Blog Daniel Miyagi
Desabafo sobre o dia 11 de março
Por Daniel Miyagi
Passou da meia-noite e eu estava teclando com minha amiga Thais. Estávamos nos despedindo, porque ela ia dormir, e eu falei que tinha que arrumar coragem porque está um frio danado, e ainda tinha que sair pra ir no mercado pra comprar mistura. Peguei a bicicleta, comecei a pedalar e não sei porque me deu uma sensação inexplicável de felicidade. Felicidade sem motivo aparente, por estar vivo, coisa rara nos últimos tempos, essa sensação de felicidade sem motivo aparente nenhum.
Já tinha pensado em escrever algo sobre o 11 de março de 2011, planejava um conto, mas a vontade não via. Um bloqueio.
Evitava pensar no assunto.
Cheguei agora pouco liguei o computador, e li a reportagem da Claudia Sarmento sobre ela visitando Fukushima um ano depois. Nossa me deu um arrepio, uma vontade de chorar. Depois li o post do meu querido Roberto Maxwell, ele relatando o ponto de vista dele sobre esse acontecimento.
Um ano atrás eu estava em Yamagata, província bem próxima de Miyagi, Iwate e Fukushima, locais onde ocorreram o tsunami e acidente nuclear.
Era uma tarde,estava no serviço, tinha subido para ir no banheiro. Fui até o local onde trocamos as roupas, ia trocar de camiseta , porque estava suando bastante. Embora fosse inverno, nevava na região, mas dentro do serviço porque a gente corria trabalhávamos apurados, suávamos feito condenados na prisão. No vestuário, onde começava a abrir o armário para trocar de camiseta, veio um shain (funcionário da firma) , ele ia também abrir o armário dele, foi nessa hora que veio uma tremida. Não eram as tremidas normais que de vez em quando (ultimamente posso dizer que é de vez em sempre isso sim) ocorrem, tremidas rápidas. Foi como se a firma fosse uma casa de brinquedo, e alguém tivesse sacudido a casa de brinquedo. Ou, um soco. Rapidamente, veio outro “soco”, e mais outro. Ou sei lá, a casa de brinquedo estava sendo muito sacudido. O shain falou em voz alta “yabai jishin”, isto é, ” droga, terremoto” (uma tradução livre hem?) eu nem troquei de roupa, mal fechei a porta do armário e nós saimos do vestuário e fomos até o escritório, que é no mesmo corredor.
Ao contrário dos terremotos normais (como se terremoto pudesse algo normal), esse foi pavorosamente forte. As tremidas, que como disse pareciam uma sacodela, um boxeador socando um saco (e o prédio com a gente dentro era o saco), passaram a ser incessante. Os japoneses do escritório, incrível, em nenhum momento demonstraram medo, ficaram em pé, mesmo sabendo que era algo anormal. Já os funcionários estrangeiros se desesperaram, gritos histéricos, começaram a correr. Eu pensei: “enquanto os japoneses estiverem calmos, é porque a coisa não é tão grave, caso eles demonstrem medo é porque a situação é calamitosa” me agarrei nesse pensamento , segurando as mãos, ao mesmo tempo vinha na minha cabeça, que o prédio podia desabar com a gente dentro. Ia morrer sozinho no Japão, minha mãe no Brasil, meu Deus, o que será dela, mil pensamentos, e por fora só vendo a calma dos japoneses, minha âncora para também não me desesperar. Na minha viagem neurótica, pensei, eu sozinho, se morresse, ninguém ia saber, e vinha minha mãe na cabeça, quem ia cuidar dela, lembrava dos meus amigos distantes, amores. Tudo em questão de segundos. Brega? Piegas? Clichê? Pode ser, mas era o que sentia.
Já passei por tanta coisa aqui no Japão, já tive até um derrame e sobrevivi, e podia morrer bestamente soterrado. Nossa quanto delírio, ficava pensando mil coisas, só pra não estar naquele momento ciente que o prédio tremia sem parar, meu corpo estava no prédio, mas eu pensava vários absurdos pra fugir e não entrar em pânico.
Passado algumas horas já na minha casa alugada de Yamagata, eu sozinho, sem eletricidade, nem podia ligar a tv pra saber as notícias, sorte que no meu smartphone podia acessar o twitter e de lá começava a ficar a par da situação. Os brasileiros que vivem em Nagoya, Hamamatsu e Tokyo, teclavam. Pela internet fiquei sabendo do tsunami em Miyagi. Mas mesmo sabendo eu não tinha noção nenhuma do perigo, da tragédia. Tudo o que queria era ligar para minha mãe para acalmá-la. Mas durante alguns dias não dava para usar telefone, nem celular, eu praticamente estava isolado em Yamagata.
Passado, alguns dias e semanas, devagar as pessoas estavam tentando retomar a seus afazeres, porque retomar aquela vida antes do dia 11, é impossível.
Eu e alguns brasileiros que trabalhavam junto na mesma firma, ficamos com medo. Uma porque ainda vinham pequenos tremores, outra Fukushima estava bem próxima da gente, e as notícias estavam desencontradas, falava-se que a radiação nuclear podia chegar em Yamagata . Naquele momento só conseguia me desabafarr com uma amiga do Brasil, a Sônia, via e-mail.-Queria voltar para Kawaguchi, Saitama, província ao lado de Tokyo onde realmente moro. Mas para ir embora, tinha que passar por Fukushima, que fica entre Yamagata e Tokyo, e as estradas estavam bloqueadas.
Foi quando um amigo jornalista, via twitter, me disse que representantes da Embaixada do Brasil estavam fazendo uma caravana de ônibus até Sendai (capital de Miyagi) resgatar brasileiros que estavam lá ou proximidades. Ia fazer, isso, mas um amigo meu japonês entrou em contato comigo e foi me buscar. Quando ele foi me buscar já era final de março, e essa altura, as estradas que davam acesso a Fukushima já estavam desbloqueadas. Voltei para Kawaguchi, e aos poucos fui retomando minha rotina.
É engraçado a percepção de quem não passa por esse momento é diferente de quem realmente as vive. Em janeiro, fiz um post intitulado “Minha impressão quase um ano após o terremoto” , e um dos comentários foi que o terremoto parecia ter ocorrido mais de um ano, como se fosse algo longe. Pra gente, que estamos aqui no Japão, pra mim que estive bem próximo dos locais do tsunami, pras pessoas de Miyagi, Iwate e Fukushima pode-se passar um ano, dois, quinze anos, nunca será uma lembrança longe. Mesmo quando não queremos lembrar.
Passado um ano, eu, que nunca achei que escreveria isso, pois esse desabafo é eu me desnudar dos meus sentimentos, e por mais clichê que seja, agradeço.
Agradeço por estar aqui compartilhar essa vivência, e sabe, é nesse momento que se percebe que muitas angústias, esses debates intermináveis que vemos na internet, mída atacando , reclamações de salário baixo, discutir BBB, falar mal de brasileiro que não se comporta bem no Japão, falar mal do seu país, dinheiro, política, poder, tudo é tão insignificante e passageiro. Inclusive a vida.
Ao mesmo tempo que a vida é efêmera, ela continua, e o ser humano ao invés de se amesquinhar nos acontecimentos banais do cotidiano, devia parar nem que por alguns instantes, respirar , ver e ter consciência que esse acontecimento contraditório paradoxal, que é a vida, e o fato de a gente de uma forma ou de outra participarmos dela, é algo único e inigualável.
Termino, pedindo um minuto de silêncio para os seres humanos que se foram na tragédia do ano passado.
Por eles, por nós, a esperança, solidariedade, façamos de nós humanos, um mundo melhor.
Daniel Miyagi

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