O PIB e o Brasil
Depois da marola, o maremoto
Crescimento de 0,2% do PIB indica que a crise mundial chegou com força ao Brasil. As medidas adotadas pelo Governo são ineficazes
6 de junho de 2012
O crescimento de 0,2 por cento do primeiro trimestre de 2012 em relação ao último trimestre de 2011, projeta um crescimento total para o ano de algo em torno de 3 por cento. O principal responsável por esse crescimento pífio foi o setor agropecuário, com queda de 7,3 por cento. O principal produto de exportação do setor é a soja, que responde, sozinha, por 20 por cento do PIB na agropecuária. Houve queda na produção de soja de 11,4 por cento. Parte da culpa são as estiagens no Sul e no Nordeste. Mas o fator mais relevante é a diminuição das importações do produto por parte da China, principal comprador da soja brasileira.
O fato de a China ter diminuído as importações de soja (e de outros produtos também, como o ferro) indica uma retração no crescimento econômico do país asiático, até então a principal alavanca da economia mundial. Enquanto outros países como os Estados Unidos e o Japão, além da própria União europeia, viam suas economias se retraírem, a China via sua economia crescer cada vez mais. De um lado tínhamos uma crise da produção; de outro um aumento na produção.
A forte especulação financeira, que pautou a economia dos países centrais ao longo da década de 1990 e 2000, começou a ruir com a crise hipotecária norte-americana de 2007. Os bancos, que nunca antes na história do capitalismo haviam lucrado tanto, tiveram de recuar e muitos deles fecharam as portas. A crise se alastrou para a Europa e para o mundo.
Os países ditos “emergentes”, aparentemente, teriam sofrido menos com a crise. Na época, o presidente Lula disse que o tsunâmi que estava varrendo as economias dos países centrais chegaria ao Brasil na forma de uma “marolinha”. O problema é que de marola em marola…
O que ocorreu no Brasil e nos “emergentes” foi um aumento exagerado na concentração de riquezas. As desigualdades aumentaram, os bancos enriqueceram e o povo acabou endividado.
As ações do governo para conter a crise, todo o mundo sabe, foram as seguintes: aumento do crédito, diminuição dos juros, incentivos ao consumo (de eletrodomésticos e automóveis) e aumento de impostos. E, para manter as exportações em alta, veio o famigerado código florestal. Tudo isso, colocado junto no mesmo balaio, demonstra que o Brasil caminha para a mesma catástrofe e está prestes a engolir o mesmo tsunâmi que varreu a economia dos países centrais.
O aumento de crédito faz com que as pessoas fiquem cada vez mais endividadas. Além do mais, aquele que se endivida hoje, não compra mais amanhã. Se o Governo quiser que o consumo continue em alta, terá de promover novas facilidades de crédito, criando, com isso, uma bola de neve que não terá como ser controlada no futuro. Foi o mesmo caminho que seguiu a economia norte-americana. O crédito fácil, dado com garantia de hipotecas imobiliárias, transformou a própria garantia em papéis de pouco valor. Com tanto imóvel hipotecado, o valor dos imóveis despencou e, ao fim e ao cabo, pouco davam para pagar os empréstimos contraídos. As pessoas preferiam abandonar os imóveis do que pagar as hipotecas, pois saía muito mais barato. Quanto ao Brasil, o Governo estimula os bancos estatais a comprarem as dívidas de bancos privados para garantir a saúde financeira destes últimos. O Banco do Brasil e a Caixa Econômica abaixam os juros para que o devedor do Bradesco ou do Itaú, por exemplo, refinanciem suas dívidas com juros menores – e aparentemente pagáveis. Quando a linha de crédito desses bancos acabar, cairá um banco atrás do outro.
Quanto ao incentivo ao consumo – tentado agora e já tentado antes –, vemos que o Governo não tem imaginação quando se trata de política econômica. O setor privilegiado acabado sendo, sempre, o automotivo. O raciocínio do Governo é simples (e simplório): esse setor possui uma enorme cadeia produtiva (metalurgia, acessórios, estofamentos, plástico, gasolina, borracha, oficinas, etc.); portanto, dar incentivos ao setor (diminuição de IPI, aumento de linhas de crédito com juros menores), fortalecendo-o, provocaria uma reação em cadeia que beneficiaria a economia como um todo. Isso é falso e falacioso.
O setor automotivo, além de ser um setor controlado por indústrias estrangeiras, é um setor que paga mal aos trabalhadores, cria monopsônios (e, portanto, paga mal aos fornecedores), cartéis e uma indústria socialmente deletéria (polui o ar, produz lixo em excesso e sem escoamento, como carcaças e pneus velhos; impede, por pressões políticas que outros setores de transporte se desenvolvam, como estradas de ferro, hidrovias, etc.). A aposta do Governo nesse setor é o mesmo que, num jogo de azar, apostar todas as fichas num único número. O problema é que já sabemos de antemão que não há nenhum número premiado. Despois que o Brasil deixou de apostar na substituição de importações – política que desenvolveu ao longo da década de 1940 e até meados de 1950 – e passou a atender as exigências das montadoras de automóveis (entre elas, que o Brasil deixasse de investir em ferrovias), o setor de transporte no Brasil foi prejudicado. Esse prejuízo reflete-se também em nossas exportações, pois o preço do frete faz com que nossos produtos se tornem menos competitivos no mercado internacional.
Por último, temos o aumento de impostos, necessário para o pagamento da dívida do governo, para o sustento da máquina administrativa (extremamente cara e burocrática, por sinal) e para o investimento em infraestrutura. Nesses três pontos, o controle administrativo do Governo é bastante medíocre. O governo contrai dívida, sobretudo, com aquelas empresas que patrocinam as campanhas eleitorais do próprio Governo, como as grandes construtoras, as empresas de limpeza urbana, de transporte coletivo, etc. A máquina administrativa do Brasil, por sua vez, é ineficiente e, a burocracia, além de ser cara demais, impede o avanço no setor produtivo. Quanto ao investimento em infraestrutura, nem é preciso dizer: apagões, estradas em péssimas condições, segurança pública precária e nas mãos de verdadeiros bandidos (corrupção na polícia e no judiciário), hospitais precários e escassos, com médicos mal pagos e equipamentos obsoletos, etc., etc., etc. E ainda querem meter a mão em nossa aposentadoria!
Por fim, para pagar a dívida externa (que muita gente pensa que o Brasil já quitou!), o Governo desvia recursos de outros setores (como da própria previdência social) e depende das exportações. Mas, o que o Brasil exporta afinal? Antes, o que o Brasil produz de fato?
O Brasil produz de tudo. Tem uma indústria de ponta em todos os setores (químico, indústria pesada, manufatura, tecnologia, etc.), mas se vê escravo do setor agropecuário. É um atavismo, ou melhor, um vício histórico. O País sempre foi exportador de matéria prima, sobretudo de matéria prima para a fabricação de sobremesa (açúcar, café e laranja). Na época colonial, a economia estava baseada na plantation, tipo de produção que dependia de mão de obra escrava, monocultura, latifúndio e produção voltada quase que exclusivamente para a exportação. O que mudou?
O Brasil ainda não se livrou da escravidão no meio rural; o plantio da soja e da cana de açúcar, cada vez mais, ampliam seus territórios, expulsando o pequeno agricultor de suas terras e aumentando a concentração de uma determinada cultura em determinadas regiões. E tudo isso, para quê? Para exportar, é claro. Afinal, alguém já se perguntou para que serve a soja e outros produtos de nossa lavoura?
A soja é destinada, sobretudo, ao mercado externo. Nosso principal comprador é a China que a importa na forma de farelo de soja, produto utilizado na fabricação de ração para animais de abate.
A cana de açúcar ampliou o território de plantio. Mas, se nos lembrarmos das crises do petróleo, de 1973 e 1979, e do desastroso programa “Pró-Álcool”, chegaremos à conclusão que nenhum esforço está sendo feito, por parte do Governo, no sentido de promover o álcool como combustível. A única coisa que o Governo anunciou, nesse sentido, foi a produção de álcool para a exportação, visto que os Estados Unidos enfrentaram, há alguns anos, uma crise de abastecimento. A crise foi resolvida com a invasão do Iraque pelo Governo do famigerado George W. Bush. Se o Brasil tivesse investido na produção de álcool, teria sido um desastre. Não por causa do álcool em si, mas pela ilusão de que produzir algo para um único comprador seja um bom negócio.
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