4 de junho de 2026

Educação paulista censura Flaubert

Atualizado ‘as 20:19

Em Observação

Por Professor Anonimo

CENSURA NA EDUCAÇÃO DO ESTADO DE SP

Nassif, não gosto de postar anonimamente, mas esta denúncia tenho de fazer. 

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Hoje foram distribuídos na escola onde leciono os chamados Kit’s de leitura. São kit’s compostos por, no dizer da coordenação do Programa Apoio ao Saber, “três títulos de literatura de autores importantes e consagrados”. É, diga-se de passagem, uma iniciativa positiva, pois os livros são bem selecionados e adequados à faixa etária de cada série.

No entanto, no kit destinado ao terceiro ano do EM, houve a distribuição de apenas dois livros. A pessoa encarregada da distribuição foi avisada de que a Diretoria de Ensino da minha região deu a ordem de retirar do kit o romance Madame Bovary, de Gustave Flaubert. Um livro que, em sua época, ano 1857, causou furor, tanto que seu autor foi processado pelo governo francês por ofender a moral pública e a religião porque o livro, ao abordar a temática do adultério, se utilizou de um erotismo até então não em voga na Literatura. 

O fato mais engraçado é que adoto como material didático o livro didático,  indicado pelo MEC, Português Linguagens, do autor William Roberto Cereja. Na página 222, deste livro o primeiro romance indicado para os alunos iniciarem seu conhecimento pela escola literária realista é exatamente o livro de Flaubert.

Para um estado que se diz a locomotiva do Brasil e exemplo de modernidade, é extremo absurdo a tomada de atitude que faz jus ao reacionarismo de um século e meio atrás.  Em 2010, o livro Os Cem Melhores Contos Brasileiros do Século XX também foi recolhido; a vítima da vez foi o escritor Ignácio de Loyola Brandão, por conta do excelente conto Obscenidades para uma dona-de-casa. 

  Creio que a banalização sexual deva entrar em pauta nas discussões sobre a educação, mas censurar os “consagrados autores”, a ponto de repetir a mentalidade de uma sociedade do século XIX, é uma atitude extremada, como se nossos jovens não conhecessem os temas da literatura realista, ainda mais quando nossa grande mídia tem uma programação de alto teor erótico, pra não dizer pornográfico.

Por Luiz Eduardo Brandão

Esse post devia ser posto “em observação”.

Pegando a deixa do Gilberto às 18:04, sem saber qual diretoria de ensino que proibiu, como podemos, não só verificar a autenticidade da denúncia, como também reclamar de público, se procedente, contra essa censura medievalesca. Se a onda pegar, já, já, proíbem o Dom Casmurro, afinal a Capitu não deixa muito a dever à madame Bovary…

Luis Nassif

Jornalista, com passagens por diversos meios impressos e digitais ao longo de mais de 50 anos de carreira, pelo qual recebeu diversos reconhecimentos (Prêmio Esso 1987, Prêmio Comunique-se, Destaque Cofecon, entre outros). Diretor e fundador do Jornal GGN.

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