Muita gente deleita-se com as carnes exóticas incorporadas ao cardápio das churrascarias rodízio, ou então lambe os beiços e revira os olhos diante de maminhas, picanhas, frangos a passarinho – quando não dos próprios pássaros ou outros animais silvestres caçados ilegalmente – bacalhaus e demais iguarias do reino animal. O que conta são a maciez da carne, o sabor inconfundível dos temperos ou o estalar dos bocados crocantes a cada mordida.
As pessoas não costumam atentar às condições de engorda, transporte e abate que a sociedade inflige a animais de corte. Alguns caminhões que levam suínos aos abatedouros estampam no parachoque frases como “Eu vou, mas o cheiro fica” e “É fedido, mas é gostoso”. Outros motoristas fazem suas refeições calmamente nos postos de combustíveis enquanto engradados com aves sedentas permanecem no caminhão estacionado sob o sol a pino.
Vez ou outra ocorre uma reação indignada quando a vigilância sanitária interdita um matadouro clandestino ou desbarata o esquema que abastecia um restaurante oriental com carne de cachorro obtida em precárias condições de higiene. Mas o falatório dura uns dias e só. Logo o noticiário volta a anunciar as oscilações do preço da arroba do boi gordo.
Aliás, uma parcela da população abdica das carnes por motivos religiosos, enquanto outra o faz pelo simples fato de não ter dinheiro para consumi-las. Afinal, carne é mercadoria, ou commodity negociável ao sabor do mercado. Existe também quem renuncie à carne de modo involuntário, o que geralmente acontece por recomendação médica para reduzir os níveis de colesterol.
Vendo cenas de brutalidade no transporte de animais de corte, há alguns anos resolvi aderir à dieta ovolactovegetariana. Descobri que isto pode ser trabalhoso. Em alguns restaurantes, a criatividade fica muito aquém da riqueza de sabores, aromas e cores do reino vegetal. Em padarias e lanchonetes, salgadinhos de milho, palmito, ricota com espinafre e escarola são feitos em menor quantidade do que os de frango, carne e presunto com queijo. Se o freguês chega muito cedo para comer, corre o risco de encontrar apenas produtos amanhecidos; se vai durante o horário de maior movimento, tem de disputá-los a tapa com os demais clientes; se deixa para depois, pode encontrar apenas as migalhas.
Depois de duas semanas, já me sentia monotonamente abastecida de palmito até as orelhas. Continuei frequentando açougues para comprar carne para o restante da família. Comumente alguma consumidora na fila dirigia-se a mim comentando como estavam “lindas” as costelinhas de porco e “viçosos” os mocotós, e que “isso tudo dá uma fome, não é mesmo?”
Após um mês, sentia-me fisicamente muito bem e em paz com minha consciência por não compactuar com o transporte de animais em condições inadequadas, ainda que isso representasse apenas uma gotinha no oceano. Mas, por muito pouco fui reprovada na triagem dos doadores do banco de sangue e instruída pela enfermeira a comer “bastante carne vermelha” e voltar dali a dois meses. Desde então, como peixe com regularidade e carne vermelha duas vezes ao mês, ainda que sinta certa culpa.
Parece que desde sempre houve abate de animais para a subsistência humana. O debate ético sobre consumir ou não a carne no contexto da sobrevivência da humanidade é interminável. Há espaço, inclusive, para a convicção dos veganos, que não consomem nenhum tipo de produto de origem animal, nem mesmo sapatos, cintos ou bolsas de couro. O que seguramente não deveria haver é brecha para crueldade em nenhuma etapa desta cadeia produtiva
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