Por Dourivan Lima
Caro Nassif,
Veja matéria publicada pelo jornal O Popular, de Goiânia, sobre a interpelação judicial feita pelo governador Marconi Perillo contra a jornalista Fabiana Pulcineli.
Uma das jornalistas mais respeitadas de Goiás, Pulcineli (@fpulcineli no Twitter) é há algum tempo a responsável pela coluna Cena Política.
O mais intrigante é que em nenhuma das duas colunas contestadas judicialmente ela faz qualquer acusação a Perillo, mas apenas análises políticas sobre o seu enfraquecimento, como pode ser visto pelo teor da matéria e pela íntegra das duas colunas, que envio abaixo
Repórter do POPULAR interpelada judicialmente pelo governador
Redação 04 de junho de 2012 (segunda-feira)
O governador Marconi Perilo (PSDB) protocolou interpelação jdicial, na 3ª Vara Cível em Goiânia, contra a jornalista Fabiana Pulcineli, do jornal O POPULAR, em razão de dois artigos publicados na coluna Cena Política, nas edições de 14 e 21 de maio, respectivamente. A ação, protocolada em 22 de maio, requer ao juiz que interpele a jornalista “para esclarecer os fatos alegados” nos dois artigos.
A interpelação questiona cinco trechos. No primeiro artigo, intitulado O pior não passou, o governador pede explicações sobre as afirmações de que “apareceram fatos novos” em relação à negociação da casa que pertenceu a ele no Condomínio Alphaville (em que Carlinhos Cachoeira foi preso em fevereiro) e de que houve “distanciamento e falta de apoio de aliados”, que apontavam para o “risco de isolamento político de Marconi”.
Em outros dois trechos, a jornalista analisa que o episódio de ameaças do presidente da Assembleia Legislativa, Jardel Sebba (PSDB), de apresentar projeto de lei que determinava que secretários de governo tivessem no currículo uma disputa eleitoral, por conta da insatisfação de deputados com auxiliares do governo, “reforçava a ideia de que não há comando e de que o governo está inerte, paralisado, com a crise”.
Já no artigo intitulado Nós somos teus, a interpelação questiona o trecho que diz que deputados da base do governo “entregaram nota de apoio e confiança ao governador em função das denúncias de seu envolvimento e de integrantes de seu governo com Carlos Cachoeira”.
Nesses dois últimos casos, a defesa de Marconi alega que ele não foi denunciado. “Além disto, duvida da capacidade e da idoneidade dos integrantes da Comissão Parlamentar de Inquérito da Assembleia Legislativa, numa conclusão apressada e desprovida de qualquer fundamento”, diz a interpelação sobre o artigo, que critica o fato de o presidente, o relator e um integrante da CPI terem assinado a nota de apoio ao governador.
Fabiana Pulcineli ainda não foi notificada, mas diz que no momento oportuno responderá apresentando as considerações sobre seu direito de opinião e expressão.
15/05/2012 – 17:54O pior não passou
Coluna Cena Política desta semana.
Até o início da semana passada, o grupo responsável pelo gerenciamento da crise provocada pelo caso Cachoeira no governo estadual vinha repetindo: “O pior já passou”. Julgavam que, nas gravações a que tiveram acesso, nada mais havia de indícios que pesassem contra o governador Marconi Perillo (PSDB) e que era hora de investir nas estratégias para mostrar serviço e superar o mau momento.
A semana, porém, foi de sucessivos reveses para o governo. Não só apareceram fatos novos sobre a relação de Marconi com Cachoeira – no caso da negociação da casa no Alphaville –, como ganharam força os efeitos políticos do desgaste gerado pela Operação Monte Carlo no governo. Distanciamento e falta de apoio de aliados de peso, cobranças, ameaças e dificuldades na troca de secretários servem de alerta para o risco de isolamento político de Marconi, que pode ser intensificado nas próximas semanas, a depender das reações do governo e dos desdobramentos do caso no Congresso.
A começar por Brasília, onde o líder do PSDB no Senado, Álvaro Dias (PR), declarou que o comparecimento de Marconi à CPI é necessário e inevitável – “ele mesmo pediu para ser ouvido”, alegou –, o governador tem visto poucas vozes em sua defesa. Na quinta-feira, quando foi um dos principais alvos de parlamentares durante o depoimento do delegado da Polícia Federal Matheus Mella à CPI, o governador ligou para um deputado do PTB do Pernambuco para agradecê-lo pelo pedido de cautela em relação à cobrança pela convocação urgente do tucano. Do seu partido, ninguém ousou bater boca com os parlamentares mais enfáticos contra o tucano.
Em Goiás, Marconi estaria tranquilo com uma CPI formada por maioria governista. Estaria, não fosse o “minimovimento” deflagrado semana passada pelo presidente da Assembleia Legislativa, Jardel Sebba, e pelo líder do Governo, Helder Valin, ambos tucanos, em ataques a parte do secretariado do governo. Ambos prometem apresentar projeto de lei que impõe que, para assumir alguns cargos de primeiro e segundo escalões, auxiliares do governo tenham no currículo uma disputa eleitoral.
Por mais que Jardel diga que Marconi atende bem os aliados e não é alvo de chantagem, o levante contra os auxiliares desgasta apenas o governador. Reforça a ideia de que não há comando e de que o governo está inerte, paralisado, com a crise.
Essa imagem se fortalece também nas discussões internas sobre mudanças no secretariado. Marconi parece engessado. Preso a compromissos políticos e ao delicado momento, em que busca manter firme sua base de sustentação, mostra-se vacilante nas definições. Passa a impressão de não ter forças para alterar o que não funciona bem nem para colocar fim a divergências internas. Por outro lado, alguns auxiliares manifestam desejo de deixar o governo diante do horizonte de dificuldades políticas e de gestão.
Os reflexos das denúncias também atingem em cheio o processo eleitoral deste ano. O governador sofreu grande queda da popularidade em Goiânia, como mostrou a pesquisa Serpes/O POPULAR na terça-feira, e os efeitos já se alastram, ainda que em menor velocidade, para o interior, segundo relatos de aliados.
Fragilizado pelos desgastes e ainda travado nos investimentos e realizações, o governo começa a sofrer perdas de aliados no interior. Candidaturas estão sendo abortadas e há mudanças no quadro eleitoral.
E as cobranças não surgem apenas no meio político. Há queixas entre empresários, sindicalistas e servidores públicos, diminuídas no caso destes últimos com reposições salariais. É como um organismo em período de baixa imunidade: ou é medicado e se recupera logo ou torna-se porta aberta para outras doenças. Sinal de que o pior ainda pode estar por vir.
Não bate
Marconi disse ao Jornal Nacional na sexta-feira que não leu o emitente dos cheques em valor total de R$ 1,4 milhão, mas que não haveria problemas em vender a casa no Condomínio Alphaville para Cachoeira. Completou que a negociação foi legal, declarada à Receita. Está certo. Ele tem mesmo o direito de vender bens particulares para quem quiser. O problema no caso são as informações desencontradas, mal explicadas e as evidências (apresentadas na semana passada pelo delegado da Polícia Federal) de que a venda foi de fato para Cachoeira. Se confirmado, o governador teria escondido a informação. A troco de quê?
22/05/2012 – 17:58“Nós somos teus”
Coluna Cena Política desta semana.
Muito semelhantes, e da mesma forma simbólicos, dois episódios envolvendo as Comissões Parlamentares de Inquérito (CPIs) do caso Cachoeira na Assembleia Legislativa e no Congresso Nacional na semana passada.
No Congresso, na mesma sessão que adiou a votação da convocação de governadores e do ex-mandachuva da Delta, Fernando Cavendish, o deputado Cândido Vaccarezza (PT-SP) foi flagrado enviando torpedo a um dos protegidos da CPI, o governador do Rio de Janeiro, Sérgio Cabral (PMDB), tranquilizando-o em relação aos rumos das investigações. “Não se preocupe, você é nosso e nós somos teu (sic)”, dizia a mensagem.
Em Goiás, na quarta-feira, os deputados da base do governador Marconi Perillo (PSDB) foram ao Palácio Pedro Ludovico entregar nota de apoio e confiança ao governador em função das denúncias de seu envolvimento e de integrantes de seu governo com Carlos Cachoeira. Não tem a mesma expressão, mas a nota bem que poderia ser resumida na mensagem de Vaccarezza a Cabral: “Não se preocupe, você é nosso e nós somos teu”.
O deputado estadual Talles Barreto (PTB), acompanhado de 18 colegas, aparece atrás do governador nas fotos e imagens do discurso de agradecimento do governador durante a manifestação de apoio no Palácio. Talles é o relator da CPI instalada para investigar as relações de Cachoeira com políticos goianos e os contratos da Delta com governo e prefeituras.
Relator é a figura mais importante de uma CPI. Conduz as investigações, analisa provas, dados e depoimentos e elabora, por fim, o relatório final do trabalho. Talles atropelou os passos da CPI. Antes de qualquer investigação e depois de apenas uma reunião da CPI, ele já conclui que Marconi é inocente e seu governo, acima de qualquer suspeita. Na nota, os deputados afirmam que as acusações contra o tucano e sua gestão são “maldosas e infundadas, fruto da irresponsabilidade, do juízo precipitado e da perseguição política”. Ora, o que há para investigar, então?
Ao assinarem a nota, que diz ainda que será provada “a lisura do comportamento do governador”, não apenas Talles, mas também o presidente da CPI, Helio de Sousa (DEM), e o terceiro integrante governista da comissão, Túlio Isac (PSDB), a demonstram disposição zero da comissão em apurar os indícios da Operação Monte Carlo. A intenção dos deputados é provar só o envolvimento da oposição com Cachoeira e seu grupo e, assim, reduzir o peso das denúncias contra Marconi.
Da mesma forma, a CPI do Congresso, com maioria governista, mostrou que o foco é atingir a oposição, no caso PSDB e DEM, e o governo de Goiás, que tem no comando um dos desafetos do ex-presidente Lula, e poupar aliados, como Cabral e o próprio governo federal, com o qual a Delta fez tantos negócios. As votações da semana passada, com convocação de 36 goianos e de pelo menos 10 pessoas com ligação com Marconi, mostram claramente o interesse da maioria dos integrantes da comissão.
CPI, então, não vale nada e sempre acaba em pizza, como repete o senso comum? Nem tanto. Não deixa de ser válido que os escândalos permaneçam em evidência e é fato que as comissões costumam também apresentar fatos novos. Muitas delas tiveram revelações importantes, que forçaram mudanças no cenário político brasileiro. Só não se pode ter ilusão de que não há blindagem de aliados e jogo entre partidos.
Contraponto
Em resposta ao artigo O pior não passou, publicado segunda-feira, o governo estadual enviou nota ao POPULAR afirmando não proceder a análise de que o PSDB não está respaldando o governador Marconi Perillo. “Ao contrário, desde o princípio, o partido afirmou sua confiança nos esclarecimentos prestados pelo governador e avalizou as medidas por ele tomadas no sentido de coibir os efeitos da organização investigada sobre o governo de Goiás.” A nota diz ainda que o governador está tranquilo sobre o andamento das investigações e que o governo “vem cumprindo, desde o início, uma agenda extensa e movimentada em busca de resultados, parcerias e recursos para o Estado”.
Depois da publicação do artigo, Marconi recebeu notas de apoio da bancada na Assembleia e de 139 prefeitos da base. Ele também reuniu-se com deputados federais e senadores tucanos em Brasília para apresentar esclarecimentos, cobrar apoio e articular estratégias da bancada na CPI do caso Cachoeira. Um dos pedidos dele foi para que não fosse o único governador convocado.
Deixe um comentário