4 de junho de 2026

O acordo agrícola entre China e o Estado de Goiás

Do Uol

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Terras agrícolas são um acordo virtuoso entre o Brasil e a China 

Le Monde
Pierre Langallier
Enviado especial a Uruaçu (Estado de Goiás)  

No Estado de Goiás, são garantidas colheitas de soja às firmas chinesas em troca de empréstimos e de equipamentos

Nesta estação, da chamada “safrinha”, o sorgo e o painço crescem em grandes quantidades nos campos que cercam Uruaçu, cidadezinha do norte do Estado de Goiás.elesofEles oferecem, durante algumas semanas, um espetáculo enganoso, pois no resto do ano nessas mesmas terras, reina sozinha a soja. Que certamente tem um aspecto menos majestoso que esses dois belos cereais, mas é mais cortejada.

A China quer muito a soja daqui, o que explica a assinatura, em abril, de um acordo inédito entre a Federação Agrícola do Estado de Goiás e a companhia paraestatal chinesa Sanhe Hopefull.

Esta se compromete a investir, durante dez anos, o equivalente a 3 bilhões de euros (cerca de R$ 7 bilhões) para desenvolver e modernizar o cultivo nessa região. Em contrapartida, ela poderá comprar 6 milhões de toneladas de soja dos produtores locais. Os chineses já são bastante ativos no sul de Goiás, que lhes vendeu, em 2010, três quartos de suas exportações. Eles se interessaram pelo norte do Estado durante uma viagem que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva fez à China em 2009. Após quatro visitas ao local, lideradas pelo embaixador da China, eles fecharam o negócio, para grande satisfação das duas partes.

Para os chineses, um contrato como esse apresenta diversas vantagens. Ele lhes garante uma segurança de abastecimento e os torna menos vulneráveis às variações de preços do mercado. Ele permite que os brasileiros vislumbrem a possibilidade de desviar, parcialmente, dos gigantes americanos da agroindústria, como a Cargill ou a Archer Daniels Midland, cujos silos e armazéns podem ser vistos pelos campos da região.

Até 2018, o Estado de Goiás prevê dobrar sua produção atual com a ajuda dos chineses. Como? Convertendo para a soja 3 milhões de hectares de pastos degradados – dos 8 milhões existentes na região – que não são mais cultivados há várias décadas. A recuperação dessas terras já começou, para permitir uma retomada da produção já na próxima estação.

O secretário municipal da Agricultura de Uruaçu, Beto Ribeiro, 40, mostra, no meio dos campos, as pilhas de calcário que será espalhado para enriquecer os solos. Com o dinheiro chinês, produtores tradicionais de soja alugarão parte desses pastos para os fazendeiros.

Os chineses financiarão, com empréstimos muito vantajosos, a compra de ceifadeiras de alto desempenho. Essas máquinas podem custar até 250 mil euros (R$ 575 mil). “Não se pode perder a oportunidade de comprar uma dessas em condições favoráveis”, explica Gilbran Campos Alves, um agricultor que se encontrava na sede do sindicato rural de Uruaçu. “Isso vai estimular nossa produtividade”, diz o presidente do sindicato, Alarico Fernandes Júnior.

A empresa chinesa também quer intervir no transporte da produção. Uruaçu a interessa pela sua posição estratégica na extensa Ferrovia Norte-Sul (FNS), em fase de ampliação. A soja será levada por vagões até o porto de Itaqui, perto de São Luís, capital do Estado do Maranhão, no norte do Brasil, onde os chineses têm a intenção de investir. O prazo de escoamento da soja será limitado a dez dias, e os custos de produção reduzidos em relação à atual via de exportação para o sul, até o porto de Santos.

Em abril, a empresa Chongqing Grains assinou, no Estado da Bahia, um outro acordo direto com produtores locais, prevendo a construção de uma usina, de silos, e de um “porto seco”, terminal terrestre ligado às vias de comunicação regionais. Montante do contrato: 1,8 bilhão de euros (R$ 4,15 bilhões).

A China começou com esse gênero de acordo direto desde que soube que não poderia mais comprar terras no Brasil. “A Hopefull não fez nenhuma oferta de compra para nós”, ressalta Fernandes Júnior. E com razão, uma vez que uma proposta como essa teria necessariamente sido rejeitada.

Em agosto de 2010, o procurador-geral do Brasil, Luís Inácio Adams, “reinterpretou” uma lei de 1971, endurecendo-a, sobre a compra de terras por estrangeiros, que possuía uma brecha que permitia que estes últimos, incluindo os chineses, a contornassem. Em 2007, a filial brasileira de uma empresa chinesa (Zhejiang Fu Di) havia adquirido 16 mil hectares no Estado do Tocantins, e alguns outros milhares no sul do país. Essa volta a uma aplicação estrita da lei proíbe que as empresas estrangeiras comprem mais de 5 mil hectares de terras agrícolas. Segundo o Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra), mais de 4 milhões de hectares haviam passado em 2008 (última cifra conhecida) para mãos estrangeiras. Um número que permanece modesto, para um país do tamanho do Brasil.

Os chineses têm comido cada vez mais carne. A torta de soja, subproduto da trituração dos grãos, é a principal fonte de proteínas na alimentação dos suínos e das aves. O apetite da China pela soja, portanto, não parará de crescer. Segundo o departamento americano de Agricultura, ela deverá aumentar em mais de 50% suas importações de soja até 2020.

Principal parceira comercial do Brasil, a China compra dele sobretudo três matérias-primas: o minério de ferro, o petróleo e a soja, que representa um quarto de suas importações. Os brasileiros têm se preocupado com esse desequilíbrio nas trocas comerciais, de tipo “neocolonialista”, em que Pequim só lhe vende produtos industrializados.

Esse risco crescente de dependência em relação à China explica, entre outras razões, o fato de a presidente Dilma Rousseff estar procurando se aproximar dos Estados Unidos, que até pouco tempo era o principal parceiro do Brasil. Mas o caminho é estreito para este último. “A China é ao mesmo tempo uma oportunidade e uma ameaça”, resume Sérgio Amaral, presidente do Conselho Empresarial Brasil-China. “Devemos ser prudentes, sem virarmos protecionistas.”

Tradução: Lana Lim

Luis Nassif

Jornalista, com passagens por diversos meios impressos e digitais ao longo de mais de 50 anos de carreira, pelo qual recebeu diversos reconhecimentos (Prêmio Esso 1987, Prêmio Comunique-se, Destaque Cofecon, entre outros). Diretor e fundador do Jornal GGN.

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