Por Ygor C.S.
Comentário do post “O aniversário da fogueira de Giordano Bruno“
A Inquisição espanhola e portuguesa foi fundamentalmente diferente da que foi estabelecida em outros lugares católicos da Europa e já existia MUITAS DÉCADAS antes de o Concílio de Trento se iniciar e depois terminar, estabelecendo não só regras conservadoras e perseguição como você enfatiza, mas também muitas tentativas de coibir práticas típicas da corrupção e da total desordem ética e hierárquica que havia tomado de conta da Igreja (sim, todos os grandes fenômenos históricos têm lados positivos e negativos e são complexos demais para você resumir em poucas consequências).
A Inquisição na Espanha e em Portugal, segundo vários estudiosos contemporâneos, foi tanto um fenômeno político quanto religioso, o que ajudaria a explicar porque ela foi muito mais grave, perniciosa, poderosa e corrupta do que nas instâncias semelhantes em outros países europeus. Lá os inquisidores não eram meros agentes da religião a serviço da Igreja, mas também verdadeiros “cães de caça” a serviço dos nascentes impérios da Península Ibérica, e boa parte do que hoje se fica atribuindo exclusivamente a preconceitos religiosos foi realizado na verdade como perseguições políticas e étnicas disfarçadas, ou melhor, justificadas com argumentos religiosos para poder prejudicar pessoas específicas ou grupos que desagradavam a gente poderosa ou à maioria da sociedade, que frequentemente arranjou meios de se livrar de etnias como os mouros e judeus não só por razões religiosas, mas por preconceitos étnicos, disputas econômicas (eram frequentemente essas minorias donas de mais propriedades do que a gente local), etc. Enfim, a Inquisição não foi algo monolítico, e definitivamente não dá para você usar a Inquisição espanhola como exemplo do que ocorreu na Europa inteira.
Quanto à visão de católicos terríveis contra um protestantismo responsável pela “modernidade”, basta eu dizer um fato “inusitado” para essa perspectiva: lendo recentemente um livro sobre a Inquisição muito bom e com excelentes e numerosas referências, o autor ressaltava que a Inquisição matou e perseguiu muito, mas talvez bem menos do que ficou fixado no imaginário popular e, certamente, com uma distinção muito menor do que se imagina em relação às perseguições feitas por outras igrejas e grupos sociais (não afiliados à Igreja) naquela época. Sendo assim, ele menciona algo não muito abonador para os protestantes: a Inquisição Portuguesa, em seus ~300 anos de História, tem registros que mostram que ela matou MENOS homossexuais do que os calvinistas só na Holanda mataram em um espaço de 30 anos no início do século XVIII, em uma das dezenas ou centenas fases de “caça às bruxas” que, todo mundo sabe, os protestantes fizeram na Europa protestante nos séculos XVI a XVIII. Como vê, em alguns casos, nem a bem organizada e diabólica Inquisição conseguia ser tão letal quanto a perseguição não centralizada feita por protestantes na Holanda, EUA, Inglaterra, etc.
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