4 de junho de 2026

O Brasil e a “doença holandesa”, por José Roberto Campos

Do Valor

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Dependência relativa das commodities

Por José Roberto Campos

O Brasil é menos dependente hoje das exportações de commodities do que foi há 40 anos — a “doença holandesa” não é uma ameaça imediata ao país. Um estudo do Fundo Monetário Internacional mostra que o grau de sujeição da América do Sul à venda de produtos básicos é a maior de todas as subregiões do mundo e continua igual à de quatro décadas atrás. Mas o Brasil, com a diversificação, escapou dessa sina, ao contrário de boa parte dos exportadores de energia e metais. Os economistas do FMI veem a possibilidade de um cenário de  nova queda das matérias primas, seguida de redução do crescimento da economia global e piora nas condições de financiamento — o “triplo choque” —  que torne vulneráveis várias  nações da região.

A análise se concentra nos países da América do Sul como conjunto, sem destaque para o Brasil. Mas nas estatísticas alinhadas percebe-se que as tonalidades sombrias com que pintam uma suposta volta da dependência do país das exportações de commodities não têm base na realidade até agora. Uma das medidas para avaliar o grau de dependência  nos últimos 40 anos, até 2010, foi a das exportações líquidas de commodities como proporção do Produto Interno Bruto.

Essa proporção atingiu 4,8% do PIB em 1970, caiu nas décadas seguintes e hoje se situa em 4,5%. Pelo outro critério, o das exportações brutas como porcentagem das exportações totais, os resultados são parecidos. As vendas externas de commodities chegavam a 75% do total em 1970, relação que recuou até 2000 para um pouco abaixo de 40% e voltou a subir a 50% em 2010. Como proporção do PIB, as exportações brutas mostram o mesmo quadro — em 1970, a relação era de 5,5% e agora está ao redor dos 5%.

Essa constatação não implica que o Brasil estará livre de  dificuldades se as cotações das matérias primas despencarem. Choques nos termos de troca por si só não explicaram no passado e não explicam agora as desventuras  dos exportadores de matérias básicas — a qualidade da política macroeconômica, sim. A diversificação de sua base exportadora é  logicamente um amortecedor dos efeitos negativos, da mesma forma que uma forte posição fiscal, que dá a possibilidade de usar políticas contracíclicas, e um sistema cambial flexível, que tem um “papel poderoso” nesse sentido.

E, uma vez instalado o ciclo baixista das commodities, tiveram melhor desempenho os “países que se comportaram mais prudentemente durante a fase de boom — prevenindo ou limitando a deterioração das posições fiscal e externa subjacentes”.

Para muitos países exportadores de commodities, as fases de crescimento dos preços não facilitaram em nada as condições para enfrentar a depressão posterior das cotações.  Um dos motivos apontados foi o de que eles “não permitiram que a taxa nominal de câmbio se apreciasse mais”. Um outro, que eles desperdiçaram a oportunidade de reforçar sua posição fiscal. Mais um: não usaram a bonança para melhorar sua situação fiscal.

Luis Nassif

Jornalista, com passagens por diversos meios impressos e digitais ao longo de mais de 50 anos de carreira, pelo qual recebeu diversos reconhecimentos (Prêmio Esso 1987, Prêmio Comunique-se, Destaque Cofecon, entre outros). Diretor e fundador do Jornal GGN.

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