Adroaldo Muniz Melo. A menção deste nome provocaria, certamente, ares de indagação entre os presentes. Poucos, talvez, pudessem identificá-lo. E Dozinho, quem não o conhece? Um dos mais brilhantes futebolísticos das últimas três décadas, nesta região onde se destacam Juazeiro e Petrolina.
Jogador de habilidade fora do comum, inteligente, sagaz, era a grande preocupação dos treinadores adversários que o submetiam permanentemente a severa marcação. E assim ficava 10 a 15 minutos dentro do campo. Num relance, a um cochilo do marcador, ele se desvencilhava, corria de um lado para outro confundindo os defensores e, quando não marcasse um gol, criaria, pelo menos, uma situação de perigo.
A igualdade técnica de dois contendores desequilibrava-se e a balança pendia sempre para a equipe que contasse com Dozinho. Olheiros que por aqui passavam se encantavam com o seu futebol e lhe faziam boas propostas. Filho único, mimado, gostava de gandaia, não se dispunha a sair, preferindo divertir-se entre os clubes de Juazeiro e de Petrolina.
Fato curioso, Dozinho jogava dentro do mesmo ano desportivo por dois times diferentes – o Olaria, de Juazeiro, e o América, de Petrolina.
Juazeiro e Petrolina são duas cidades que distam uma da outra menos de um quilometro, que é a largura do Rio São Francisco, e são ligadas pela ponte Presidente Dutra que, com os acessos, tem o comprimento de aproximadamente 1.200 metros. Do Estádio Juazeirense ao Estádio Petrolinense, a distancia não chega a três quilômetros.
Os dirigentes dos clubes juazeirenses e petrolinenses, de comum acordo, acertavam que o início do jogo em Petrolina não coincidisse com o mesmo horário de Juazeiro. Em Petrolina os jogos começavam sempre mais tarde, uns 20 a 30 minutos. Por que?
É que Dozinho jogava o 1º tempo em Juazeiro pelo Olaria e tão logo o árbitro determinasse o intervalo, corria para um carro que já o aguardava, e ali dentro já ia trocando o uniforme do Olaria pelo uniforme do América, a fim de jogar em Petrolina o 2º tempo por esta equipe.
No ano de 1964, Dozinho foi campeão duas vezes, no mesmo dia:
– Marcou o gol que deu o título ao Olaria em Juazeiro, ainda no primeiro tempo, e foi marcar o gol da vitória do América em Petrolina, no segundo tempo. Ambas as partidas eram finais de campeonato, e Dozinho conquistou dois títulos de campeão na mesma data.
Os clubes de Salvador, Recife e Fortaleza, continuaram tentando o concurso de Dozinho, até que ele, por muita insistência, resolveu tentar o Vitoria de Salvador, e assinou um contrato que nunca cumpriu preferindo voltar ao “ninho antigo”. Longe de Juazeiro era um “peixe fora da água”.
Os dirigentes do Vitória resolveram então negociar o seu passe com o Sport do Recife, sem saber que Dozinho já se comprometera com o Santa Cruz para um teste. Dozinho nunca iria, e por conta disso, recebeu uma intimidação: O Sport através de um instrumento jurídico, exigiu sua presença no Recife, já que comprara o seu passe ao Vitória. Ao ser abordado pelo oficial de justiça, os dirigentes do Sport, tentaram intimidá-lo aproveitando-se da amizade de um Delegado de Policia que quis forçar a sua apresentação ao Sport, já que o Vitória vendera o seu passe para o clube pernambucano. Ao ser abordado pelo delegado, Dozinho respondeu tranquilamente:
– Olha meu amigo, eu aqui posso jogar o 1º tempo pelo Olaria em Juazeiro e o 2º tempo pelo America em Petrolina. Mas no Recife, quando jogarem Sport e Santa Cruz eu posso usar do mesmo expediente? Então eu prefiro ficar em Juazeiro.
E daqui nunca mais saiu.
(se você quiser saber de mais causos da região da calha e do vale do Rio São Francisco e, particularmente, de Bom Jesus da Lapa, visite: http://orlandofraga.bloguepessoal.com/ )
Obs: Este texto, escrito há muitos anos, achado entre os escritos guardados de meu pai, está datilografado com fita vermelha em papel amarelado, que parece papel jornal, mas tem uma textura resistente. Ele não foi publicado na sessão Fatos pitorescos e a impressão que me dá é que ainda é uma versão em rascunho, inacabada. O texto está sem data (provavelmente por volta de 1964) e logo abaixo, meu pai escreve, com caneta-tinteiro, sete pontos com orientações de procedimento para fundação de um clube de futebol. (Carminha Bandeira)
Deixe um comentário