Edgard Alves
Na véspera da Olimpíada, o desligamento da ala Iziane, 30, da seleção feminina de basquete, por conduta inadequada, foi uma decisão de muita coragem do comando da delegação.
A atleta, que admitiu ter falhado –levou o namorado para dormir no quarto dela, contrariando as normas, em hotel na França, onde o time estava alojado–, também foi corajosa e enfrentou a constrangedora situação. Teve o bom-senso de admitir que sua falha prejudicava não apenas ela, mas toda a seleção.
Apelou, sem sucesso, para uma nova chance. Deveria ser atendida, porque aprendeu a lição e deu lição ao reconhecer o erro publicamente. Sem chance de inscrever uma substituta, pois o prazo expirou, o Brasil fica com uma jogadora a menos. Pior, sem Iziane, que era a mais experiente do grupo. O time estreia no sábado ante a França.
Como a seleção ainda não estava na Vila Olímpica, o superintendente de esportes do COB, Marcus Vinicius Freire, disse que a decisão, que era da alçada da confederação de basquete, foi acatada pela entidade. E deu a entender que às vezes é melhor perder um dedo do que a mão, ou seja, sofrer um desfalque desde que se mantenha a disciplina.
A situação de Iziane nos remete a outra, também olímpica, só que na contramão: em vez de trazer alguém para dentro do quarto, o atleta saiu dele, mais precisamente da Vila Olímpica, para pernoitar fora.
Aconteceu em Los Angeles-1984, envolvendo o velocista Róbson Caetano, que foi afastado da delegação. Posteriormente, ele chegou a declarar que queriam destruí-lo, mas que tiveram de engoli-lo.
Isto porque o jovem decidiu responder àquela situação com trabalho, intensificando os treinos, e, em Seul-1988, conquistou o bronze nos 200 m rasos, atrás dos americanos Joseph DeLoach e Carl Lewis, mas à frente do favorito britânico Linford Christie, todos com prestígio incontestável.
Caetano ganharia ainda o bronze com o 4 x 100 m do Brasil em Atlanta-1996. Atualmente, ele é comentarista na TV.
Iziane é o que podemos chamar de “atleta difícil”. Esta é a sua segunda chance desperdiçada de participar de uma Olimpíada. Ficou fora de Pequim depois de se recusar a entrar em quadra no final de um jogo, inconformada por estar no banco de reservas.
A história de Róbson pode servir de consolo para Iziane. Apesar da idade, ela tem potencial, e, quem sabe, ajudará o Brasil no Rio, em 2016. Uma oportunidade para repetir Róbson, e Zagallo na Copa América, vencida pelo Brasil: “vão ter de me engolir”.
Edgard Alves, jornalista esportivo desde 1971, escreve sobre temas olímpicos às segundas. Foi repórter e chefe de reportagem do caderno “Esporte”, participou da cobertura das Olimpíadas de Montreal-1976, Moscou-1980, Atlanta-1996, Sydney-2000, Atenas-2004 e Pequim-2008, além dos Pan-Americanos de San Juan-1979, Havana-1991, Mar del Plata-1995 e Rio-2007.
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