4 de junho de 2026

Cotas: STF derrota censura, terror e sofismas

 

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O debate sobre as cotas, até culminar com a decisão do Supremo Tribunal Federal pela constitucionalidade, foi extremamente desigual se levarmos em conta os espaços dedicados pela velha mídia.

Praticamente, a discussão só encontrou uma arena igualitária e democrática na rede. Embora saibamos que os meios de comunicação, principalmente os grande oligopólios, são muitas vezes bem sucedidos na imposição de uma agenda pública de discussões, o caso das cotas foi acompanhado de duas operações estatégicas que praticamente criaram uma sensação de univocidade de posições: as cotas só eram noticiadas pelos seus “males”, e as vozes que agiam em sua defesa eram sistematicamente sufocadas.

Lamentavelmente, no entanto, muitos dos atores críticos aos meios, quando não concordavam com a instituto das cotas raciais, não foram solidários aos seus antagonistas, mesmo percebendo o intenso clima de censura que acompanhou o debate.

Mais do que a posição conservadora da grande imprensa, que adotou praticamente uma postura militante contra as cotas, ver os seus críticos calando-se em relação à censura exercida pelos meios foi o fato mais surpreendente. Isso mostra um terrível hábito dos brasileiros de só reclamarem dos abusos de imprensa quando se sentem atingidos.

Outra característica do debate, além da assimetria dos espaços na mídia, foi a agressividade com que os anticotistas trataram seus oponentes: chamar os defensores de cotas de partidários do nazismo ou de agentes da racialização do país foram algumas das injúrias lançadas. Ao modo agressivo de personagens neocons bem conhecidos na mídia, juntou-se o tom muitas vezes violento de vozes que antes se apresentavam como racionais e moderadas em outros temas.

A má companhia aceita por vozes geralmente progressistas desse país, e contrárias às cotas,  é um indício de que, quando as posições se coadunam, somos capazes de esquecer aquilo que diferencia o itinerário de cada um.

Achincalhados, agredidos, censurados, desprezados pela velha mídia, os partidários das cotas só contaram mesmo com a atuação militante, a reflexão acadêmica, o fervor nas redes, e a ajuda imprescindível da realidade.

Sobre isso, há cerca de um ano, levantamos outro aspecto que marcava o debate, principalmente da parte daqueles que condenavam as cotas: sofismas que não encontravam ecos na realidade. 

À época, enumeramos cinco sofismas, que, sem qualquer recurso de dados, ou de verificação empírica, basicamente se reduziam à expressão de dogmas, contra todas as evidências ou, na pior das hipóteses, indícios.

Citando o nosso próprio texto, enumeramos tantos os enunciados-tipo, quanto o que estava sendo respondido pela realidade:

 1. As cotas raciais contribuirão para reduzir a qualidade do ensino nas universidades e terão como resultado a formação de profissionais de competência duvidosa.

Há pesquisas que comprovem o despreparo dos egressos cotistas?

2. As cotas raciais, por serem um atentado contra a meritocracia, deixarão os melhores de fora.

Esta hipótese é uma variante, por inversão, da primeira. Já há pesquisas, como a realizada pelo IPEA, há três anos, que apontam para a negação da primeira hipótese. Mas é preciso continuar acompanhando os resultados.

3. As cotas raciais humilham os seus beneficiados e contribuem para reduzir a auto-estima do negro.

Há inúmeras metodologias (qualitativas) de abordagem de grupos humanos que poderiam contribuir para se compreender se esta “hipótese” se confirma. Indico a tese de Marlon Leal (Unicamp, 2007) sobre o tema.

4. As cotas raciais produzirão conflitos graves entre alunos cotistas e não cotistas.

Até agora foram relatados incidentes graves envolvendo uns e outros?

5. As cotas produzirão uma reação em cadeia, com a racialização das políticas de Estado no Brasil.

É o argumento mais fatalista, visto que só se sustentaria sobre análises de risco – o que é bem difícil em pesquisas sociais.

 ***

O mais grave disso tudo é que as vozes progressistas, mas anticotistas, que se abstiveram de marcar diferença em relação aos conservadores e reacionários, esqueceram de criticar a censura, e contribuíram de alguma maneira para a retórica do medo e do terror…estas vozes progressistas passarão à História, pelo menos neste capítulo, como coadjuvantes menores de um debate tão importante para o país.

Redação

Curadoria de notícias, reportagens, artigos de opinião, entrevistas e conteúdos colaborativos da equipe de Redação do Jornal GGN

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