Por Marco Antonio L.
De Terra
Procuradora do caso Cachoeira também sofreu ameaças, diz ANPR
A Associação Nacional dos Procuradores da República (ANPR) informou nesta terça-feira que a procuradora Léa Batista, que atua no processo da Operação Monte Carlo – que prendeu o bicheiro Carlinhos Cachoeira – também teria sofrido ameaças. Em nota, a entidade diz que Léa teria recebido um e-mail anônimo de um suposto réu “em tom nitidamente ressentido com a operação”.
De acordo com a ANPR, a mensagem foi enviada no dia 13 de junho, mesmo dia em que o juiz federal Paulo Augusto Moreira Lima pediu para deixar o caso, pois estaria, segundo ele, sofrendo ameaças da quadrilha de Cachoeira. “As inúmeras ameaças sofridas pelo juiz federal Paulo Augusto Moreira Lima e sua família – culminando com o pedido de afastamento do processo -, bem como pela procuradora da República Léa Batista – que recebeu um e-mail anônimo nitidamente ressentido com a operação – são uma afronta ao Estado democrático de Direito”, diz a nota, assinada pelo presidente da ANPR, Alexandre Camanho de Assis.
A entidade pede ainda providências “imediatas e eficazes de segurança” para os magistrados responsáveis pelas investigações da Operação Monte Carlo. “É preciso desautorizar enfaticamente toda manifestação avulsa, equivocada e permissiva, que – a despeito da inteira legalidade da investigação – questione a idoneidade dos procedimentos, possibilitando o revigoramento de ações de uma organização que, embora momentaneamente desarticulada, não está – como demonstram as ameaças – de forma alguma desmantelada. A poeira não abaixou”, diz o texto.
Afastamento
No dia 13 de junho, o juiz Moreira Lima enviou um ofício ao corregedor do Tribunal Regional Federal da Primeira Região (TRF1), Carlos Olavo, responsável pela correição judiciária na região Centro-Oeste. O magistrado lembrou sua trajetória na vara criminal, iniciada em 2009, ao longo da qual condenou vários criminosos que não fazem questão de esconder o descontentamento com o trabalho do juiz.
Segundo Moreira Lima, desde que assumiu a Operação Monte Carlo, ele foi informado de que poderia ser alvo de atentados e que estaria obrigado a se submeter a um rígido esquema de segurança, pois sua vida correria perigo. Em um dos episódios citados pelo juiz, policiais procuraram parentes dele para falar sobre a Operação Monte Carlo, “em nítida ameaça velada, visto que mostraram que sabem quem são meus familiares e onde moram”.
Ontem, o TRF1 divulgou que o juiz deixará a 11ª Vara para cobrir férias de outro magistrado. No entanto, a assessoria de Moreira Lima confirmou que ele deixou a vara por motivos pessoais e que não retornaria mais ao posto.
Para o presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), Carlos Ayres Britto, as ameaças ao juiz Moreira Lima são um caso de gravidade qualificada. “Diante da gravidade dos fatos, a corregedora nacional de Justiça, a conselheira Eliana Calmon, está à frente da apuração dos fatos”. Qualquer que seja o resultado das apurações, o andamento do processo ficará prejudicado com a saída do magistrado.
Carlinhos Cachoeira
Acusado de comandar a exploração do jogo ilegal em Goiás, Carlos Augusto Ramos, o Carlinhos Cachoeira, foi preso na Operação Monte Carlo, da Polícia Federal, em 29 de fevereiro de 2012, oito anos após a divulgação de um vídeo em que Waldomiro Diniz, assessor do então ministro da Casa Civil, José Dirceu, lhe pedia propina. O escândalo culminou na Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) dos Bingos e na revelação do suposto esquema de pagamento de parlamentares que ficou conhecido como mensalão.
Escutas telefônicas realizadas durante a investigação da PF apontaram contatos entre Cachoeira e o senador democrata Demóstenes Torres (GO). Ele reagiu dizendo que a violação do seu sigilo telefônico não havia obedecido a critérios legais.
Nos dias seguintes, reportagens dos jornais Folha de S.Paulo e O Globo afirmaram, respectivamente, que o grupo de Cachoeira forneceu telefones antigrampos para políticos, entre eles Demóstenes, e que o senador pediu ao empresário que lhe emprestasse R$ 3 mil em despesas com táxi-aéreo. Na conversa, o democrata ainda vazou informações sobre reuniões reservadas que manteve com representantes dos três Poderes.
Pressionado, Demóstenes pediu afastamento da liderança do DEM no Senado em 27 de março. No dia seguinte, o Psol representou contra o parlamentar no Conselho de Ética e, um dia depois, em 29 de março, o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Ricardo Lewandowski autorizou a quebra de seu sigilo bancário.
O presidente do DEM, senador José Agripino Maia (RN), anunciou em 2 de abril que o partido havia decidido abrir um processo que poderia resultar na expulsão de Demóstenes, que, no dia seguinte, pediu a desfiliação da legenda, encerrando a investigação interna. Mas as denúncias só aumentaram e começaram a atingir outros políticos, agentes públicos e empresas.
Após a publicação de suspeitas de que a construtora Delta, maior recebedora de recursos do governo federal nos últimos três anos, faça parte do esquema de Cachoeira, a empresa anunciou a demissão de um funcionário e uma auditoria. O vazamento das conversas apontam encontros de Cachoeira também com os governadores Agnelo Queiroz (PT), do Distrito Federal, e Marconi Perillo (PSDB), de Goiás. Em 19 de abril, o Congresso criou a CPI mista do Cachoeira.
Deixe um comentário