Dai-me um povo que acredita no amor e vereis a felicidade sobre a Terra.
Gandhi
Segundo o Ministério da Saúde, em 2006, dentre as crianças brasileiras de zero a cinco anos de idade, quase 21% apresentavam deficiência de ferro e 17,4% tinham carência de vitamina A.
A deficiência de ferro predispõe a um tipo de anemia. Por sua vez, a ocorrência de anemia na faixa etária de seis meses a cinco anos tem efeitos negativos profundos e duradouros na imunidade e no desenvolvimento intelectual e motor da criança, prejudicando o aprendizado.
Na avaliação de um grupo de crianças de 3 a 6 anos matriculadas numa creche pública de Belo Horizonte, das quais 19 tinham anemia e 38 eram saudáveis, pesquisadores constataram que as alterações das habilidades auditivas eram mais frequentes nas crianças anêmicas. Isto é preocupante porque os três primeiros anos de vida são essenciais ao desenvolvimento da capacidade auditiva e, consequentemente, da linguagem. E, como afirmou o filósofo Ludwig Wittengstein, “os limites da minha linguagem denotam os limites do meu mundo”.
A deficiência de vitamina A diminui as defesas contra vírus, bactérias e parasitas e aumenta o risco de problemas oculares. Se não tratada pode levar à cegueira.
Além destes problemas, também a asma angustia um grande número de crianças. Esta doença respiratória é uma das principais causas de internação hospitalar dos menores de seis anos no país. Somente em 2011 houve 77 mil internações para tratamento de brasileirinhas e brasileirinhos asmáticos.
Apesar da relevância indiscutível destas questões de saúde pública, um número razoável de compatriotas as ignora. Talvez se sintam afetados (“Só me faltava essa!”) apenas quando a empregada doméstica não comparece ao trabalho porque precisa levar o filho com crise de asma ao pronto-socorro.
Certos indivíduos parecem desconhecer os ensinamentos valiosos de notáveis educadores e médicos brasileiros empenhados em nos conscientizar da importância do bem-estar físico, intelectual e emocional, e da felicidade familiar e escolar das crianças para haver desenvolvimento social pleno e amoroso.
Há os que ainda não se sensibilizaram pelo exemplo de Paulo Freire – mestre para quem a justiça social deveria vir antes da caridade -, nem foram enternecidos por Zilda Arns, que dedicou sua vida e obra à Pediatria.
Atrás das grades de segurança e das cercas elétricas, dentro dos condomínios vigiados por câmeras ou dos automóveis blindados (ora, mas este não é o cotidiano do presidiário?), os insensíveis – ou seriam hipócritas? – praticam um autismo voluntário que asfixia a solidariedade humana. Um de seus esportes favoritos é depreciar qualquer iniciativa governamental de cooperação entre os seres humanos, sobretudo os mais pobres. Aliás, este é um tema caro ao saudoso psicanalista José Ângelo Gaiarsa: “… há muito pouco amor entre as pessoas. Por quê? Porque o amor é o fim da dominação e da opressão, é o grande nivelador da pirâmide de poder”.
Aos brasileiros escravizados pelo pensamento rançoso e rancoroso talvez custe acreditar que não é mais possível conservar o ego centrado entre Miami e Orlando, pois o futuro está bem aqui, no Brasil. A eles dedico uma pitada de Mario Sergio Cortella (“Arrogância é um perigo porque ela altera inclusive a nossa capacidade de aprender com o outro”.) e uma gota de Rubem Alves: permitam-se uma “metamorfose”, ainda que longa e silenciosa, sem a qual não serão borboletas agraciadas com a liberdade e a leveza do voo que possibilita contemplar a vida de um ponto mais elevado.
Mas, os raivosos exibem o discurso repetitivo, os cassetetes, balas de borracha, sprays de pimenta e armas de choque, e a caravana passa. Pouco a pouco, embora com sofrimento e muita luta, nos desprendemos do Brasil rancoroso rumo a uma vivência de mais solidariedade e cuidado para com nossos semelhantes.
Com o Brasil Carinhoso, o Ministério da Saúde tenciona investir no combate à anemia por deficiência de ferro através da suplementação de sulfato ferroso a crianças de 6 a 18 meses e de vitamina A a crianças de 6 meses a cinco anos. Em paralelo, três medicamentos habitualmente usados no tratamento da asma serão oferecidos gratuitamente através da Farmácia Popular, beneficiando até 800.000 pessoas a cada ano, de acordo com estimativas do próprio Ministério.
Talvez seja isto o que chamam de amor.
Em tempo: Endosso a solicitação feita à Presidenta Dilma Rousseff por Cláudio José, comentarista do blog, para estudar a criação de um programa social dedicado às mães das crianças do Brasil Carinhoso. Peço vênia ao Cláudio para sugerir que o programa – uma ajuda financeira em dinheiro do Governo Federal para que as mães das crianças assistidas voltem a estudar -, por ele chamado, lindamente, de Mãe Coruja, beneficie também os homens que se dedicam a cuidar dessas meninas e desses meninos.
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