Quando tinha cinco anos, minha filha me dizia que acordava de noite com medo, por causa de “sonho ruim”. A Mariana, hoje com 27, também passou por esses medos. Mas tinha uma babá que a embalava ao som de “boi, boi, boi do curá / pega essa menina que não quer mamá”.
O medo sempre fez parte da nossa cultura. Foi companhia permanente das nossas infâncias, muitas vezes trazido por babás e empregadas e suas histórias maravilhosas.
Menino ainda, provavelmente com a idade da Beatriz, tinha “sonhos ruins”. Imaginava o vendedor de amendoim fazendo plantão na frente de casa, em plena madrugada. A casa, então, não tinha grades e dava para o largo do São Benedito, um enorme terreiro onde, nos meses de abril e maio os congos traziam seus cantos rituais. Mas nem os espíritos dos congos que povoavam o São Benedito nos protegiam do medo do vendedor de amendoim.
Espalhou-se na época que o vendedor de amendoim era “tarado”. A gente imaginava que ele entregava amendoim enfeitiçado para os meninos que, depois de ficarem grogues, eram algemados e chicoteados. Nosso conceito de tarado não ia muito além disso.
Quando se reuniam minha mãe, minha avó Martha e minha tia-avó Mariana, aí o medo e a tragédia corriam soltos. Eu ficava encolhido enquanto elas contavam a história da linda normalista de São Paulo, que pegou o ônibus para casa, foi seguida por um marginal que a matou. Os crimes eram tão escassos na época que, cada qual, rendia uma novela caseira. São Francisco de Assis e o Sagrado Coração de Jesus me ajudaram a enfrentar os pesadelos que sempre se seguiam aos “causos” das três.
Nos anos 50, em Poços de Caldas, estávamos a léguas de distância de ter medo de ET. Nosso medo era concreto, de personagens que habitavam as fazendas –como sacis, caiporas, lobisomens e mulas sem cabeça. Tio Zito Vilela quase quebrou quando descobriram uma criação de sacis em sua fazenda em São Sebastião da Grama e houve uma debandada de colonos.
A história da região começou a mudar lá pelo início dos anos 70. Fui a São Tomé das Letras a serviço, por ocasião daquele fiasco que foi a visita do cometa Kohoutec, para saber o que os moradores achavam do cometa, da perspectiva de fim do mundo, e dos teosofistas que se mudaram para lá atrás de uma carona de disco voador, antes que o tal do mundo se acabasse.
Subi a pedreira, abri a porta da igreja, dei de cara com a pintura de um barão de olhar alucinado. Ao lado, uma velhinha quase nonagenária que tomava conta da igreja. Indaguei se era verdadeira a história. “É verdade”, confirmou. “E eles viram algum disco voador”. A velhinha, taxativa: “Nenhum”. “E a senhora, já viu algum?”. E ela, com ar de enfado por trás das lentes grossas dos óculos: “Eu? Estou cansada de ver”.
Foi o período em que os sacis começavam a ser expulsos do sul de Minas pelos discos voadores. Era o prenúncio do ET de Varginha.
Com o tempo, esses medos maravilhosos, mágicos, parte intrínseca da cultura brasileira, parte essencial de um país que ainda não se urbanizara, vão cedendo lugar a outras formas, mais contemporâneas e cruéis de medo.
Primeiro, o medo de enfrentar a metrópole, a primeira profissão, o medo das primeiras opções de vida. Em muitos, vi o medo do desemprego.
Nos anos 70, havia o medo permanente da tortura, pelo menos na nossa profissão.
E quem era o pai que nos confortava a todos? Quem me refresca a memória é o leitor Celso Dival Moreira Lima que me enviou e-mail sobre o caso Galdino, desses da gente guardar para sempre, sobre a necessidade da coragem para enfrentar o estabelecido, a unanimidade e a sede de sangue: “O maior cristão, talvez o único, que eu conheço é Dom Paulo Evaristo Arns, que teve até parte da sua Igreja voltando-se contra ele por ser o porta-voz dos oprimidos. Um preso político certa vez comentou: “Ele colocava a mão em meus ombros e falava apenas três palavras: coragem, coragem, coragem”. Esta é a única oração que eu até hoje aprendi”.
weden
20 de maio de 2007 2:36 amOlá rapaz..
Aproveitando a
Olá rapaz..
Aproveitando a deixa então, sugiro:
“O Medo na Cidade do Rio de Janeiro: Dois tempos de uma História”, de
Vera Malaguti Batista, cujo pensamento jurídico e social é uma das boas surpresas recentes que tive no campo do pensamento social.
Jose de Almeida Bisp
20 de maio de 2007 2:36 amDe caipora ou saci…Não!
De caipora ou saci…Não! Nenhum medo. Mas eu me pelava de medo mesmo era de encontrar a Mãe d’água sentada na pedra do poço do riacho onde ia me banhar. Num deles era até pior. No poço dos carros; que tem este nome por ali, segundo histórias de tempos imemoriais, ter afundado dois carros de bois com seus carreiros e mais um dos batedores nos tempos em que o transporte era feito em estradas reais em lombo de burro ou carro de bois. Já imaginastes? Encontrar a mão d’água sentada na pedra ou, pior, as almas penadas de tanta gente? Mas já que falamos em medos infantis, o pior de todos era o de perder os “documentos”. Epa! Quando algum abusado anunciava no povoado que os “capadores” estavam na área… Era um chispar de moleques no oco do mundo, ou pra debaixo de camas… era um Deus nos acuda! Abraços.
Mário Mendonça
20 de maio de 2007 2:36 amCaro Mouro
Como sempre, bela
Caro Mouro
Como sempre, bela estoria. Fazia tempo que não houvia, pois os contadores de causos da minha familia já se foram, mas é muito bom houvi-la de um grande contador que veio destes cafundós tupiniquim.
Fiquei feliz pelas palavras finais, pois entendo que deve ser a nossa oração diaria, e triste com a lembrança, pois passei pelo DOPS, e os amigos que e lá estavam, não me falaram muito bem deste Senhor q.
francisco latorre
20 de maio de 2007 2:18 pmnão esqueçamos que a tortura
não esqueçamos que a tortura continua nas periferias.
que as execuçoes e chacinas não são notícia.
que bala de borracha substitui o cassetete em qualquer pequena manifestação.
que a mídia vende vingança pra colher mais crime.
pobre torturado executado não dá manchete, campanha ou passeata.
não é nem notícia.
sem novidade na fronteira de classe.
maria de morais
20 de maio de 2007 2:18 pmLUIZ NASSIF HOJE
LUIZ NASSIF HOJE INFELIZMENTE TEMOS MAIS MEDO DO IMAGINÁRIO POPULAR MAS DO QUE É CONCRETO QUE SÃO: A FOME, FALTA DE MORADIA, FALTA DE SEGURANÇA, SAÚDE, EDUCAÇÃO IMPUNIDADE, DESONESTIDADE ENTRE TANTOS OUTROS MEDOS E ACREDITO QUE A ORAÇÃO PERMANEÇA O QUE TEMOS A PEDIR ? CORAGEM CORAGEM E CMUITA CORAGEM
Luis Nassif
20 de maio de 2007 3:54 pmEsse é meu medo maior, que me
Esse é meu medo maior, que me tira do sério e me tira a alegria, Raí. Não medo da educação que estão tendo, mas do país que terão.
M. Junqueira
21 de maio de 2007 2:00 amMuito bacana a crônica desse
Muito bacana a crônica desse domingo!
Fui uma criança medrosa, assustada, prá lá de impressionável e até hoje tem momentos em que me sinto exatamente como quando tinha 4,5,6 anos.
Você també visitou o Barão de Alfenas em São Tomé. Ele não tem cara de alucinado…tem? Me lembro dele com uma cara bem inexpressiva.
Fui lá com meu avô, que é descendente do Barão e queria a todo custo ver a pintura. De S. Tomé, lembro que fiquei impressionada, só tinha maluco naquele lugar…todo mundo ligadão… Isso foi nos anos 70.
Abraço.
Maína
Mariana Nassif Xavie
21 de maio de 2007 12:55 pmE eu ainda fico envaidecida
E eu ainda fico envaidecida quando você me cita no blog…boba!
Medo é bem-comum, todo mundo sente, respira, acha que foi embora e tenta continuar. Eu tinha – ou tenho… – medo de uma coisa que eu não sei bem o que é, e falo disso pra você desde sempre. E desde sempre, também, encontro no seu olhar coruja (mesmo que mais raramente agora que sou uma senhora casada!) as três palavras – coragem, coragem, coragem. Medo é bem-comum. Sorte de quem tem tantos amuletos-família, tias turcas, irmãs e filha feixes de esperança e um Dr. Bié pra se apegar. Te amo gordinho! Coragem!!!
Wilson
21 de maio de 2007 12:55 pmCaro Nassif, até que você deu
Caro Nassif, até que você deu sorte com o medo na infância.
Cresci numa fazenda do interior de São Paulo, cercada de outras fazendas, todas mal assombradas. Tinha a fazenda de baixo, onde, diziam, enterraram uma santa de ponta-cabeça, levando o dono à falência e a fazenda ao abandono. Fui até lá algumas vezes, jamais sozinho, que não era louco! Aqueles prédios e casas de colonos caindo ao poucos eram de arrepiar. Cenário de filme de terror.
Tinha a fazenda do outro lado do brejo. Lá, me contaram, uma criança foi assassinada com um alfinete. Do lado de cá, só viamos uma casa abandonada no meio de um pasto sempre verde. Quando uma janela fechava ou uma porta abria, os adultos nos diziam que era a alma do bebê vagando. Para nosso terror completo, um empregado de meu pai passou de madrugadinha por perto e garantiu ter visto a alma do bebê em cima da casa abandonada. Não era invenção, estava confirmado.
Mais para a direita havia o sítio do Paco, onde, se dizia, um incêndio havia matado seus pais, o que deixou a família estranha. Arredia. Mas, nem por isso deixávamos de admirar os belos olhos verdes de sua filha Mirthes.Uma paixão devidamente contida, pois que era uma espanhola brava como o cão. Bem, menos mal que ela nos convidava para chupar a melhor manga espada das redondezas. Medrosos, mas gulosos, lá iamos nós tremendo como varas verdes.
No sítio do Seo João, irmão do Paco, ao lado da entrada de nossa fazenda, morava uma família, comandada por dona Regina, por acaso mãe de Regina Célia, nossa empregada. Nas minhas férias, fazia freqüentes visitas a ela para o café da tarde, adorava especialmente o arroz misturado aos tomates derretidos no óleo e, pança cheia, suas estórias de assombração. Ela me apontava para o terreiro de secagem de café, em frente à sua casa e me falava do dia em que o saci apareceu e de como ela invocou Nossa Senhora e mostrou a ele uma cruz para que sumisse. O que aconteceu depois de uma explosão, que deixou um cheiro danado de enxofre. Foi dona Regina quem me ensinou a pegar saci jogando uma peneira no meio do redemoinho. Corri atrás de redemoinhos por toda a minha infância, mas jamais peguei um saci só meu. Foi melhor assim, não tinha fé suficiente para invocar Nossa Senhora e nem sequer andava com uma cruz, teria me estrepado, é certo. Deve ter sido a proteção que as orações de minha mãe sempre me deram.
Já na fazenda de cima, havia uma pequena mata de eucaliptos que pareciam ter mil anos de tão altos. Nas ventanias, eles faziam todos os sons aterrorizantes do mundo. Às vezes, víamos da janela de nossa cozinha algumas luzes subindo ladeira acima por entre os eucaliptos. Bem, podem ser pescadores vindo do brejo ou almas perdidas em busca de reza, nos explicavam. Bem, na dúvida, toca rezar.
Para completar minha relação com o medo, preciso dizer que havia na família a tradição de homens que não temiam fantasmas. Meu tio Natálio não podia saber de uma casa ou fazenda mal assombrada que ia visitar o local à noite para verificar se a estória procedia. Meu pai contava, e as testemunhas confirmavam, que numa noite enquanto conversava numa encruzilhada, veja só a coragem, com seu primo, algumas luzes se aproximaram. Enquanto seu primo disparou com o cavalo para casa, sem que se soubesse quem estava mais assutado se ele ou o cavalo, meu pai galopou atrás das luzes, alcançado-as logo em seguida, para perguntar se estavam precisando de reza. As luzes, então, se afastaram e foram se concentrar em cima de uma árvore seca. Rezamos o terço por alguns dias e elas sumiram, me explicou minha mãe.
A tudo isso, meu pai confrontava com um sábio conselho: tema os vivos, os mortos não fazem mal a ninguém.
Leandro Aluisio
21 de maio de 2007 4:47 pmNassif, você é um dos
Nassif, você é um dos últimos “fazendeiros do ar”, na feliz expressão do Carlos Itabirano.
Lindinaldo GOMES sou
22 de maio de 2007 7:33 pmOLÁ Nassif
Todos nós passamos
OLÁ Nassif
Todos nós passamos por esta fase na infancia, tinhamos medo de tudo bastava um vento na janela ou uma roupa no varao para se transformar num monstro, quantos medos nos criamos na nossa mente atrelado as histórias de fantasmas, mula sem cabeça são coisas do passado que a televisão e a midia destruirão hoje os nosssos medos são muitos reais, vivemos numa sociedade totalmente acuada pelos bandidos as nossas casas se tornaram as nossas prisões só os bandidos tem a liberdade , por isso temos medo de tudo de uma bala perdida, do assalto, dos sequestro relampagos, das ameaças por telefone, até mesmo quando uma pessoa se estiver mau vestida e nos pedir as horas temos medo, qual solução para não termos medo no meu entender é buscar a segurança no TODO PODEROSO, porque ele mesmo disse que nem um fio de cabelo cairá da sua cabeça sem que eu permita, sendo assim não presisamos ter medo porque mesmo que venhamos a partir antes do tempo estaremos com ele para sempre na eternidade e lá não há pranto nem dor muito menos medo.
Luis Nassif
27 de maio de 2007 6:28 pmCelso, naquela época eu
Celso, naquela época eu estava numa briga pesada contra o efeito-manada naquela história do Pataxó. Seu e-mail foi reconfortante.
Luis Nassif
1 de junho de 2007 1:15 amOUtro dia contei para minhas
OUtro dia contei para minhas caçulas sobre a loira do banheiro. Quanto ao “Congresso”, me inspirei no poema para uma composição que venceu o I Festival aí de Poços e uma semifinal de um festival na extinta TV Tupi.
Luis Nassif
6 de junho de 2007 9:13 pmLindo.
Lindo.
Suzana
6 de junho de 2007 9:14 pmOlá nassif….
acho que suas
Olá nassif….
acho que suas filhas não acreditaram na loira do banheiro, as crianças hj são mais espertas….
Qto ao poema ter inspirado uma música vencedora, Parabéns. Vc é compositor jornalista ou jornalista compositor? Qual atividade prefere?
Boa semana….
Ualahssy
6 de junho de 2007 9:14 pmHá uns versos de Carlos
Há uns versos de Carlos Drummond que contam mais ou menos o seguinte: que o pai dele contava histórias horripilantes para o infante carlos, e quando este estava morrendo de medo, o pai dava uma gargalhada. Carlos concluía o poema: “meu pai me ensinava o medo e a rir do medo”. E eu vou te contar uma coisa: os medos que nos pregavam na infância, nem se comparam à esta realidade que parece pesadelo. Quando criança eu tinha medo dos mortos, hoje tenho medo dos vivos…
Vai aí mais Carlos sobre o medo:
Em verdade temos medo.
Nascemos escuro.
As existências são poucas:
Carteiro, ditador, soldado.
Nosso destino incompleto.
E fomos educados para o medo.
Cheiramos flores de medo
Vestimos panos de medo.
De medo, vermelhos rios
Vadeamos.
Somos apenas uns homens
e a natureza traiu-nos.
Há as árvores, as fábricas,
Doenças galopantes, fomes.
Refugiamo-nos no amor,
este célebre sentimento,
e o amor faltou: chovia,
ventava, fazia frio em São Paulo.
Fazia frio em São Paulo…
Nevava
O medo com sua capa,
nos dissimula e nos berça.
Fiquei com medo de ti,
meu companheiro moreno,
De nós, de vós: e de tudo.
Estou com medo da honra.
Assim nos criam burgueses,
Nosso caminho: traçado.
Por que morrer em conjunto?
E se todos nós vivêssemos?
Vem, harmonia do medo,
duros tijolos de medo,
medrosos caules, repuxos,
ruas só de medo e calma.
E com asas de prudência,
com resplendores covardes,
atingiremos o cimo
de nossa curta subida.
O medo, com sua física,
tanto produz: carcereiros,
edifícios, escritores,
este poema: outras vidas.
Tenhamos o maior pavor,
Os mais velhos compreendem.
O medo cristalizou-os.
Estátuas sábias, adeus.
Adeus; vamos para a frente,
recuando de olhos acesos.
Nossos filhos tão felizes…
Fiéis herdeiros do medo.
eles povoam a cidade,
Depois da cidade, o mundo.
Depois do mundo, as estrelas,
dançando o baile do medo.