4 de junho de 2026

Todo homem é minha caça, por Millor

Por Jorge Furtado 

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Texto de Millôr Fernandes em “Todo homem é minha caça”.

Zwingliano, Zuzara: últimas palavras.

“Todo homem é minha caça”, nome inspirado num poema do inglês Pope, mostra a minha profunda descrença no ser humano – que eu sou. E olhem que jamais procurei um homem perfeito. Nunca tive admiração pelo”If”, de Kipling – poema fascistóide em que o propagandista do Império Britânico esculpe um homem de pedra, ou mármore, com “qualidades” que fariam desse ser, se existente, um monstro de “perfeição”. E não me espanta que Alekos Panagulis, o Homem de Oriana Fallaci, o super-herói dessa mulher em geral tão exigente e dura, fosse um admirador exatamente do “If”.

a esse poema enquadrado, como qualquer executivo (vi, através dos anos, dezenas de cópias desse poema emolduradas em escritórios de luxo) mediocremente argentário, safadamente mercantil. Heróis nunca me iludiram.

Quando, neste livro, caço o homem, como Nemrod na Bíblia, e procuro alvejar individualmente o mesquinho, o covarde, o safado, o hipócrita, o corrupto, o incompetente, e, coletivamente, a médico, o político, o economista, com suas pretensões, falhas, fraquezas, egoísmo e sandices (que são as minhas, eu nunca esqueço; só que eu nunca esqueço, a maior parte das pessoas nem se lembra) não estou preocupado com essas falhas e defeitos insanáveis, mas com o inevitável fim a que isso leva – a desumanidade do homem para com o homem.

Mas ai!, não resta alternativa – nada me interessa mais do que o ser humano. A partir de um certo momento de minha vida a maior diversão passou a ser para mim conversar, longa, lenta, interessadamente com alguém. Mas uma pessoa só. Quantas vezes, na calma do meu estúdio, atravesso a tarde e penetro pela noite, falando a alguém que foi me procurar. Interrompo meu trabalho mais premente – a princípio com raiva pela intromissão – e de repente me vejo profundamente ligado a uma pessoa que nunca vi, num psicanalismo bifronte e gratuito (o único válido; o unilateral e com guichê na porta é uma contrafação), sem ptretenções terapêuticas, arte pela arte no seu melhor momento. E, vejam bem, essas conversas são, indiferentemente, – honni soit qui mal y pense – com homem ou mulher, jovens ou velhos (nunca muito velhos). Daí vem muito o meu conhecimento do outro lado, que não está neste livro, a certeza de que ninguém quer ser mesmo torturador, todo mundo gostaria de ser generoso, não há quem não tenha uma justificativa absolutamente correta pro seu erro, seu mau-caratismo, seu péssimo humor, sua violência. Mas as justificativas não eliminam o fato de que são todos, somos todos, (acabada a secção parênteses de compreensão, um momento ilhado na luta pela sobrevivência), fratricidas.

Fratricidas. Só queremos a nós mesmos; o irmão que se rompa. Mesmo o mais humilde, o sacerdote mais santo, a sua vanglória o arrasta a, pelo menos, querer ser mai humilde do que todos; não apenas humilde, mas o mais humilde do ano. Humildes, sim, mas que ninguém duvide disso! Mesmo o herói que tirou alguém do incêndio – e quantas vezes me digo: “bem, aí está um entre as chamas, aí está a salvação.” – quando eu vou ver, conhecer melhor, é, na vida diária, o usurário do banco que está ao seu lado, o atravessador da distribuição do leite, o mercador de remédios falsificados.

É só ler uma enciclopédia com olhos abertos para ver que não houve exceção – todos os “libertadores” foram posteriores tiranos, quando não “Salvadores Perpétuos” da pátria a ferro e fogo e muito pau-de-arara; as sociedades filantrópicas se transformaram sempre, quando já não eram assim na origem, em fontes de suborno; as ideologias, feitas em nome do homem, logo serviram à glorificação e/ou gozo material de uns (muito) poucos e à consequente exploração do próprio.

Com 20 milhões de anos de vida sobre a terra, o homem atingiu a civilização apenas nos últimos 10 mil. Uma civilização, uma cultura, uma capacidade de domínio e apropriação das forças e mistérios da natureza de que nenhum animal jamais se aproximou. Com isso – 20 milhões de anos de vida, mas apenas 10 mil de civilização – é o único animal que tornou objetivamente possível uma coisa antes inacreditável – sua própria destruição como espécie. Dando ainda, de lambuja, a distruição de todas as outras. Pois nada indica que o homem consiga escapar de sua própria fúria e estupidez nos próximos 10, 100 ou, no máximo, mil anos.

O leitor mais tíbio poderá ficar assustado com essa visão do mundo e do principal ser que o habita. Mas essa é, paradoxalmente, a únicavisão saudável, capaz de permitir uma saída.

É a visão humorística, no seu mais profundo sentido. Aquela que nos permite sempre, honestamente, variar sobre a imagem cansada e dizer: “O homem está nu!”

É a única que vê o herói César depilando seu corpo para – cito Suetônio – continuar a ser “O homem de todas as mulheres e a mulher de todos os homens”, e não como um herói “shakesperiano”.

Que vê Napoleão (e tanto generais mais medíocres do que ele) sabendo se proteger muito bem nos campos de batalha – dizimando centeana ou milhares dos seus homens para isso – porque, naturalmente, isso importava muito mais para a glória da França do que qualquer preocupação com (outras) vidas humanas.

Que vê todos os grandes experts em pintura da Europa depondo num tribunal holandês contra o pintor falsário Van Meegerem – durante anos, impuseram aos europeus as falsificações dele como peças autênticas – até que ele desmascarasse todos, falsificando um quadro diante de seus próprios juízes.

Que sabe que os grandes negócios escusos (há outros?) internacionais são feitos em camas milionárias (não necessessariamente heterossexuais), resolvidos em iates de luxo, decididos em banquetes filantrópicos, planejados em todos os lugares dourados do mundo. É aí que, impunemente, se resolve – sem pensar nisso, isso é um mero fator residual – a morte de milhões de miseráveis que jamais saberão que sua fome e sua degradação foram negociadas a milhares de quilômetros de distância, num Mediterranée ensolarado.

Só a descrença total pode trazer alguma solução. Só o ceticismo integral pode começar a produzir um mínimo de verdade, criar um sentimento de maior aproximação com o outro ser humano assim mesmo como ele é. Quer dizer, a partir do conhecimento de sua crapulice, de sua mentira, de sua quase-absoluta incapacidade de corresponder. Só a aceitação desse ser centralizado definitivamente em seu próprio umbigo – religiões e ideologias são uma tentativa comercial de apresentá-lo de maneiras diversa, mas só tem feito criar monstros sagrados, cada vez maiores, à medida que as populações aumentam e, com elas, os recursos da tecnologia da comunicação – pode nos conduzir a um melhor convívio.

Por mim, acho que já aprendi a conhecer o ser humano que sou eu mesmo, meu irmão homem. Já sei até seu nome – Caim. E, apesar de tudo, gosto mais de estar com ele do que com um cachorro, um gato ou até mesmo um colibri. Não adianta toda minha racionalização, não adianta eu olhar no olho de todo e qualquer interlocutor e saber que cada palavra dele – um imenso código sempre mais complicado – não corresponde a nada do que ele é. O sentido de humor, que me faz vê-lo sempre falho – porque a mim não me vejo de outro modo – me mostra toda a comédia das relações humanas com uma coisa extraordinariamente engraçada, mesmo quando dramática, mesmo quando odiosa, mesmo quando mesquinha.

Pois fora do ser humano não há salvação. Fora do ser humano a vida não tem enredo.

Não resisto a um ser humano.

Millôr Fernandes (1938 – 2012)

Luis Nassif

Jornalista, com passagens por diversos meios impressos e digitais ao longo de mais de 50 anos de carreira, pelo qual recebeu diversos reconhecimentos (Prêmio Esso 1987, Prêmio Comunique-se, Destaque Cofecon, entre outros). Diretor e fundador do Jornal GGN.

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