Postado originalmente: http://klaxonsbc.com/2011/04/27/passeio-a-pe-pelo-centro-de-sampa-noite/
São Paulo quer se perder de nós o tempo todo. Pensamos ter São Paulo, no memória, na retina, pensamos lembrar São Paulo, mas ela não esta mais do jeito que lembramos. Seja o tempo que for, seja quando for, ela mudou e sempre despercebida. São Paulo muda com a sanha leviana da independência, se perde tal qual um ser abusado, que se dana em excessos, que escorre nas suas próprias ruas. Em especial a área central que tem delimitado começo geográfico, mas não imaginário. Este início se insinua no Parque Dom Pedro, entre o Tamanduateí fétido que dialoga com a Ladeira Porto Geral e com a General Carneiro. Desemboca na opulenta XV de Novembro sempre em parceria com a mais alta, Rua Boa Vista, que nas noites ficam entregues às “sobras” de humanos e de dejetos humanos, saldo negativo das contas ali operadas durante o dia. Optamos pela Rua Direita, que já foi sambão jóia dos Originais, que se perde num romantismo longínquo, nem sombra, nem sombra … Mais à direita um Largo do Café, no escuro os fechados e estilizados espaços para os já quase extintos engraxates. Perto dali o Pátio da Igreja São Bento, o Estado (guarita da PM) e a Igreja juntos – outro dia ali em plena Virada pude ouvir o nada paulista Eumir Deodato tocar – olhando a dupla, o renitente Café Girondino, aberto toda noite. Mais a frente o fetiche que Adoniram avisou para a Eugênia, o britânico Viaduto Santa Ifigênia, que hoje nem atravessei. O propalado efeito “contaminação” dos espaços culturais que qualificariam o entorno, não passa de mais um empáfia enganosa dos tucanos, os espaços funcionam em horários escassos e no restante do tempo servem de sombra para os miseráveis que dormem, se escondem ou simplesmente vivem nas suas margens, longe das orquestras e dos balés que se apresentam por lá. Desvio mais o caminho, e então, a Praça Patriarca que anos atrás escondia em seus suntuosos prédios com elevadores da década de 20, sebos de discos e livros, eles não existem mais , como tudo na cidade ou migram ou desaparecem, estão em outras partes do centro. A noite estes sebos são lembranças ainda mais vagas, lembro de um especificamente: Musicanto. No caminho um casal das ruas com o rosto descarnado, impossível não olhar. Dureza da vida! Viaduto do Chá, que já foi versado e burlado pelo Joelho de Porco de Terpins e Albanese (“Andando nas ruas do centro, cruzando o Viaduto do Chá …”) nas beiras, meninas sorridentes usam de background a Nove de Julho e a Praça das Bandeiras ao longe, para compor suas instantâneas digitais. Correm risco, podem aparecer alguns desvalidos e surrupiar a sua máquina. Não acontece. Seguem ainda sorridentes iluminadas pela glamorosa luz do Shopping Light. Chegar em frente ao prédio do Velho Mappin, que sempre me remete às falas de Antonio Delfiol: “É só nesse sábado” propagandeando as liquidações da distante loja de departamentos. Mas São Paulo não é apenas saudade, é presença, ta lá o Teatro Municipal, que aparece atemporal, solerte, estilo eclético, construído no Morro do Chá, perene, uma presença “ausente” da cidade, democrático ao menos nas suas escadas, quando não há tapumes, onde muitos conversam, descansam, desfalecem, esquecem que a cidade não perdoa, não há opera ou concerto que acorde o sono de descanso da cidade do cansaço. Viver em São Paulo, viver nas suas ruas, sei lá, só quem vive para saber. Eu pergunto um dia, juro que pergunto … Quebro a Dom José de Barros no rumo da Rua 24 de Maio, das galerias que foram soberbas da riqueza, dos serviços requintados de uma Sampa que já era, nem era Sampa quando o era. Hoje as Galerias emprestam suas escadas rolantes obsoletas para o rock e suas derivações, para seus artefatos, ou para a música black e também para os salões onde os estilos de cabelo se afirmam em beleza. E tem a Barão de Itapetininga que para mim lá nos anos 80, abrigava a velha Brasiliense, onde sugava tudo que podia da Coleção Primeiros Passos aos beats que descobria, economizava e comprava, e mais: Caio Fernando Abreu, romance policial noir, a Brasiliense argüida por Caio Prado. Lá no canto a Sete de Abril, da Galeria da Livraria Francesa, no mesmo lado a Loja de Discos Wop Bop, aonde me fartei de flertar com discos impossíveis pro meu bolso, mas também aonde descobri outros tantos. Esta São Paulo era minha, acho que de tantos outros, mas julgava meu melhor lugar para fugir. Correr a calçada da Praça da Republica logo ao descer do Metrô, e entortar na esquina famosa do baiano polêmico, olhando de longe dá pra ver e já sentir o gosto do Mate com Leite, encravado na São João, eram três, agora duas lojas. Mate com leite e morango, às vezes mate com leite e aveia, enganava fome e rumava para o Datafolha (trabalhei ali) enganado com o salário e a enganar milhões. Avenida São João noturna assusta, já não há mais o uma loja de ponta de estoque de livros (chamada de cemitérios das editoras) que funcionou ali até meados final da década de 90, não há atrações. Sim, há os ônibus passando e cinemas decadentes com programações obscuras que servem de fato para o trottoir imóvel de alguns. Atravessar as avenidas cruzadas e ver o Bar Brahma, onde um dia ouvi Cauby Peixoto, também Ângela Maria, e que tinha no piano bar, isto antes da grande reforma, a pianista Maria, que tocava boleros, fossa brasileira, muzaks, um lounge luxuoso cravado no centro da cidade evitada pelos mais “delicados”. Avenida Ipiranga aonde eu ia adolescente saborear o milk shake de Ovolmatine do Bobs, ela hoje espelho perfeito da gentrificação do centro, que expele e usa seu exército de nóias (inocentes nessa) para dar sentido de caos e afirmar: “não tem jeito mesmo!” Tome especulação e projetos mirabolantes: “Centro Novo”, “Novo Centro”, “Centro Vivo”, todos eles usando em matérias de jornal o termo “revitalização” como se não houvesse vida ali, como se a vida estive ainda por chegar. Avenida Ipiranga dos cinemas (como os da São João) que hoje são apenas tapumes e prédios escuros sem tela funcionando. Passar a perna rápida na Praça da República com seus cantos escuros, ali os meninos em viração, os encontros não marcados (por serem aleatórios na certa) e a velha tradição que um dia Mário de Andrade relatou e escondeu. Assistindo tudo o velho colégio Caetano de Campos, hoje prédio da Secretaria de Educação, detalhe. Chegando pela General Jardim, Teatro Aliança Francesa, as meninas e os meninos ganhando na rua, o que perdem na vida. Desemboca na Amaral Gurgel, sombreada pela feiúra do Minhocão, que tem em sua extensão um flerte com o Largo do Arouche e um descarrego na Consolação, vou chegando, General outra vez, na sua segunda e última parte, o prédio da Escola de Sociologia e Política, em frente à mítica Biblioteca Monteiro Lobato na praça, biblioteca que dizem ser infantil, mas onde os agitos já foram para crianças e adultos, boa lembrança e exemplo de ação cultural outrora na cidade. Volto ao prédio da faculdade, antigo da década de 30 (do século passado), passeio no prédio, vou até o expediente da secretaria, preciso de um documento. Bendito documento que me fez ver a cidade que há tempos não via a noite e a pé.
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