4 de junho de 2026

Morre Otto Gottlieb

Considerado o principal nome em química de produtos naturais na América Latina, cientista brasileiro foi indicado em 1999 ao Nobel por seus estudos sobre a estrutura química das plantas (ABC)

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Da Agência Fapesp

Otto Gottlieb morre aos 91 anos

Por Elton Alisson

Agência FAPESP – Faleceu na madrugada de 20 de junho, no Rio de Janeiro, aos 90 anos, o químico, pesquisador e professor Otto Richard Gottlieb. O sepultamento está marcado para as 12h desta terça-feira (21/06), no Cemitério Comunal Israelita do Caju, na zona norte do Rio de Janeiro.

Considerado o maior nome em química de produtos naturais da América Latina, Gottlieb foi indicado em 1999 ao Prêmio Nobel por seus estudos sobre a estrutura química das plantas, que permitem analisar o estado de preservação de vários ecossistemas. A indicação foi feita oficialmente pelo polonês naturalizado norte-americano Roald Hoffmann, que recebeu o Nobel de Química em 1981.

Nascido em Brno (atual República Tcheca) em 31 de agosto de 1920, Gottlieb chegou ao Brasil em 1939 e, no ano seguinte, ingressou no Colégio Universitário. Durante esse período, estagiou no Laboratório de Imunologia do Instituto Butantan e foi redator da revista Química, publicada pela Escola Nacional de Química.

Em 1945, o cientista se formou em primeiro lugar no curso de Química Industrial pela Universidade do Brasil, que originou a Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), onde fez doutorado e obteve o título de livre-docente.

Após se formar, Gottlieb trabalhou por dez anos na indústria química do pai, que fabricava óleos essenciais da flora brasileira, utilizados como matéria-prima de perfumaria. Dez anos depois, aos 35, decidiu participar de um dos mais importantes grupos de pesquisa sobre produtos naturais da época, o Instituto Weizmann de Ciências, em Israel, iniciando uma investigação sobre o isolamento de substâncias químicas de plantas e a determinação de sua estrutura.

Em 1961, retornou ao Brasil para assumir o cargo de tecnologista do Instituto de Química Agrícola (IQA), onde foi responsável por importantes descobertas como o pau-rosa.

Em 1964, seguiu para a Inglaterra, para lecionar como professor visitante na Universidade de Sheffield, e para os Estados Unidos, para realizar um estágio de um mês na Universidade de Indiana. No mesmo ano, retornou ao Brasil para a chefiar a implantação do Laboratório de Fitoquímica da Universidade de Brasília (UnB).

Em 1967, fundou, com financiamento da FAPESP, o Laboratório de Química de Produtos Naturais no Instituto de Química da Universidade de São Paulo (USP), onde se aposentou em 1990.

Em seguida, retornou ao Rio de Janeiro para trabalhar como pesquisador na Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), onde atuou até sua aposentadoria no antigo Departamento de Fisiologia e Farmacodinâmica.

Com mais de 700 trabalhos e alguns livros publicados, Gottlieb é considerado o pioneiro na introdução do estudo das moléculas que fazem parte do metabolismo das plantas (fitoquímica) no Brasil, concomitantemente com a química orgânica moderna.

Entre as espécies estudadas por Gottlieb estão as lauráceas, a que pertencem o sassafrás e o louro, e as miristicáceas, representada pela noz-moscada. Seus estudos sobre a canela também resultaram em aplicações medicinais, fitoterápicas e culinárias da espécie, além de propriedades aromáticas utilizadas na indústria cosmética. Descobriu ainda substâncias de grande importância para a medicina, como as neolignanas, que têm efeitos comprovados contra a doença de Chagas e propriedades antiinflamatórias.

Integrando a química à biologia, à ecologia e à geografia, Gottlieb desenvolveu uma nova área de estudo no campo da química de produtos naturais: a sistemática bioquímica das plantas, também chamada de quimiossistemática ou taxonomia química, que consiste na identificação de grupos de substâncias químicas presentes nas plantas.

“Ele tinha uma verdadeira paixão pela química de produtos naturais. Achava que as micromoléculas poderiam orientar e servir de base para os estudos de filogenia e taxonomia. A química de produtos naturais feita hoje no Brasil se deve praticamente a todo o trabalho dele”, disse Vanderlan Bolzani, professora da Universidade Estadual Paulista (Unesp) e membro da coordenação do programa BIOTA-FAPESP, à Agência FAPESP.

Orientada por Gottlieb no mestrado e doutorado, Bolzani lembra que o professor era muito simples no trato com as pessoas, mas, ao mesmo tempo, rígido e extremamente metódico na condução de suas pesquisas e criou uma geração de especialistas em química de produtos naturais no Brasil.

“Ele foi uma pessoa fascinante e está incluído entre os grandes cientistas do Brasil. Saiu divulgando a química de produtos naturais por todo o país em uma época em que, praticamente, se desconhecia técnicas como a ressonância magnética e a espectrometria de massas. Do laboratório dele no Instituto de Química da USP saíram as maiores lideranças que temos hoje no Brasil em química de produtos naturais”, afirmou Bolzani.

Gottlieb deixou esposa, três filhos, 11 netos e um bisneto.

http://www.canalciencia.ibict.br/notaveis/txt.php?id=73

Otto Richard Gottlieb
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(1920)

Entrevista concedida a Vera Rita da Costa (Ciência Hoje).

Publicada em outubro de 1988.

O cientista que habita a torre de marfim, costuma-se dizer, é aquele que se isola dos problemas sociais. Este não é o caso de Otto R. Gottlieb. Seus mais de 40 anos dedicados à química não o fizeram esquecer problemas como a devastação das florestas, a crise populacional e a deterioração ambiental. No entanto, ele defende, sim, a torre de marfim. Só que a torre que preconiza é o lugar distante do imediatismo das pressões conjunturais. Para ele, a resolução das questões momentâneas cabe à tecnologia. Já o compromisso da ciência é com a descoberta de fatos inéditos que, correlacionados com fatos conhecidos, ajudem a entender o funcionamento da natureza. Descoberta que, num segundo momento, poderá reverter em influência prática para a sociedade. Por isso, acredita ele, o cientista e o tecnologista têm papéis diferentes. Mas Otto vê, ainda, outra função para a torre. Longe de se deixar enclausurar, ele a escala. “Do seu alto”, afirma, “se discernem as fronteiras do nosso conhecimento e, além delas, as áreas de ignorância”.

Como nasceu seu interesse pela química?

Considero a química uma herança de família. Meu avô paterno fabricava louça esmaltada na Tchecoslováquia e meu pai era químico da fábrica. Meu avô materno exportava café do Rio de Janeiro e de Vitória desde 1880. Tanto que no casamento de meus pais se dizia que na xícara se verteu o café. Fiz o primário na Tchecoslováquia, terminei o secundário na Inglaterra e me uni à família em 1939 no Rio de Janeiro, onde, desde 1936, minha mãe gerenciava a exportadora de café e meu pai fundara uma fábrica para a transformação química de óleos essenciais em matéria-prima para perfumaria.

Adaptei meu currículo escolar europeu ao brasileiro estudando dois anos no Colégio Universitário, na época “o melhor curso complementar” de engenharia do Rio de Janeiro. O colégio foi extinto um ano depois de minha saída. Reorganização do secundário? Talvez. Mas o curso era bom demais, causando inveja aos educandários congêneres. Depois entrei na Escola Nacional de Química, no Rio de Janeiro. Em 1945, quando me formei em química industrial, a fábrica estava muito bem e meu pai insistiu para que eu fosse trabalhar com ele. Não queria muito, mas acabei indo e fiquei por dez anos. Lá eu fazia de tudo: comprava, vendia, projetava e executava reações químicas, por vezes até alimentava as caldeiras e virava garrafões.

Quando o senhor começou a pesquisar?

Fiz os primeiros trabalhos quando estava no quarto ano do curso de química. Eram sobre a composição da borracha da mangabeira, que parecia na época destinada a fortalecer os magros estoques de borracha de Hevea (seringueira), e a síntese do DDT, um inseticida pouco conhecido naquele tempo. Ambos foram publicados em 1945, com dois colegas de turma. Na fábrica, eu fazia pesquisa como um alento. Foi lá que inventei a titrimetria gasométrica, um método de análise inorgânica muito particular e diferente dos existentes, em que o ponto final da titulação é dado pelo início ou o fim do desprendimento de um gás. Cheguei a publicá-lo em revistas estrangeiras, mas não sei dizer se é ou foi usado alguma vez.

Luis Nassif

Jornalista, com passagens por diversos meios impressos e digitais ao longo de mais de 50 anos de carreira, pelo qual recebeu diversos reconhecimentos (Prêmio Esso 1987, Prêmio Comunique-se, Destaque Cofecon, entre outros). Diretor e fundador do Jornal GGN.

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