Por Ricardo Amaral
Flávio Pierucci escreveu um interessantíssimo artigo sobre o fracasso da mobilização de chefes religiosos (católicos e evangélicos) contra a candidatura de Dilma Rousseff em 2010. Ele concluiu que, de tanto manipular símbolos moralistas, a candidatura de José Serra sofreu, no segundo turno, o que a sociologia americana chama de “Efeito Fariseu”, a rebordosa da hipocrisia eleitoral. A inteligência e lucidez de Flácio Pierucci vão fazer falta.
Do Scielo
A desmoralização eleitoral do moralismo religioso, de Flávio Pierucci – Conclusão
O artigo completo “Eleição 2010: A desmoralização eleitoral do moralismo religioso” está neste pdf:http://www.scielo.br/pdf/nec/n89/01.pdf. Abaixo, a instigante conclusão:
“Na noite do 31 de outubro, à medida que avançava a apuração das urnas do segundo turno, como sociólogo da religião eu ficava de olho, só esperando para ver, mas o efeito pretendido com o voto religioso não aparecia, não aparecia… Nem o empurrão de última hora dado pelo papa de nada adiantou. Contrariando as expectativas de quem apostara nessa tática divinamente apoiada e frustrando as expectativas dos que haviam botado a boca no trombone da internet contra um futuro iminente de aborto permitido, homofobia rechaçada e PNDH‑3 aprovado e sancionado, o tratamento eleitoreiro de questões de teor moralista com fundamento religioso não conseguiu se segurar como um eixo em torno do qual se decidisse um número importante de votos. Sua relativa capacidade de persuadir durou pouco, mesmo para um jogo político de curtíssima duração.
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No fim das contas, sobra ainda, desse processo eleitoral, um dadoagregado que vem grifar o que tem sido o principal desafio teóric para a pesquisa sociológica da religião, na modernidade avançada de modo geral e no Brasil em particular. Refiro‑me à constatação do pouco (muito pouco!) que o voto dos adeptos das diferentes igrejas cristãs foi afetado pelo muito (muito mesmo!) de orientações, doutrinações e apelações emitidas pelas autoridades católicas e evangélicas contrárias à candidata ungida por Lula e consistentemente apoiada sobre a extensa aprovação popular de seu governo. Foi muito desproporcional a diferença verificada entre o empenho mobilizador dos profissionais religiosos anti‑Dilma e a plácida indiferença das maiorias religiosas a tantos apelos, incitações e aconselhamentos da parte de seus chefes religiosos. Houve recusa em ceder à pressão de uma conclamação eclesial que jogava contra os interesses individuais mais utilitários e diretamente materialistas da maioria dos brasileiros. E eram interesses materiais, não ideais, os que igualmente empurravam os fiéis praticantes a votarem pela continuidade das políticas lulistas, uma vez que também eles se sabiam atendidos por várias ações de governo nos oito anos de Lula presidente.”
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