4 de junho de 2026

Sessão das Dez: O Caminho Para Casa

O Caminho para Casa” é lição de sensibilidade

 
Quem for assistir a O Caminho para Casa verá uma perceptível assimilação do diretor chinês Zhang Yimou pelo mainstream do cinema ocidental. Mais: assimilação pelo cinema comercial do Ocidente. A história que conta é um melodrama, e este não deixa de ser embalado pela mais plangente das trilhas sonoras, recurso comum em filmes do gênero, do tipo, digamos, Dr. Jivago, ou Tomates Verdes Fritos. Nenhum desses dois é mau filme, como não é também o caso de O Caminho para Casa. Simplesmente era lícito esperar mais de um artista que já havia produzido obras como Lanternas Vermelhas ou Amor e Sedução, profundos, radicais, inovadores.

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Desta vez, Yimou optou por um caminho mais convencional, digamos. E não há receita melhor para um filme do que a da história de amor. Em geral dá certo, pois todo mundo um dia já se apaixonou, ou gostaria de ter se apaixonado, etc. O filme conta com essa adesão prévia que vem da idealização do grande amor, aquele que atravessa décadas incólume e só se encerra com a morte de um dos parceiros.

Luo Yusheng é o nome do narrador da história, chamado da cidade grande onde mora para a sua aldeia de origem, porque seu pai morreu. As cenas iniciais são de um uma beleza triste, filmadas em preto-e-branco, com realce para a paisagem nevada. Todo o resto da trama, no entanto, será a rememoração do caso de amor entre a mãe e o pai do narrador, que começa quando o pai, ainda muito jovem, muda-se para a aldeia para exercer o ofício de professor. Nas cenas em flash back, o preto-e-branco muda para um colorido igualmente deslumbrante – visual suntuoso que é uma das marcas registradas de Zhang Yimou.

Portanto, O Caminho para Casa tem esse formato de fácil digestão para o espectador ocidental. Vende uma China reconhecível sem esforço porque traduzida pela linguagem comum do amor entre os sexos. Seria, no entanto, cegueira, reduzir o filme a esses traços identificáveis. Porque, sob a capa da pasteurização exigida pelo mercado sobra a ele originalidade e beleza.

Onde se escondem? Por exemplo, no apego a uma tradição, que está em via de desaparecer na China moderna. Yusheng tem de enfrentar um problema sério porque a mãe exige um cortejo fúnebre para trazer o corpo do marido do hospital onde morreu para a aldeia onde será enterrado. Manda o ritual que o corpo seja carregado por homens a pé, porque assim o finado não esquecerá o caminho da sua casa. Tentando resolver esse detalhe prático do enterro, Yusheng começará a rememorar a história de seus pais. Lembra, também, que o pai teve de passar dois anos sem ver a namorada, porque havia problemas políticos para responder, na cidade grande. Era o começo da revolução comunista na China e o filme insinua que o pai seria um dissidente. Na escola onde ele leciona, há a inevitável foto de Mao Tsé-Tung na parede. Um salto no tempo, para a escola atual, e a foto desaparece.

Há outras seqüências significativas espalhadas pelo filme. Por exemplo, a longa cena da mãe, num tear antigo, fiando a mortalha do marido. Não há como não se comover com ela. Outro exemplo é o do artesão consertando uma tijela partida, uma peça sem valor nenhum e ao mesmo tempo inestimável porque nela uma namorada apaixonada servira uma refeição ao seu amado. Yimou gasta vários minutos nesta cena em que entram apenas objetos, mas que é tão densa de significado quanto uma natureza-morta de Cézanne. É que não existem objetos “em si”. Todos eles estão impregnados da presença humana, tão mais comovedora quando se está falando da morte, e portanto da ausência.

É por essas fraturas no discurso convencional que o filme se salva e Yimou se reencontra, por momentos, com a grandeza que lhe era habitual. (Luiz Zanin Oricchio/ Agência Estado)

Luis Nassif

Jornalista, com passagens por diversos meios impressos e digitais ao longo de mais de 50 anos de carreira, pelo qual recebeu diversos reconhecimentos (Prêmio Esso 1987, Prêmio Comunique-se, Destaque Cofecon, entre outros). Diretor e fundador do Jornal GGN.

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