4 de junho de 2026

O Brasil não tem crescimento chinês

Do Valor

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Política econômica ajustada

Antonio Delfim Netto
26/07/2011

Entre o segundo trimestre de 2003 e o seu homônimo de 2011, a economia brasileira cresceu à taxa de 4,4% ao ano. Ela foi muito prejudicada pela crise internacional produzida pela patifaria financeira praticada com a bênção de “economistas” financeiros, sob os olhos complacentes dos bancos centrais do mundo (o Brasil foi exceção). Para quantificar seu efeito talvez seja útil considerar a tabela nº 1, onde registramos taxas de crescimento anuais da economia brasileira, entre os segundos trimestres de cada ano. Uma estimativa grosseira do “custo” (em termos de PIB) produzido pela crise é da ordem de 1,9% (5,2% – 3,3%) ao ano, ou quase 6% no período. Em reais de 2011, alguma coisa parecida com 240 bilhões de renda, incluídos os 80 bilhões de impostos, não recolhidos porque não houve renda…

É importante insistir que na média do período, o crescimento do PIB nunca foi superior a 5%. Quando se “alisa” a taxa de crescimento com uma média móvel de três anos que reduz o nível de flutuações eventuais para mais ou para menos, como as produzidas por “choques” internos (supersafra ou crise de energia) ou externos (substancial melhoria das relações de troca, por exemplo) ela foi da ordem de 4%. O quadro 2 abaixo mostra isso com clareza.

VeseVê-se claramente, que o tão festejado “crescimento chinês” da economia brasileira em 2010/09 não passou, infelizmente, de um simples artefato estatístico. É ridículo continuar a insistir sobre esse ponto. Os números mostram que nunca, nos últimos oito anos (medidos entre o segundo trimestre de cada ano sobre o seu homônimo anterior), o crescimento do PIB foi maior do que 5% e, na média, mal chegou a 4,5%. Nada excepcional para a nossa mal arranjada estrutura produtiva.

Se tomarmos o período 2T-2008, quando o PIB estava rodando em torno de 6,5% (com média móvel de 3 anos da ordem de 5% e inflação em torno de 5%) e o compararmos com 2T-2011, veremos que a taxa de crescimento andou em torno de 3,3% ano (mesmo supondo 1,5% de crescimento de 2T-2011 sobre 2010). Com os investimentos do período, isso não parece indicar que haja o “descomunal excesso de demanda global sobre a oferta global” que exigiria uma política fiscal e monetária muito diferente da que estamos praticando, como querem alguns “falcões” do mercado financeiro. Aliás, se observarmos as médias móveis trienais de PIB e taxa de inflação, no período, verificaremos que é difícil encontrar qualquer relação entre elas, como se vê no gráfico 1.  

Os números certamente revelam uma pressão inflacionária na margem devida a um choque externo (facilmente identificável porque ele é universal) e a um choque interno, mais visível no setor de serviços. Há razões para suspeitar que neste caso se trata muito menos de algum “excesso de demanda global” do que de um desequilíbrio estrutural entre a quantidade e a qualidade da demanda e da oferta de trabalho. As informações de uma alta geral de salários reais acima da produtividade marginal da mão de obra (esse sim, um sinal grave de tensões inflacionárias) não são seguras, o que sugere que as nossas políticas fiscal e monetária têm de ser apoiadas por medidas microeconômicas urgentes para ajustar o mercado de trabalho. 

Deve ser evidente que o processo civilizatório que está ocorrendo na sociedade brasileira não pode nem deve ser interrompido ou revertido reduzindo dramaticamente o crescimento e aumentando o desemprego através de uma política fiscal recessiva, acompanhada de taxas de juros reais ainda mais altas das que as vigentes.

Antonio Delfim Netto é professor emérito da FEA-USP, ex-ministro da Fazenda, Agricultura e Planejamento. Escreve às terças-feiras.

E-mail [email protected] 

Luis Nassif

Jornalista, com passagens por diversos meios impressos e digitais ao longo de mais de 50 anos de carreira, pelo qual recebeu diversos reconhecimentos (Prêmio Esso 1987, Prêmio Comunique-se, Destaque Cofecon, entre outros). Diretor e fundador do Jornal GGN.

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