4 de junho de 2026

“Nunca vi um vazamento tão pequeno gerar tamanha reação”

Do Valor Econômico

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Para Chevron, reação das autoridades do Brasil ao vazamento foi exagerada

A Chevron Corp., impedida de perfurar mais poços no Brasil e enfrentando uma investigação criminal sobre um vazamento de petróleo na costa do Rio de Janeiro, acusa as autoridades locais de reagir de maneira exagerada e “intrigante”, e sugere que o clima operacional para as grandes petrolíferas está ficando mais hostil no país.

Leo Pinheiro/Valor/Leo Pinheiro/Valor
Ali Moshiri, presidente da Chevron América Latina e África: exagero

“Nunca vi um vazamento tão pequeno gerar tamanha reação”, disse, em entrevista ao “The Wall Street Journal”, Ali Moshiri, que comanda as operações da Chevron na América Latina e na África. “Essa reação exagerada está nos intrigando.”

Moshiri pode ter de se acostumar com isso, dizem especialistas do setor petrolífero. A reação brasileira reflete uma tendência de mais regulamentação e tolerância zero até com acidentes relativamente modestos, depois do vazamento de 4,9 milhões de barris de petróleo da BP no Golfo do México ano passado. O vazamento da Chevron no Rio, no início de novembro, despejou 2.400 barris.

O vazamento da BP “mudou a visão das pessoas sobre tudo que fazemos”, diz Fadel Gheit, o analista sênior de petróleo e gás do banco de investimento Oppenheimer & Co. “[As autoridades] não podem permitir qualquer erro, não importa o quão pequeno.”

A situação não poderia ser diferente no Brasil, onde o futuro do Partido dos Trabalhadores está cada vez mais ligado ao sucesso brasileiro na exploração de reservas em águas profundas. O Brasil descobriu em 2006 depósitos gigantescos, mas em profundidades extremas, na costa do Rio. E os políticos do partido prometeram nada menos que usar o petróleo para erradicar a pobreza e catapultar o Brasil para o primeiro mundo. O plano é para a Petrobras investir mais de US$ 200 bilhões para ajudar a dobrar a produção do país.

As grandes petrolíferas multinacionais já estão com um papel secundário nisso. O Brasil fortaleceu seu controle sobre o setor, anunciando, em 2009, regras que obrigam a Petrobras a ter um papel dominante nas novas explorações, garantindo à ela uma grande parcela em qualquer campo.

As autoridades agora estão deixando claro para as firmas que a margem de erro é mínima. Pouco depois de o vazamento ser descoberto, o secretário estadual do Meio Ambiente do Rio de Janeiro, Carlos Minc, sugeriu que a Chevron fosse banida do país. A Polícia Federal abriu uma investigação criminal; as autoridades de regulamentação chamaram a Chevron de “negligente” e suspenderam suas atividades de perfuração.

Moshiri disse em entrevista que a reação foi desproporcional e não reflete o esforço bem-sucedido da Chevron para tampar o vazamento – em que o petróleo não chegou à praia – em apenas quatro dias. Ele disse que a rigidez brasileira pode sair pela culatra e esfriar o interesse das petrolíferas em operar no país, enquanto cria uma falsa expectativa de que a investida gigantesca do Brasil nas águas ultraprofundas será livre de acidentes.

“Se a reação para esse incidente foi dessa magnitude, imagine como seria se o vazamento fosse três vezes maior”, diz Moshiri. “Se alguém acha que [esse tipo de incidente] não vai se repetir, eu gostaria de conversar com ele.”

Moshiri disse que a reação complicou o reparo do vazamento. Os empregados da Chevron, por exemplo, tiveram de largar o conserto para depor na polícia. As agências estaduais geralmente ajudam na tarefa crucial de coibir o vazamento antes de começar a procurar o culpado. A Chevron conseguiu “consertar o vazamento enquanto a Polícia Federa ainda intimava os empregados”, disse Moshiri. “Foi um fardo incrível”.

A Polícia Federal não quis comentar, alegando que a investigação ainda está em andamento. O Ministério de Minas e Energia não retornou o pedido de comentário. As autoridades brasileiras já disseram que agiram de maneira responsável para garantir o cumprimento da lei e regulamentar a indústria petrolífera do país, em crescimento veloz.

A capacidade brasileira de elevar os padrões reflete mudanças no negócio. Uma proporção crescente das reservas acessíveis é controlada por países com petrolíferas estatais. Isso significa que as multinacionais precisam atender a cada vez mais exigências governamentais. “Quando você tem uma oportunidade de ter acesso aos recursos naturais, não é algo que abandona facilmente”, disse o analista sênior de energia da Argus Research, Phil Weiss.

Mas o Brasil precisa dos recursos e do conhecimento das petrolíferas internacionais para ajudá-lo a desenvolver seus poços em águas profundas, dizem analistas. “Estamos comprometidos com o Brasil”, disse Moshiri. “Vamos nos esforçar para convencer [o Brasil] a nos permitir retomar as operações normais. Seremos pragmáticos, cooperaremos e tentaremos deixar claro quais os riscos.”

Luis Nassif

Jornalista, com passagens por diversos meios impressos e digitais ao longo de mais de 50 anos de carreira, pelo qual recebeu diversos reconhecimentos (Prêmio Esso 1987, Prêmio Comunique-se, Destaque Cofecon, entre outros). Diretor e fundador do Jornal GGN.

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