(Comentário ao post O novo momento político – 1)
O mais difícil nesse “novo modelo” que nasce da “era Lula” é fazer os ajustes necessários, a costura interna das “máquinas”. Ao mesmo tempo em que de fato se inicia um periodo histórico novo e inédito para o país, em ambos cenários, interno e externo, certos ganchos do passado relutam em soltar-se. Esse é o momento mais arriscado da navegação, quando a correnteza é forte, o tempo é bom, mas a âncora não se solta. A embarcação pode adernar.
Quais seriam esses pontos nevrálgicos? Alguns deles. Há uma resistência em assumir papéis formais, em cumprir o papel institucional dos cargos e responsabilidades de cada um. O Brasil está informal demais, e muitos grupos e indivíduos acham que podem fazer o que bem entenderem, que o país “aceita”, que não há riscos para o rumo das coisas. Esse é um ajuste que precisa ser feito e, lembrando bem, foi uma postura oficial do governo Lula, esse “relaxamento” do sistema. Mas o resultado deveria ser outro e está se mostrando o inverso, então é preciso encurtar a rédea, e bastante.
EssaEssa relutância em assumir em grau bem maior as responsabilidades individuais e institucionais, esforçando-se por diminuir as bases do pragmatismo e da conveniência imediata, quase sem limites e com os critérios mais loucos, tem bases tribais. A sociedade brasileira está se revelando uma sociedade tribal, ainda que de tribos urbanas, de tribos políticas. Não é ainda tão grave quanto na África, no Oriente Médio ou na Ásia Central. Mas não vamos deixar isso sem exemplos, não é verdade. Como diria o saudoso professor Florestan Fernandes, vamos aos dispositivos.
Essa coisa da “liberação de verbas” do governo federal. Isso virou uma verdadeira indústria da “liberação de verbas”. Mas não vou criticar isso do modo tradicional, dizer que isso favorece essa “tchurma”, que não favorece outra, etc. Vamos à crítica sistêmica, que é muito mais importante. A distorção ou desequilíbrio do próprio sistema. A questão é: por que os municípios e estados dependem tanto de verbas federais? Quer dizer que o governo federal está com muito dinheiro e os municípios e estados estão sem dinheiro? Segunda questão, a distribuição do orçamento público não deveria cobrir as necessidades gerais das várias instâncias do Estado brasileiro? Essa retórica de “eu libero mais verbas do que você” deveria ser banida da política brasileira. E ainda mais levando-se em conta os motivos que levam a isso, e os momentos em que isso acontece (votações do Congresso, conchavos políticos e acordos pouco transparentes).
Isso está ligado ao destino que é dado às verbas nos Estados, principalmente. O privilégio dado a grandes corporações econômicas e a ausência de uma política séria de saúde, educação, Segurança Pública, etc., permite que se abram verdadeiras crateras na Administração Pública, causando esse desequilíbrio. Uns estão recebendo muito mais do que os outros, e muitos, especialmente as empresas e associados dos esquemas políticos partidários e suas gestões (nos Estados e municípios), estão recebendo segundo critérios totalmente impróprios, da conveniência desses grupos. Depois a União tem de ficar tentando compensar esses enormes desequilíbrios.
O outro é o da reforma política. Não vou me alongar nesse ponto que está sempre em discussão no Blog, mas reforma para favorecer ainda mais os caciques dos partidos, e que não vai suspender a verdadeira orgia de “recursos não contabilizados” nas campanhas, depois casadas com os compromissos para com esses financiadores, não dá. Não dá e não é necessário, e nem é o melhor. É apenas um vício que ninguém se esforça para corrigir.
Esses acertos todos têm obrigatoriamente de ser feitos.
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