
Hollywood vem experimentando uma guinada metafísica nos últimos anos. Filmes como “Show de Truman”, “Mera Coincidência”, “O Quarto Poder”, “Matrix”, “Vanilla Sky” até o recente “A Origem”, vêm apontado para uma tendência de auto-reflexão ao tomar a própria mídia e as novas tecnologias como tema, porém num sentido metafísico: e se considerarmos que a própria realidade está deixando de existir como tal? O que chamamos de realidade já teria se reduzido a uma fina interface gerada pela presença das mídias e tecnologias que a observam. Por que este tema do colapso das fronteiras entre essência e aparência, realidade e simulacro torna-se recorrente em Hollywood?
Boris Groys (filósofo e crítico de arte alemão) acredita que o cinema mainstream hollywoodiano entrou numa fase metafísica, numa espécie de auto-reflexão. Ao contrário do cinema europeu que se preocupa com o tema do humano, demasiadamente humano, Hollywood vem recentemente tomando a própria mídia e as tecnologias de comunicação como foco. Groys salienta que esta auto-reflexão nada teria a ver com a perspectiva iluminista, isto é, a de procurar o trabalho sujo, a arte feia por trás da bela ilusão da realidade produzida tanto pelo dispositivo cinematográfico como pela sua narrativa.
“Para sabê-lo, muito mais úteis parecem ser a sociologia, a análise econômica, a análise de poder etc. Sem prejuízo do que todas essas veneráveis ciências são capazes, incorrem elas num erro fundamental. Não consideram a possibilidade de que a própria realidade, inclusive toda a sociologia, a ciência econômica etc., possa ser um filme mal produzido.”[1]
Para discutirmos os aspectos políticos ou ideológicos que permeiam o processo de representação ou esteticização da realidade no cinema temos as ciências como a Sociologia ou a Economia. Mas, e se considerarmos que a própria realidade, cercada por um ambiente altamente midiatizado pelas tecnologias de comunicação e informação, estaria se tornando, ela própria, um campo de eventos cada vez mais artificiais?
Explicando melhor, e se a própria estrutura dos acontecimentos se tornasse cada vez mais moldada ou influenciada pela presença massiva dessas tecnologias ao ponto que os eventos progressivamente se esvaziassem em seu estatuto ontológico de fatos fechados em si mesmo, espontâneos, históricos?
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E se a realidade for uma fina interface gerada |
Para Groys, este “erro fundamental” seria o de que as metodologias das ciências humanas ainda não perceberam esta espécie de paradoxo quântico na relação das mídias diante da própria realidade: o olhar do observador altera o transcorrer dos próprios fenômenos que ele quer observar. E se o social, o político e o econômico tiverem o seu vir-a-ser determinado pela existência das mídias que os observam? Consumindo as imagens dos eventos através das mídias ainda as tomamos pela tradicional noção ontológica de realidade, mas, ao contrário, há muito tempo deixaram de ser imagens da realidade para se tornarem cada vez mais representações de representações (simulacros) que tomamos como o próprio real. O que chamamos de realidade já teria se reduzido a uma fina interface gerada pelos códigos midiáticos.
Este questionamento, já levantado por diversos pesquisadores de diferentes matizes teóricas (tais como Jean Baudrillard e Daniel Boorstin), encontra correspondência na safra de filmes recentes de Hollywood como Show de Truman, Mera Coincidência, O Quarto Poder, Matrix, entre outros. Matrix, por exemplo, faz uma homenagem ao próprio Baudrillard em uma seqüência onde o livro “Simulacros e Simulações” (um dos principais da sua obra) serve de esconderijo para CDs com programas piratas. Mas de que maneira este questionamento teórico e epistemológico encontrou tal repercussão no cinema mainstream hollywoodiano?
Os recentes avanços tecnológicos e científicos têm levado as pessoas a questionar nossa percepção da realidade, e o cinema tem seguido esta tendência. Filmes recentes vêm explorando mundos virtuais e as falsas percepções da realidade. Autores como Eric Wilson e Jennifer Emick[2] apontam que este questionamento dentro destes filmes vem carregado de uma forte motivação transcendente ou mística que estaria na gênese de um novo gênero cinematográfico: o filme gnóstico. Uma das evidências disso é o súbito interesse de diretores de Hollywood pela obra do autodenominado escritor gnóstico Philip Dick, falecido em 1982.

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