O tom agressivo e maniqueísta dos neonazistas, conforme relato abaixo, publicado na Folha, é o mesmo utilizado por revistas como a Veja (que acusou os manifestantes da USP de serem “mimados protestando apenas para usar drogas no campus”).
A pregação pela polícia no campus é a mesma tantas vezes vista, ouvida e lida na grande mídia: sem qualquer preocupação com o equilíbrio e a pluralidade de opiniões.
Até a “condenação ideológica” do protesto dos estudantes, fomentada pelos jornais, principalmente, os de São Paulo, encontra eco na repetição de vozes sem zelo pela civilidade, agora materializadas em cartazes e panfletos ameaçadores.
A ampla repercussão de uma cobertura intolerante pode não ser a causa última destas manifestações ultrarreacionárias, que agora vemos nas ruas, e que já foram presenciadas nas redes.
Mas já se alertou há algum tempo que a intolerância vulgarizada pelos jornais, revistas e tevês fomentam e desinibem o radicalismo nas redes e nas ruas.
Foi assim nas eleições, foi assim recentemente no anúncio da doença do ex-presidente Lula (o que estranhamente surpreendeu jornalistas que praticam a mesma intolerância), está sendo assim no Caso USP.
Não há uma relação unívoca de causa e efeito evidentemente. Mas quando os meios de comunicação não filtram manifestações de intolerância, como no caso das questões políticas, e neste agora, contra os garotos da USP, não é difícil que muitos “nas ruas” se sintam autorizados a fazer o mesmo.
A grande imprensa deve repensar o que está fazendo. E principalmente não pensar que não tem nada a ver com isso. Ela tem forte responsabilidade, sim, pela “produção discursiva da repulsa”.
Mais do que nunca urge que a mídia desempenhe um papel de moderação, que seja um espaço pluralista, e um agente civilizador, antes que tenhamos uma sociedade partida e muito, muito mais perigosa do que já é.
Cartazes com ameaças a estudantes na USP
Rafael Sampaio
“Atenção drogado: se o convênio USP-PM acabar, nós que iremos patrulhar a Cidade Universitária!”
Cartazes como esses, com ameaças contra usuários de maconha e frases anticomunistas, foram afixados anteontem por skinheads na USP.
Os panfletos foram colados em pontos de ônibus na Cidade Universitária, à tarde.
A Folha encontrou restos dos papéis em dois pontos: na entrada da Faculdade de Educação e no portão principal da universidade.
A PM diz ter apreendido os cartazes com dois jovens. Eles foram abordados e tiveram os dados registrados para apuração, segundo o coronel Wellington Venezian, que comanda o policiamento na região oeste de SP.
Não foi confirmado se eles são ou não alunos da USP. Nos dias de semana, o campus tem acesso livre.
A Decradi (Delegacia de Crimes Raciais e Delitos de Intolerância) afirma investigar o caso e ter identificado os responsáveis.
Segundo a delegada Margarette Barreto, o grupo foi identificado como sendo um dos “movimentos de intolerância” que atuam na cidade.
Em um dos cartazes, um grupo de skinheads aparece sobre a frase: “maconheiro, aqui você não terá paz”.
No segundo, uma referência ao CCC (Comando de Caça aos Comunistas, organização de extrema-direita que atuou no regime militar) aparece com a imagem do jornalista Vladimir Herzog, morto nos porões da ditadura. Na versão dos militares, divulgada à época, Herzog se matou.
Estudantes relataram que foram ameaçados por dois skinheads anteontem, diante da Faculdade de Educação. “Vieram querendo intimidar, perguntaram se éramos contra a polícia”, afirma o aluno H., 30.
A crise da USP foi deflagrada após três alunos serem pegos com maconha. Colegas tentaram impedir a prisão. Houve confronto com a PM e os prédios da FFLCH e da reitoria foram invadidos.
| Editoria de Arte/Folhapress | ||
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