4 de junho de 2026

Para jurista português, semipresidencialismo não é solução para o Brasil

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Jornal GGN – Jorge Reis Novais, professor de Direito Constitucional da Universidade de Lisboa, afirma que o semipresidencialismo não é a solução para o Brasil, afirmando que este modelo não evitaria futuras crise políticas e que a origem dos problemas está no mau funcionamento do sistema partidário.

“Enquanto aqui na Europa existe o que chamo de disciplina partidária, os partidos brasileiros não se distinguem entre si pela ideologia. É um sistema muito personalizado”, diz Novais, que também crê que a tendência para a instabilidade política no Brasil é muito forte.

No começo deste mês, o Senado aprovou a criação de uma comissão para debater a instalação do semipresidencialismo como solução para a crise política, em um projeto gestado pelo presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL) e pelo senador José Serra (PSDB-SP). O semipresidencialismo é um sistema adotado por países como França e Portugal, onde o presidente não tem um papel meramente protocolar, ao contrário do parlamentarismo.

Da BBC Brasil

 
Luís Barrucho
 
A opção pelo semipresidencialismo não evitaria futuras crises políticas no Brasil, onde a origem dos problemas está no mau funcionamento do sistema partidário.

A análise é do português Jorge Reis Novais, professor de Direito Constitucional da Universidade de Lisboa e um dos maiores especialistas sobre o tema no país.

“Não acredito que o semipresidencialismo seja solução para o Brasil. Nenhum modelo tem condições de funcionar bem. A origem dos problemas está no mau funcionamento do sistema partidário”, diz ele à BBC Brasil.

“Enquanto aqui na Europa existe o que chamo de disciplina partidária, os partidos brasileiros não se distinguem entre si pela ideologia. É um sistema muito personalizado. Vota-se no candidato, não no partido. A tendência para a instabilidade e a ingovernabilidade é muito mais forte. Isso inviabiliza qualquer forma de governo”, acrescenta Novais.

A discussão de novos sistemas de governo, entre eles o semipresidencialismo, deve fazer parte do ciclo de palestras no IV Seminário Luso-Brasileiro de Direito, que começa nesta terça-feira na capital portuguesa, Lisboa. Mas o evento, que tinha originalmente âmbito acadêmico, acabou por se tornar o centro de uma controvérsia política nos dois lados do Atlântico.

Intitulado “Constituição e Crise: A Constituição no contexto das crises política e econômica”, o encontro é organizado pelo Instituto Brasiliense de Direito Público (IDP) ─ que tem entre os seus fundadores o ministro do STF (Supremo Tribunal Federal) Gilmar Mendes ─ em parceria com a Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa.

A polêmica em torno do seminário, no entanto, não diz respeito ao assunto que será debatido, mas sim aos seus participantes. Algumas das principais lideranças a favor do impeachment da presidente Dilma Rousseff, como os senadores tucanos José Serra e Aécio Neves, aceitaram o convite para palestrar ou discursar, assim como parte da elite política portuguesa.

O vice-presidente Michel Temer e o presidente da Fiesp (Federação das Indústrias de São Paulo) Paulo Skaf estavam entre os convidados, mas cancelaram a ida à capital portuguesa.

Nos bastidores, comenta-se que o encontro seria uma ‘desculpa’ para que líderes da oposição se reunissem no exterior para debater sobre o impeachment da presidente Dilma e um possível governo de Temer.

Em entrevistas recentes, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso também se mostrou um defensor do modelo semipresidencialista.

No início de março, o Senado aprovou a criação de uma comissão especial para debater a instalação do semipresidencialismo como saída para a crise política. O projeto é gestado por Renan Calheiros (PMDB-AL) e José Serra (PSDB-SP).

Semipresidencialismo

Sistema híbrido entre o presidencialismo e o parlamentarismo, o semipresidencialismo é adotado em países como França e Portugal. Nele, o presidente (chefe de Estado) é eleito pelo voto popular e compartilha o comando do Executivo com o primeiro-ministro (chefe do governo), escolhido com o aval do Congresso.

Nesse sistema, contudo, diferentemente do parlamentarismo, o presidente não fica reservado a um papel meramente protocolar. Ele tem voz ativa e nomeia o primeiro-ministro, podendo, ocasionalmente, demiti-lo. Também tem a capacidade de dissolver o Congresso, convocando novas eleições. O prazo para isso varia conforme a legislação de cada país, explica Novais.

“Trata-se de um sistema muito mais flexível do que o presidencialismo, porque tanto o presidente pode dissolver o Congresso, convocando eleições antecipadas, quanto o Congresso pode substituir o governo. O presidente, contudo, permanece no cargo”, diz o constitucionalista português.

“Já no sistema parlamentarista, por exemplo, o primeiro-ministro é escolhido pelo governo da maioria e pode ser derrubado pelo Parlamento”, acrescenta.

Segundo ele, o semipresidencialismo também é mais vantajoso do que o presidencialismo em situações de crise.

“No sistema presidencialista, o presidente é eleito, forma o governo e nem o congresso pode demitir o governo nem o presidente pode dissolver o Congresso. Havendo uma crise, não é possível solucioná-la. Será preciso aguardar as próximas eleições”, ressalta.

‘Impasse’

No entanto, Novais não acredita que o modelo funcionaria no Brasil.

“Tenho grandes dúvidas se o semipresidencialismo funcionaria no Brasil. O sistema partidário brasileiro é uma grande fonte de instabilidade. Enquanto não houver uma ampla reforma política, nenhum sistema de governo dará certo. Não resolveria problema nenhum”, vaticina o especialista.

Segundo o constitucionalista português, o resultado disso seria um “impasse”.

“Imagine se o Brasil fosse uma república semipresidencialista. Na situação atual, o Congresso provavelmente dissolveria o governo, mas a presidente Dilma Rousseff, eleita por voto popular, se manteria no poder”, explica.

“É aí que entra a dificuldade do sistema partidário. Facilmente se formaria no Congresso uma ampla maioria contra o governo, mas a seguir qual governo sairia do Congresso? Com o sistema de partidos tão difuso, é muito difícil qualquer sistema de governo funcionar”, acrescenta ele.

Novais ressalva, contudo, que o sistema semipresidencialista também tem problemas, especialmente quando o Congresso e o presidente são de “diferentes colorações políticas”.

“Nesse caso, há um conflito permanente entre o presidente e o governo. Nem o presidente pode demitir o governo nem o Congresso pode demitir o presidente”, afirma.

O constitucionalista português argumenta ainda que, diferentemente do que pensa a opinião pública, o presidente não tem seus poderes reduzidos no sistema semipresidencialista.

“No sistema semipresidencialista, o presidente, eleito por voto popular, tem uma legitimidade democrática muito forte. Ele costuma intervir, especialmente em situações de crise. Além disso, tem o direito do veto a medidas tomadas tanto pelo governo quanto pelo Parlamento. Também tem o poder de nomear figuras de Estado”.

“Se tiver o Congresso a seu favor, o presidente acaba tendo muito mais força. É o caso da França, por exemplo. O presidente francês tem hoje mais poder do que o presidente Barack Obama. O presidente americano não pode, por exemplo, dissolver o Congresso, mas precisa governar com ele”, acrescenta.

Impeachment

Novais critica a forma como o impeachment vem sendo usado no Brasil. Segundo ele, seu princípio foi “desvirtuado”.

“O impeachment não deveria ser um instrumento para resolver dificuldades políticas, mas sim crimes de responsabilidade, quando o presidente comete alguma ilegalidade no exercício do mandato”, diz ele.

“Como o Brasil vive hoje uma crise política sem precedentes, em que nem a presidente pode dissolver o Congresso, nem ser demitida por ele, a impugnação do mandato acabou se tornando um recurso para solucionar um bloqueio. E, nesse caso, não se trata de uma via legítima”, acrescenta.

 

Redação

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5 Comentários
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  1. jose antonio santosj

    29 de março de 2016 3:35 pm

    O professor tem razão

    O professor tem razao no que diz.

    Mas com este sistema politico e eleitoral so pode dar no que estamos vivendo.

    E não se consegue reformar pois interesses serão contrariados.

    E o povo como fica! O povo que se vá queixar ao papa! 

    (para não escrever algo pior).

  2. aliancaliberal

    29 de março de 2016 3:58 pm

    O problema e manter o pacote

    O problema e manter o pacote de abril em vigor.

    Criar 3 senadores, mudar a representatividade dos estados no congresso.

    São tão contra a ditadura mas mantem a sistemática inalterada do centralismo.(ainda existe a voz do Brasil e serviço militar obrigatório em 2016).

    Refederalizar o país para começo de conversa, divide o pais em 512 zonas eleitorais cada zona um deputado federal, e apenas 2 senadores por estado. Todo voto tem o mesmo peso..

    Acaba com o fundo de participação dos estados e municipios.

    Mais autonomia aos estados e municipios e mais recursos e lógico mais atribuições (mais ainda?).

    Já seria uma revolução e não será o PT que irá fazer. 

     

     

     

  3. André Oliveira

    29 de março de 2016 4:01 pm

    Semipresidencialismo?? O que

    Semipresidencialismo?? O que é isso, uma jabuticaba? Uma jabuticaba azeda. O Brasil está se transformando no pais onde o surreal virá real.. 

  4. Somebody

    29 de março de 2016 5:00 pm

    Não imagino nenhum sistema de

    Não imagino nenhum sistema de governo que vá funcionar no Brasil quando o problema é mais profundo do que isso.

    – Presidencialismo não funciona porquê os seus congressistas pensam somente nos seus interesses pessoais ou obedecem os interesses pessoais dos líderes dos partidos. Quando há uma tentativa de dar continuidade à um projeto de desenvolvimento nacional os seus congressistas o barram pelos motivos mais absurdos como “o que vou ganhar (pessoalmente) com isso” ou “é idéia do outro partido então não vou apoiar de forma alguma”;

    – Parlamentarismo e variantes não funcionariam pelo mesmo problema citado anteriormente: Falta de parlamentares comprometidos com o desenvolvimento do país e que só pensam em si;

    – Variantes do presidencialismo também não têm como funcionar pelos mesmos motivos anteriores;

    – Ditadura seria um banho de sangue considerando que a maioria de vocês são incapazes colocar os interesses do todo acima dos seus próprios, e portanto vocês virariam facilmente uma Coréia do Norte;

    – Monarquia também não funcionaria pois depende de uma pessoa que seja um exemplo de tal forma para todos que dificilmente possa ser questionado o seu direito de reinar, e esse tipo de pessoa é mais rara do que qualquer coisa que possam imaginar (os britânicos deram muita sorte com a rainha atual deles). E isso vale para a monarquia “tradicional”, pois as monarquias atuais lembram muito mais o parlamentarismo e portanto compartilham os seus defeitos.

    Qual o ponto comum à todos os problemas descritos acima? Vocês. Para ser mais exato, sua cultura que como eu já disse em outros comentários é basicamente “feudal” e autoritária, e aonde um povo pensa de forma feudal e autoritária não é possível aplicar com sucesso sistemas de governo representativos aonde se espera que todos sejam iguais perante as leis.

    p.s: Outro visitante deste site perguntou se eu seria ou estaria querendo ser “superior” à vocês, e portanto eu quero deixar bem claro que a resposta é não. Eu considero que vocês têm um enorme potencial para ser um grande país desenvolvido, e para que vocês mesmos se dêem conta disso é necessário alguém que tenha o trabalho de dizer as verdades dolorosas que ninguém gosta de ouvir e lhes “abrir os olhos” de forma dura e ríspida se preciso, fazê-los acordar desta “sociedade medieval” em que vocês vivem e olharem ao redor com os seus próprios olhos ao invés dos olhos de uma emissora privada de televisão e dos seus “caciques”.

  5. Athos

    29 de março de 2016 5:31 pm

    Lógico
    Que não é.

    Já imaginou sem os liderados por primeiro ministro escolhido pelo Parlamento?

    Qualquer proposta agora é golpe!

    Assembléia Constituinte em que os MEMBROS abram mão VOLUNTARIAMENTE de seu DIREITO a NOMEAÇÃO e eleição a cargos políticos por 15 anos.

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