Do Terra Magazine
Crônicas de Humberto Werneck renovam tradição do humor

Lilo Clareto/Divulgação
O escritor Humberto Werneck lança “Esse inferno vai acabar”, sua segunda coletânea de crônicas
Claudio Leal
Pois é, a coxinha de catupiry sumiu. Humberto Werneck, um cavalheiro do “tempo dos salgadinhos reconhecíveis”, oferece as descrições biométricas dessa gordurosa madeleine, para facilitar a caçada: “Lembra? Enorme, obesa!”. A páginas tantas de “Esse inferno vai acabar” (Arquipélago Editorial), o segundo livro de crônicas de Werneck, o leitor passa a salivar por ter reecontrado outro aperitivo – o humor. Que deu para fugir de casa. Se não é aguda, é crônica, avisava Rubem Braga. Mas vá saber por que a turma anda tão indócil e disposta a resolver as encrencas de Barack Obama num espaço que, não faz muito, Paulo Mendes Campos usava para esclarecer que “nem os hipertensos se habituam às mulheres sem sal”.
Publicada aos domingos no Estado de S.Paulo, na última página do caderno de cidade, a prosa de Humberto Werneck é companheira de viagem de Luis Fernando Verissimo, outro a engatar, no mesmo jornal, uma crônica humorística que renova a sedução das pequenas histórias, repletas de piscadelas para o leitor. Os dois integram uma linhagem brasileira que não apenas inclui Paulo Mendes Campos, mas igualmente Drummond, Antonio Maria e Fernando Sabino, alguns dos mestres dos relatos palreiros mas ágeis, digressivos mas enxutos.
Apesar de ter organizado sua primeira coletânea somente em 2010, com “O espalhador de passarinhos“, Werneck apresentou em “O desatino da rapaziada – Jornalistas e escritores em Minas Gerais“, obra de 1992, o estilo que o define como cronista, naquele tom vizinho à oralidade, sempre disposto a entregar erudição e repertório mundano sob o revestimento do riso. E não está sozinho nessa história, pois até mesmo Rubem Braga, capixaba e mineiro acidental, embebeu-se da dicção que o crítico Antonio Candido diagnosticou nas Alterosas: “a confluência, na maneira de escrever, da tradição, digamos clássica, com a prosa modernista”.
Numa leitura secundária, os textos de “Esse inferno vai acabar” formam um painel da arte de iniciar uma conversa, entregando o sabor dos arrancos que obrigam o leitor a segurar com mais firmeza as folhas do jornal. “O futuro, não sei, mas o meu passado acaba de melhorar consideravelmente”, introduz Werneck, antes de apresentar Maria Francisca, sua “prima barbada de Maçambará”. Em “A escolhida”, um relicário das “horas dançantes” da garota Dilminha em Belo Horizonte (se quer saber, vizinha do cronista e futura Dilma Dinamite daNewsweek), uma preciosidade do espírito mineiro surge na primeira linha: “Em Minas não acontece nada, mas o pessoal se lembra de tudo”.
Essa habilidade se fez notar ao romancista António Lobo Antunes, numa das mesas da Flip de 2009. No final da entrevista, em Paraty, o português descreveu de memória a abertura de “O Santo Sujo – A vida de Jayme Ovalle“, sua leitura do dia anterior: “Houve uma noite em que o vasto espelho de cristal que ornava a sala da casa dos Ovalle, em Belém do Pará, despencou e se fez em pedaços”.
Agregado a isso, há um poder de definição de personagens e lugares, jogando com os mil signficados de uma palavra, do sacanês ao casto: “É assim a Solange, criatura para a qual ninguém morre, mas falece, e, quando sobrevém esse infausto acontecimento, tem seu corpo acondicionado num ataúde, num esquife, quiçá num féretro, para ser inumado em alguma necrópole, ou, mais recentemente, incinerado em crematório. Cabelo de gente assim não se torna vulgarmente quebradiço, que nem o seu e o meu: pendoa, bifurca-se nas extremidades” (“Que seria de mim sem a Solange?”). Fora do livro de crônicas, mas dentro das aventuras de repórter, haverá de ser lembrado o dia em que Werneck descreveu a um antigo inquilino, então exilado político, o estado de um solar localizado na calle Zulueta, 408, atrás do paseo del Prado e do Capitólio, em Havana. Ali viveu, de julho de 1941 até abril de 1951, o romancista cubano Guillermo Cabrera Infante, que não vacilou em afirmar que havia um escritor do outro lado da linha.
Embora não seja o compasso de “Esse inferno vai acabar”, pois apenas cinco das 44 crônicas enquadram escritores (entre eles, João Etienne Filho, Hilda Hilst e Vinicius de Moraes), Humberto Werneck cumpre um papel que não será esquecido: nas curvas perigosas da sua geração, ele é dos raros a deslizar no amor pela literatura brasileira, dos aspectos textuais às misérias e encantos biográficos de bichos como Manuel Bandeira, Augusto Frederico Schmidt, Pedro Nava, Drummond, Aníbal Machado, João Cabral, Otto Lara Resende. E a listagem poderia seguir com autores menos comentados que qualquer estreante da “Granta”. Mais do que transmitir essa paixão, Werneck nos incita a buscar em nosso sistema literário um antídoto contra os infernos, esses aí, que não se acabam.
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