4 de junho de 2026

José Bonifácio, o maior dos brasileiros

Por Marcos Dantas

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José Bonifácio, ele avisou…

Aceitando o convite do Nassif, explico porque tenho José Bonifácio como o maior dos brasileiros.

Filho de família paulista abastada, Bonifácio, aos 20 anos, foi enviado para estudar em Coimbra e só retornou da Europa em 1821, aos 56, idade avançada àquela época. Além da escolástica formação jurídica ou filosófica que, normalmente, os filhos das elites lusitanas e, por extensão, brasileiras, adquiriam então em Coimbra, Bonifácio, num caso muito raro, iria se tornar um cientista natural, conforme o abrangente campo de conhecimento que assim se define, começava a se desenvolver na Europa das Luzes. O jovem Bonifácio se especializaria nas nascentes ciências geológicas. Durante mais de década, estudou em escolas da França e Alemanha, com passagens também pela Rússia, Inglaterra, Boêmia, Suécia, outros países, assim sendo treinado no rigor do método científico e podendo dedicar-se a pesquisas que o levaram a descobrir ou descrever, numa época, repetindo, em que a geologia nascia, os minerais espomudênio (um dos minerais do lítio), petalita, criolita e escapolita. Tão importante foi o seu trabalho que, em 1868, nos Estados Unidos, um mineral recém descrito foi denominado “andradita”.

Primeiro catedrático de metalurgia em Coimbra, Bonifácio, ao voltar ao Brasil, logo se envolveria com o processo político da Independência, tornando-se, naturalmente, dada não somente a sua origem social, mas a sua condição intelectual superior, principal conselheiro do príncipe D. Pedro. Bonifácio formularia e comandaria a engenharia política que permitiu a Independência do Brasil sem sua fragmentação em diversas republiquetas, ao contrário do que se passou na América Espanhola.

Foi na década de 1820, como ministro, deputado ou jornalista que Bonifácio formulou o seu projeto de Brasil, deixando-o registrado em numerosas propostas apresentadas à Constituinte de 1823, em ensaios avulsos ou em textos jornalísticos, reunidos por Mirian Dolhnikoff em José Bonifácio de Andrada e Silva: projetos para o Brasil (Companhia das Letras, 1998). Bonifácio defendia, em indignadas catilinárias contra os senhores de escravos, a imediata abolição da escravidão (quando, conservadores ou liberais, todos eram escravocratas ou escravistas); uma reforma agrária radical que faria João Pedro Stédile parecer moderado; medidas de proteção ambiental a rios e florestas que fariam corar o deputado Aldo Rabello; e por fim, mas não por último, um surpreendente programa público de fomento à mestiçagem entre brancos e índios (quando os índios entre nós ainda eram muito numerosos, não se esqueça) como necessária à constituição de uma forte nação brasileira. Mais à frente, como sabemos, nossas elites iriam defender o “branqueamento” do Brasil.

Não logrou, entre os liberais, dos quais nunca se aproximou, qualquer apoio para as suas idéias. A vociferante oposição, mais virulenta ou menos virulenta, dos Barata ou dos Feijó, apenas sabia criticar, então como hoje, “desmandos” e “roubalheiras”, nada que fosse a fundo nas contradições do País. E acabou, por suas idéias, execrado e abandonado pelos conservadores. Destituído do Ministério por D. Pedro I, em 1823, e deportado de volta à Europa, retorna ao País pouco antes da Abdicação, sendo pelo ex-Imperador nomeado tutor do Infante D. Pedro. O pai sabia a que cabeça entregava a formação do filho. Não fica muito tempo: os liberais que levaram o País quase à fragmentação nos anos que se seguiram à Abdicação, destituem-no em 1833. Ele passa os últimos anos da vida numa casa que ainda existe, na ilha de Paquetá, onde morreu em 1838.

Escreveu Bonifácio: “Se Pedro fosse um déspota como Frederico, capaz de ilustrar e felicitar o Brasil, talvez que lhe perdoasse a sua ingratidão para comigo”. Aí está claro o seu modelo.

Formulo uma hipótese sobre Bonifácio: por circunstâncias muito específicas e excepcionais da sua vida, ele foi um homem fora do seu tempo e lugar. Parece que o intuiu: “Um groenlandês criado por Newton poderá talvez ocupar o seu lugar; e Newton, nascido na Groenlândia, não será se não um homem demais que pese sobre a superfície da terra”. Fosse ele francês, inglês ou alemão teria hoje uma cadeira no panteão mundial dos grandes cientistas, ou mesmo líderes políticos. Sua mentalidade científica, sua capacidade de elaboração racional, seu conhecimento dos números, qualidades essas literalmente quase únicas numa época em que as nossas elites políticas e intelectuais grugulejavam parvoíces verborrágicas jurídicas ou literárias, fizeram-no perceber o extraordinário potencial do País que então se formava, muito além da mediocridade provinciana e sabuja, noves fora o egoísmo predador e ultra-explorador, dos que aqui disputavam o poder, no processo da Independência. “A coisa que mais me enoja em Portugal [e, poderia acrescentar, Brasil] é o tom precioso e impostor dos meus naturais” – assim descreveu seus contemporâneos. Daí torna-se importante reviver agora Bonifácio (se essa hipótese estiver correta) porque, tudo indica, o Brasil de hoje voltou a ser liderado e conduzido, à esquerda ou direita, por ideólogos dados a pretensamente elegantes fraseados escolásticos, quando não a coléricas ofensas mútuas, prontos a se vestirem das últimas modas nominalistas vindas dos centros coloniais (e, ainda assim, só se vestirem), hipócritas catões das virtudes públicas, porém ignorantes da razão científico-técnica à qual, não raro, dedicam afetado desprezo. Se voltasse ao mundo, José Bonifácio talvez dissesse: “Mas eu avisei…”. 

Luis Nassif

Jornalista, com passagens por diversos meios impressos e digitais ao longo de mais de 50 anos de carreira, pelo qual recebeu diversos reconhecimentos (Prêmio Esso 1987, Prêmio Comunique-se, Destaque Cofecon, entre outros). Diretor e fundador do Jornal GGN.

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