4 de junho de 2026

O baixista da Legião Urbana em situação de rua

Do Nina Lemos / Blogs Estadão

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O abandono de Renato Rocha da Legião, o sensacionalismo e a tristeza

Uma confissão. Eu fui a adolescente mais fã da Legião Urbana do mundo. Quer dizer, na verdade, todos os adolescentes da minha época eram os maiores fãs da Legião do universo. Mas eu amava os caras. Ponto. Uma vez encontrei o Negrete no Crepúsculo de Cubatão (o lugar mais cool do Rio no fim dos anos 80). Eu e a minha amiga Jô estávamos com as mãos sujas de sorvete (!!!) e apostamos. “Quem vai ter coragem de encostar na camisa branca dele?”. E fizemos isso, de fato. E nos escondemos. Coisa de adolescente idiota brincando com o ídolo.

Acordo e vejo no Twitter do Marcelo Paiva. Negrete virou morador de rua. A matéria, exibida na Record no domingo, é daquelas que não poupam na hora de caprichar nos requintes do sensacionalismo. Mas deixam muita coisa sem explicação. Uma música dramática de fundo e ele, o Renato Rocha, o BAIXISTA DA LEGIÃO URBANA, de camisa do Flamengo, sentado em uma esquina do Rio.

Lembro do Renato Rocha tocando no Maracananzinho para milhares de pessoas. E eu ali, berrando na fila do gargarejo. Ele era um deus. Corta para ele na rua, dizendo sem mágoas que o Renato Russo era um cara muito legal. A repórter diz que vez ou outra um fã aparece para pedir um autógrafo. Tristeza.

Como o sensacionalismo é prato que vende fácil e pensar no que “o personagem” sente de verdade está fora de pauta, ainda deram um jeito de levar o cara na casa onde ele morava antes de ir para a rua. “Está bem diferente”, diz. E a música dramática continua. E tem quem diga que foram as drogas. Ou a fama. E o Negrete continua com seu olhar solitário.

“Fame, Fatal Fame”, canta o Morrissey, um dos ídolos do Renato Russo. “Cadê o Ecad?”, pergunta alguém. Sim, o cara era o baixista de uma das maiores bandas da história do Brasil e agora mora na rua!!!! Onde vai parar o dinheiro do Negrete? Onde foram parar os amigos do Negrete?

Não tenho uma teoria para explicar nada disso. Só fiquei aqui triste. Lembrando do Renato Rocha elegante tocando no Maracananzinho lotado, e torcendo para que alguém tire o meu ídolo de adolescência da rua. E tem mais. Tenho medo de virar o Renato Rocha um dia. E quem não tem? Ele é a imagem da solidão. Do desamparo. Todos os meus amigos de adolescência queriam estar no lugar DELE, tocando com a LEGIÃO. Hoje, nessa segunda, ele virou o símbolo dos nossos maiores temores. “Viver é foda.”

Luis Nassif

Jornalista, com passagens por diversos meios impressos e digitais ao longo de mais de 50 anos de carreira, pelo qual recebeu diversos reconhecimentos (Prêmio Esso 1987, Prêmio Comunique-se, Destaque Cofecon, entre outros). Diretor e fundador do Jornal GGN.

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