4 de junho de 2026

O combate ao crack

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Comentário ao post Combate ao crack, por Dráuzio Varella

 Sou psicólogo, mestre e doutor em saúde coletiva e trabalho na rede de saúde mental de Macaé/RJ, mais especificamente na unidade de emergência psiquiátrica do município. Além de ter sido membro do conselho municipal de políticas sobre drogas.  O que acho que me habilita para falar do assunto com um pouco mais de propriedade que o festival de senso comum que o Dr. Draúzio Varela explicita (parece entender do assunto tanto quanto eu entendo de câncer).

As pessoas precisam ser informadas de alguns dados básicos para uma discussão mais qualificada desse tema:

– hospitais psiquiátricos eram e são cenários de filmes de terror onde pacientes vagavam como zumbis, sendo periodicamente torturados por práticas como eletrochoques (usando na sua esmagadora maioria nesses lugares como técnica de tortura e não tratamento) e toda série de maus tratos que se pode imaginar, tudo fartamente financiado com dinheiro público. É preciso que se lembre a classe média (se funcionar) o que eram esses lugares que eles querem reativar para ver longe de seus olhos esse problema;

– Internação compulsória já foi tentada nesses casos no mundo inteiro com resultados insuficientes. Aliás apenas 30% dos casos parecem ter como resultado a abstinência completa. A suíça “não acabou” com as experiências de redução de danos, como diz o texto, apenas as aprimorou, utilizando agora as “narcosalas” onde tolera-se o uso de drogas desde que os usuários sejam acompanhados por uma equipe interdisciplinar de saúde;

– O crack é a pasta base de cocaína misturada com bicarbonato de sódio, o que possibilitou pela primeira vez termos uma droga pesada acessível aos pobres. Antes era cachaça… Tal foi o fruto da política de repressão aos insumos do refino da cocaína, principalmente o éter. E quem diz isso é a direção da polícia federal e não nenhum militante pela legalização das drogas. Não teríamos o crack sem a política proibicionista;

-Recebo a todo momento pedidos de internação para usuários compulsivos de drogas ilegais, de fato as mães chegam desesperadas. Mas na primeira conversa, descobre-se que muitas vezes o paciente já foi internado inúmeras vezes, inclusive por períodos longos. Não é liberalismo político acreditar que sem o componente da vontade esses tratamentos não costumam funcionar, é fato.

– Existe atualmente um movimento corporativo de cunho conservador que tenta voltar atrás nas políticas de reforma psiquiátrica usando o crack como pretexto. Aliás curiosamente costumam se aliar aos defensores de clínicas de cunho religioso (que querem ter financiamento do SUS para fazer seu proselitismo, usuários de drogas são ótimos “alvos” tendo em vista sua fragilidade emocional). Tal movimento é liderado hoje pela ABP (Associação Brasileira de Psiquiatria). É preciso esclarecer que eles estão muito longe de representar hoje consenso técnico com relação ao assunto, vide a posição contrária da ABRASME (associação brasileira de saúde mental), também dirigida por um psiquiatra e defensora da reforma psiquiátrica e das políticas de redução de danos.

– Boa parte dos problemas decorrentes da “epidemia de crack” estão relacionados não tanto com a droga em si, mas com a miséria urbana associada ao uso da substância. Existem usuários de crack por ex. no Canadá, sem que se veja as cenas lamentáveis de metrópoles como São Paulo ou Rio. Atualmente a facudade de Medicina da UFRJ faz parte de uma pesquisa nacional sobre usuários de crack, a Dra. Erotildes Legal faz parte da equipe e seria uma boa fonte para desfazer os mitos sobre o assunto;

-Por último é díficil não ver na defesa desse tipo de política repressiva um sintoma da facistização avançada da classe média tradicional que vem se dando já faz alguns anos. “Crackeiros” incomodam? que  os prendam e coloquem em algum depósito longe das vistas das “pessoas de bem”. Se esses lugares se mostrarem pouco tempo depois sucursais do inferno aí não é mais problema nosso…. No artigo de Draúzio Varela não faltou nem mesmo aquele tradicional apelo emocional usado normalmente na defesa da pena de morte ou redução da maioridade penal (queria ver se fosse seu filho!). Não é “hipocrisia” que usuários de drogas devam ser alvos de repressão policial apenas se cometerem crimes… é simplesmente um principal básico do Estado de Direito, que para o sr. Draúzio Varela e parte de nossa classe média não deve se aplicar a pobres, negros, homossexuais e afins… apenas para “gente diferenciada”.

Luis Nassif

Jornalista, com passagens por diversos meios impressos e digitais ao longo de mais de 50 anos de carreira, pelo qual recebeu diversos reconhecimentos (Prêmio Esso 1987, Prêmio Comunique-se, Destaque Cofecon, entre outros). Diretor e fundador do Jornal GGN.

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