A biruta de aeroporto
Não passava um dia sem que o país fosse sacudido pelas estranhezas de Itamar.
As primeiras vítimas foram Paulo Haddad e Gustavo Krause, respectivamente Ministro da Fazenda e do Planejamento. Eram frequentes as interferências do staff próximo a Itamar na vida de ambos, especialmente o Ministro da Justiça Maurício Correa, o Chefe da Casa Civil Henrique Hargreaves e o Consultor Geral da República, o suspeitíssimo José de Castro.
Certa vez, Maurício Correa chegou a pegar um estudo de Haddad sobre a economia e passar para o Josias de Souza. Um estudo convencional foi tratado com estardalhaço, tirando trechos do discurso para falar em ameaça de hiperinflação.
Critiquei acerbamente a irresponsabilidade de Correa. Pouco depois da coluna publicada recebo um telefonema de um assessor dele, perguntando se aceitaria conversar com o Ministro. Disse que sim. Minutos depois, outro telefonema e o próprio Maurício Correa ao telefone:
– E aí, turcão!
Era esse clima de compadrio que definia as relações internas do grupo e permitia toda sorte de interferências na equipe econômica.
A queda de Krause foi curiosa. Diariamente Itamar desqualificava ministros, assessores. Numa noite, o Jornal da Bandeirantes deu uma matéria mostrando Krause sendo destratado. Comentei a matéria prevendo sua renúncia no dia seguinte. O grande Luiz Guttenberg, que fazia os comentários políticos da Band, entrou depois do meu comentário, desqualificando-o completamente. Disse ter estado naquele dia com Krause e que não havia nenhuma vontade dele em renunciar.
No dia seguinte, Krause renuncia. Tempos depois encontrei-o, lembrei do episódio e quis saber o que aconteceu. E ele:
– Não pensava em renunciar, não. Mas quando ouvi sua análise, prevendo mais crises pela frente, percebi que não dava para continuar com Itamar.
Foi substituído por Yeda Crusius, um furacão de mediocridade e prepotência. Diariamente, Yeda aparecia na mídia dando declarações das mais estapafúrdias, desqualificando Haddad – àquela altura, a única âncora de racionalidade no governo Itamar. Escrevi uma coluna azeda, criticando seu exibicionismo.
Recebo um telefonema em casa. Era ela:
– Nassif, que culpa tenho de ser alta, bonita e inteligente!
Era essa a corte de Itamar.
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