3 de junho de 2026

A morte do boxeador Teófilo Stevenson

Por Waldyr Kopezky

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A morte de um exemplo: Teófilo Stevenson

Para quem nunca ouviu falar dele, um breve resumo: foi um dos maiores boxeadores pesados que existiu, tendo sido tricampeão olímpico. Tão bom era que houve pressões fortíssimas (de governos, inclusive) para que ele aceitasse sua profissionalização e lutasse contra Muhammad Ali num desafio – tanto as lideranças de EUA quanto de Cuba não viam essa possibilidade com maus olhos, o que seria uma versão real da ficção de Rocky IV, dos cinemas (“Stallone” Rocky versus o soviético “Dolf Lundgren” Ivan Drago). Ou seja, um evento esportivo maravilhoso para um embate de lutadores e idelogias, onde antigas rivalidades poderiam reacender o debate sobre um conflito bélico muito desejado…

Possibilidades e propostas, houve inúmeras – foi-lhe oferecido uma saída clandestina (fuga) da ilha, organizada pelos serviços de Inteligência dos EUA (que dariam total suporte à sua instalação e profissionalização no país); depois, foi ainda oferececida pela Máfia proposta ainda mais vantajosa financeiramente (e com as mesmas garantias do governo dos EUA); novamente negada; mas o mais surpreendente foi quando o próprio governo cubano de Castro (depois de uma dissenção inédita da URSS, que permitiu no início dos 80 a transferência de bons jogadores de futebol do país para times europeus profissionais), foi dada uma opção para aceitar o confronto nos EUA, com semi-profissionalização e garantia de prêmios obtidos em vitória serem revertidos em parte para a autoridade cubana – situação idêntica a dos jogadores russos.

Tudo isso ele rechaçou, enfatizando a importância de seguir como exemplo de sucesso do regime revolucionário cubano. Viveu e morreu com simplicidade, fiel a tais princípios professados. A matéria do Estadão segue abaixo, mas desde já advirto que ela contém a omissão dos fatos acima e pelo menos um erro pra lá de grotesco: informa que ele foi tricampeão olímpico DEPOIS do boicote dos países comunistas a Los Angeles-84, quando na verdade já havia sido conquistado em Moscou-80, sendo que em Seul-88 ele já havia se aposentado. Um jornalismo pífio. Segue:

De Agência Estado

Morre Teófilo Stevenson, o maior nome do boxe amador

Tricampeão olímpico morre aos 60 anos, em Havana

SÃO PAULO – “De que me vale um milhão de dólares americanos diante da tristeza de um milhão de cubanos.” Foi desta forma que o peso pesado cubano Teófilo Stevenson reagiu aos intensos assédios dos empresários norte-americanos na década de 70 para enfrentar Muhammad Ali. Stevenson, tricampeão olímpico (1972, 1976 e 1980), morreu nesta sexta-feira, aos 60 anos, em Havana, vítima de enfarte.

Nas 321 lutas que realizou como amador, só perdeu 20 vezes e nenhuma por nocaute. Foram 14 derrotas nas suas primeiras 20 lutas.

Em Montreal-76, Stevenson obteve um recorde no boxe olímpico ao nocautear seus três primeiros adversários em apenas 7 minutos e 22 segundos. Em Los Angeles-84, devido ao boicote dos países socialistas, foi impedido de tentar o quarto ouro olímpico consecutivo. Dois anos mais tarde, provou sua superioridade ao ganhar (sic) o tricampeonato mundial. 

Seus braços e pernas longos proporcionavam um estilo bonito de luta, apesar do 1,90 metro de altura e dos mais de 90 quilos de peso. O 1-2 (jab de esquerda, seguido de direito de direita) foi um dos mais perfeitos da história da nobre arte. “Todo mundo achava que eu derrubava os adversários com a direita, mas era com a esquerda mesmo.”

O jogo de pernas era irrepreensível e o tornava rápido como um lutador peso leve. Seus adversários não conseguiam encurtar a distância e eram massacrados com facilidade. Os mais resistentes sofriam castigos que antecipavam o fim de suas carreiras.

Seu desempenho dentro e fora dos ringues o tornou um exemplo para futuros campeões como para o compatriota Felix Savón, que repetiu o feito do ídolo e também ganhou três medalhas olímpicas (1992, 1996 e 2000) entre os pesos pesados. Assim como seu “mestre” não se rendeu aos contratos milionários vindos dos Estados Unidos e jamais se profissionalizou.

Stevenson tornou-se um ícone do regime de Fidel Castro e passou a liderar delegações cubanas nos mais diversos torneios internacionais. “Não estou aqui para falar de política”, disse Stevenson, aoestadão.com.br, durante a Olimpíada de Pequim.

Recentemente, Stevenson deu uma entrevista coletiva em Havana negando os boatos de que estaria sofrendo de uma doença grave, apesar de admitir estar com problemas cardíacos. Na década de 90, Stevenson recepcionou Ali durante uma visita a Cuba. Na oportunidade, os dois brincaram de boxe em um ringue improvisado. “Foi uma pena o mundo não ter assistido a essa luta”, disse Stevenson. “Acho que eu venceria, mas seria difícil”, afirmou Ali.

Luis Nassif

Jornalista, com passagens por diversos meios impressos e digitais ao longo de mais de 50 anos de carreira, pelo qual recebeu diversos reconhecimentos (Prêmio Esso 1987, Prêmio Comunique-se, Destaque Cofecon, entre outros). Diretor e fundador do Jornal GGN.

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