4 de junho de 2026

Ouvir a voz das ruas. Qual voz? Por João Batista Moreira Pinto

Siga o Jornal GGN no Google e receba as principais notícias do Brasil e do Mundo

Seguir no Google

Brasil Debate

Ouvir a voz das ruas. Qual voz?

por João Batista Moreira Pinto

Uma parte da população não quer a continuidade do governo Dilma e outra defende a permanência do governo legitimamente eleito. A primeira é marcadamente de direita e conservadora, a outra de esquerda e em busca da ampliação da emancipação em uma sociedade muito desigual

Alguns políticos têm dito que os deputados saberão ouvir a “voz das ruas”. Da mesma forma, o juiz Sergio Moro soltou nota, no 13 último, dizendo ser “importante que as autoridades eleitas e os partidos ouçam a voz das ruas”. Ora, essas afirmações que, em um primeiro momento, sem uma análise crítica, poderiam indicar uma posição democrática ou uma perspectiva pós-positivista no campo do direito, quando confrontadas a alguns elementos da realidade, expressam o caráter conservador e antidemocrático desses atores. Vejamos as bases dessa nossa inferência lógica, social e política.

Primeiro aspecto: as ruas não manifestam uma voz unívoca, elas expressam fundamentalmente duas posições políticas norteadoras e opostas diante da situação política atual: uma que defende a quebra do processo democrático reafirmado nas urnas em final de 2014 e outra que, pelo contrário, defende a manutenção do processo democrático.

Dito de outra forma: uma parte da população não quer a continuidade do governo Dilma, e isto desde o final do último processo eleitoral, e outra defende a permanência de um governo legitimamente eleito.

A primeira posição é marcadamente de direita, neoliberal e conservadora. Ela busca manter ou retomar as tradicionais relações econômicas e sociais que garantiam à classe, grupos ou setores com poderes estabelecidos, posições privilegiadas na sociedade e que foram colocadas em risco a partir dos governos Lula e Dilma por meio de programas que viabilizaram maior acesso a direitos sociais, econômicos e culturais; possibilitando maior efetividade ou materialidade aos direitos civis e políticos, antes claramente abstratos.

A outra posição política expressa por essas vozes nas ruas ou na cena política é a da esquerda, por princípios, contrária ao neoliberalismo e buscando a ampliação da emancipação em uma sociedade marcada por enorme desigualdade.

Um segundo aspecto fundamental na desconstrução dessa expressão vazia “voz das ruas” é considerar que as vozes têm um conteúdo e um contexto que precisam ser levados em conta. Para tratarmos disso, vale resgatar o que alguns operadores de Segurança Pública, com frequência, dizem em cursos de Segurança Pública e Direitos Humanos: “… mas é a população que pede os linchamentos!”

Ao que tenho respondido: “mas vocês, como agentes públicos, sabem que não podem concordar com isso, não estão ali para serem coniventes ou patrocinarem qualquer desrespeito à lei e aos Direitos Humanos, mesmo que parte da população ou sua maioria, não tendo a dimensão correta dos direitos humanos, possa desejar ações que violem esses direitos. Vocês não estão ali para dar ouvidos a essas vozes; pois nem sempre a voz do povo expressa a razão, a justiça e a legitimidade do Estado de Direito”.

Cabe destacar que a conivência desses agentes aos desejos populares levaria a situações institucionais ilegais e ilegítimas, portanto, em ruptura com o Estado Democrático de Direito. Assim, considerar as vozes do povo ou das ruas, sem uma análise do seu conteúdo legal e de legitimidade, poderia levar a um desvirtuamento da justiça institucional e do próprio processo democrático.

Chegamos a um terceiro elemento fundamental: a necessidade de observância do contexto e dos interesses dos atores que atuaram na formação de opinião de grande parte dos que estão na rua. Vamos partir do pressuposto de que a divulgação dos eventos e a apresentação ou criação dos motivos para a manifestação são fundamentais para o sucesso do que se pretende. A partir daí, analisemos criticamente a participação nas manifestações de rua recentes. Note-se que as manifestações contra o governo estão sendo precedidas de uma ampla cobertura da grande mídia, já anunciando a preparação das manifestações e as pautas políticas dessas manifestações. Assim, nas manhãs dos domingos, antes dos acontecimentos pró-impeachment, a grande maioria da mídia brasileira já tem antecipado em letras garrafais, como ocorreu no último dia 13, “O BRASIL NAS RUAS CONTRA O GOVERNO”.

Ora, isso não é notícia, é um chamamento do povo às ruas, favorecida por uma cobertura ampla e contínua da Rede Globo, em especial, durante todo o dia e noite. Outro aspecto a ser considerado nesse contexto é que essa cobertura midiática se deu após a apresentação e criação de fatos construídos a partir de ilegalidades, com a suspensão de sigilo e com a divulgação ilegal, e que se tornou político partidária ao ser encaminhada à Rede Globo, por parte do juiz Sergio Moro, no momento político que poderia permitir um outro desfecho para a crise: a posse de Lula como ministro da Casa Civil no governo Dilma.

Pode-se destacar que a avaliação de todos os políticos e dos poderes econômicos é que, com a posse de Lula como ministro, a hipótese do impeachment ficava remotíssima, e o juiz agiu com clara motivação político-partidária, alegando interesse público.

Dessa forma, foram construídas as bases para a que foi apresentada como a maior manifestação popular da história pela mídia; mas, ressalte-se, construída artificialmente e com base em ilegalidades, com participação de 2 a 3% do eleitorado brasileiro, pela média dos diferentes cálculos divulgados, em sua grande maioria, brancos, empresários ou de classe privilegiada economicamente, tirando evidentemente uma pequena parcela de desavisados políticos; isto é, os que sempre foram beneficiados pela estrutura de desigualdades na sociedade brasileira, com o apoio de organizações da sociedade conservadoras e capitaneadas, sobretudo, por movimentos que surgiram durante o último processo eleitoral e que se recusaram a aceitar o resultado das urnas.

Por outro lado, as manifestações pró-governo, favoráveis ao processo democrático e contra o impeachment, tiveram um tratamento completamente diferente na grande mídia. Praticamente não houve referência ao evento que já se organizava e as coberturas e análises foram majoritariamente no sentido de diminuir os méritos do que era evidente e que se buscava contornar: a presença e as vozes da rua por parte dos apoiadores do governo e/ou contrários ao impeachment, por considerá-lo um golpe, eram quantitativamente quase tão expressivas quanto as que se fizeram com toda uma produção e envolvimento da grande mídia.

Além disso, importa destacar a legitimidade dos atores políticos que têm manifestado sua posição contrária ao impeachment e favorável à manutenção do processo democrático: praticamente todas as entidades de direitos humanos ou vinculadas a pautas emancipatórias, com atuação de décadas, muitas ainda com histórico de atuação na luta contra a ditadura, e setores democráticos da sociedade, professores e outros perfilavam bandeiras e faixas em favor da manutenção do resultado eleitoral de 2014 e contra qualquer golpe contra a democracia.

Diante disso, e face à fala vazia por parte de parte dos políticos aliados a Eduardo Cunha e de parte do Judiciário, percebe-se claramente a maior legitimidade das vozes daqueles que defendem o governo, contra qualquer golpe que se tenta orquestrar pelos grupos de poder conservadores e que tentam falaciosamente se apresentar como as vozes da sociedade brasileira. NÃO, AS VOZES LEGÍTIMAS DO POVO, SUSTENTADAS NAS URNAS, DIZEM NÃO À RUPTURA DEMOCRÁTICA.

João Batista Moreira Pinto – É pós-doutor em Direito pela Université de Paris X; professor da Escola Superior Dom Helder Câmara – Belo Horizonte; Diretor do Instituto DH: Promoção, Pesquisa e Intervenção em Direitos Humanos e Cidadania

Redação

Curadoria de notícias, reportagens, artigos de opinião, entrevistas e conteúdos colaborativos da equipe de Redação do Jornal GGN

Assine a nossa Newsletter e fique atualizado!

Assine a nossa Newsletter e fique atualizado!

Mais lidas

As mais comentadas

Colunistas

Ana Gabriela Sales

Repórter do GGN há 9 anos. Especializada em produção de conteúdo para as redes sociais.

Camila Bezerra

Graduada em Comunicação Social – Habilitação em Jornalismo pela Universidade. com passagem pelo Jornal da Tarde e veículos regionais. É...

Carla Castanho

Carla Castanho é repórter no Jornal GGN e produtora no canal TVGGN

7 Comentários
...

Faça login para comentar ou registre-se.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

  1. Vladimir

    2 de abril de 2016 11:55 am

    Essa gente nunca ouviu

    Essa gente nunca ouviu nada.Se ouvisse qualquer coisa não perderia 4 eleições seguidas para a presidência da república.

    É a surdez e cegueira deles que impedem qualquer mudança de cenário. O Brasil,com democracia, é um Brasil sem eles no poder.

  2. Voto de desconfiança

    2 de abril de 2016 12:02 pm

    Voto de desconfiança
    A se consolidar, tendo sucesso o impeachement, a idéia de que as suspeitas (tênues ou fundadas) de “crimes” (estes assim também interpretados ao bel prazer do congresso de plantão) podem levar à destituição do presidente da república, os próximos presidentes serão obrigados a levar o fisiologismo e o populismo a níveis nunca antes vistos, ou a governar em permanente estado de sítio. O presidente que contar com o fluido apoio popular não deixará jamais que sua popularidade caia a ponto de perder o comando da câmara dos deputados,sendo o presidente daquela câmara o detentor do poder de inicar o “voto de desconfiança” contra o presidente. Assume, pois, o presidente da câmara o papel que caberia ao chefe de estado num regime parlamentarista. Previsível que um partido ou coligação que não tenha ampla capacidade de mobilização social (como até pouco tempo tinha o PT) e que não goze mais de popularidade fará de tudo para manter a presidência da câmara, pois o processo do impeachement não poderá mais ser contido após inciado. A turba insatisfeita vai expor os deputados através das novas mídias até que capitulem. A outra solução para presidentes permanentemente acuados será a de governar com medidas de força, o que prenuncia dias sombrios para a nossa democracia.

  3. Frederico69

    2 de abril de 2016 12:19 pm

    é quase inacreditável que as vozes que condenam Dilma,

    aceitam o cúnha!

  4. Joao Maria

    2 de abril de 2016 12:25 pm

    Pesquisa do portal IG, indica

    Pesquisa do portal IG, indica que 56% dos leitores sao contra o impeachment, e 83% nao querem Temer na presidencia. Parece que o povo esta percebendo que é golpe.

  5. Jaide

    2 de abril de 2016 12:32 pm

    Imediatamente após o dia 13

    Imediatamente após o dia 13 de março, o mantra era ouvir a voz das ruas.

    Depois do dia 18 de março, virou a voz do congresso. Teve até editorial do Globo mudando o grito de guerra.

    Uma ressalva ao texto: os movimentos pela ordem democrática podem até  ter sido organizados por movimentos de esquerda. Mas muitos dos que foram às ruas contra o golpe eram cidadãos sem vínculos partidários que perceberam o perigo de retrocesso de um novo e ilegítimo governo, servindo a interesses contrários ao país.

  6. Maria Libia

    2 de abril de 2016 1:18 pm

    ENTREM  

    ENTREM   Faceboock.com/Eu-MORO-com-ele

  7. NNN

    2 de abril de 2016 2:57 pm

    De novo?

    Deve ser a qüinquagésima oitava vez que eu vejo a mesma foto ilustrando um post…

Recomendados para você

Recomendados