4 de junho de 2026

A Lava Jato é como o papel higiênico rosa, por Armando Rodrigues Coelho Neto

Siga o Jornal GGN no Google e receba as principais notícias do Brasil e do Mundo

Seguir no Google

A Lava Jato é como o papel higiênico rosa

por Armando Rodrigues Coelho Neto

Aconteceu na madrugada, dessas nas quais não se consegue muito bem explicar o dia seguinte. Sim. Gosto de escrever contando histórias do cotidiano ou fatos envolvendo pessoas que me pedem anonimato. São relatos que amenizam esse momento tenso de ódio, muito ódio.

Aconteceu. Eu disse. Era final de noite, e após estripulias alcoólicas e gastronômicas, o fulano foi parar na casa de amiga que conhecera de há pouco. Foi parar lá pras bandas de Higienópolis, região dita nobre onde mora o ex-Presidente Fernando Henrique Cardoso, quando não está em Paris. Foi lá, perto do reduto do príncipe que ambos tiveram uma emergência fisiológica, quando o meu amigo precisou ir ao banheiro da empregada, já que o social (ou qualquer outro nome que queiram dar) estava ocupado pela dona da casa.

Eis que em meio da noite ele pergunta:

– O seu é de ouro?

Perplexa, respondeu gritantemente querendo saber o quê e o porquê.

Sem cerimônia, ele respondeu: o que significa essa lixa cor de rosa? Era uma referência ao papel higiênico disponível no banheiro reservado à empregada doméstica.

Pois bem. O papel higiênico rosa, que ainda não caiu de moda, faz parte da lista das incoerências da Casa Grande em sua guerra contra a Senzala. Como sociólogos e pensadores já explicaram a exaustão essas contradições, devo ser sintético nas lembranças. Sim, tínhamos elevadores sociais nos prédios, crianças meninas eram adotadas para serem empregadas domésticas e os meninos serviam como estafetas, babá de labradores ou auxiliares de caseiro de sítio.

De repente, não mais que de repente, a empregada conquistou direitos trabalhistas e algumas passaram a levar seu próprio papel higiênico. Algo assim como no filme “Que Horas Ela Volta? Esse não foi o único incômodo causado pela Senzala na Casa Grande e, sem dúvida alguma, a classe operária está muito distante de haver chegado ao paraíso.

O papel higiênico rosa ou lixa rosa (para evitar expressão impublicável usada pelo meu amigo), é o símbolo do ódio à pobreza. O elitismo e o desprezo não toleram insolência. Um desprezo que sempre existiu, mas que a turma do papel higiênico macio, quatro folhas, bordado, picotado e perfumado nunca soube como explicar.

E foi aí, que uma operação antiga da Polícia Federal, conhecida como Caso Banestado, ressurgiu com outro nome. A operação originária parou, segundo alguns investigadores de então, sem razão aparente. Reza a lenda, que teria chegado a nomes da Casa Grande, gente que nem a pau utilizaria o papel higiênico rosa. Segundo alguns, esse teria sido o real motivo para o freio da Banestado.

Eu não seria capaz de apostar, sem prova, nessa versão. Mas aí apareceu a Lista da Odebrecht! O comportamento da Justiça Federal, com relação aos nomes da Casa Grande que aparecem na tal lista, pode ajudar a ligar o desconfiômetro de qualquer um. É o que se deduz da histriônica divulgação dos nomes de moralistas sem moral que figuram na tal lista.

Do mesmo modo, o que dizer do igualmente histriônico decreto de sigilo da lista, sob desculpa do fórum privilegiado? Sim, pode até ser. Mas na prática, cumpre o papel de preservar os nomes dos protegidos pela mídia. Retira de circulação os nomes dos verdadeiros intocáveis, os mesmo ou mais ou menos os mesmos de antes (Banestado) e os de agora também (Lava Jato). Põe por terra o mito que se tenta vender hoje de que já não existe ninguém acima da lei. Existe, claro!.

O ovinho da Páscoa Odebrecht pode trazer mais surpresas, certamente. Como disse a presidenta Dilma Rousseff em sua posse, “não ficará pedra sobre pedra”. Algumas das pedras já lhe caem sobre a cabeça. Mas, não era bem esse “Kinderovo” que  os moralistas sem moral esperavam para agora. É como se a sobremesa chegasse antes da refeição principal.

Mas, não deixem que me perca. Eu falava do papel higiênico rosa, antes símbolo enrustido do ódio, mas que nos dias atuais tomou outras feições. Agora, já é possível para muitos justificarem o ódio ao PT-  por ser ele corrupto; porque fez o que disse que não iria fazer. Já é possível “explicar” o ódio.

De qualquer modo, o culto ao papel higiênico rosa persiste. E por essa razão não existem panelaços quanto ao roubo da merenda em São Paulo; contra os figurões que aparecem nas operações Zelotes e HSBC; contra os Perrelas pedindo “Fora Dilma”. Não há panelaço por conta do Ovo de Páscoa da Odebrecht e menos ainda, panelaços contra delegados federais que se reúnem com Eduardo Cunha.

Eu poderia alargar a falta de panelaços citando o rol de impropriedades e ou os crimes mencionados pelo jornalista Francisco Costa em seu texto, intitulado “Se fosse Dilma”. Tudo sem panelaço. A lista é grande, mas eu preciso falar do papel higiênico rosa.

Por que insisto? O papel higiênico rosa, áspero e não serrilhado – símbolo de uma sociedade injusta, hipócrita, corrupta (de ideias, de haveres e fazeres), acabou por ganhar mais simbolismo. Agregou valor ao bater de panelas havidos e não havidos; agregou valor ou desvalor às camisetas da Seleção Brasileira de Futebol; realçou todo o oco das contradições de uma classe dominante rasa, retrograda, parasita de financiamentos públicos; dos vira-latas representantes ou voyeur do capital especulativo. Aquela que bate panelas para não ouvir o outro lado, porque a insólita versão que tem dos fatos é o bastante.

De tão frágil, sem consistência e grosseiro, o papel higiênico cor de rosa não tem condições de limpar coisa alguma. Ele só espalha, faz um arremedo do que deveria fazer. Ela, a “elite”, é que deveria usar o papel higiênico rosa. Sim, pois ele é, seja pelo preconceito que embute ou pela farsa da limpeza, ele é mesmo, acima de tudo, a cara da elite brasileira. Retrato da Casa Grande, ou quem sabe da Pátria Branca – como costuma dizer Paulo Henrique Amorim.

Armando Rodrigues Coelho Neto é advogado e jornalista, delegado aposentado da Polícia Federal e ex-representante da Interpol em São Paulo

Armando Coelho Neto

Armando Rodrigues Coelho Neto é jornalista, delegado aposentado da Polícia Federal e ex-representante da Interpol em São Paulo.

Assine a nossa Newsletter e fique atualizado!

Assine a nossa Newsletter e fique atualizado!

Mais lidas

As mais comentadas

Colunistas

Ana Gabriela Sales

Repórter do GGN há 9 anos. Especializada em produção de conteúdo para as redes sociais.

Camila Bezerra

Graduada em Comunicação Social – Habilitação em Jornalismo pela Universidade. com passagem pelo Jornal da Tarde e veículos regionais. É...

Carla Castanho

Carla Castanho é repórter no Jornal GGN e produtora no canal TVGGN

6 Comentários
...

Faça login para comentar ou registre-se.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

  1. Augusto Cesar

    28 de março de 2016 12:23 pm

    Sensacional!

    Parabéns. Realmente não há nada mais simbólico do que estamos vivendo do que as pequenas e mesquinhas corrupções do dia-a-dia, que recebem auto-indulto como se fossem um mimo, mas intoleráveis no outro.

  2. João de Paiva

    28 de março de 2016 12:33 pm

    Simplesmente saborosos os

    Simplesmente saborosos os textos que tem escrito e postado neste blog o jornalista e ex-delegado da PF, Armando Rodrigues Coelho Neto. Eles têm um quê de literário e uma aguda crítica social e política, muito necessária num momento como o atual, em que a Direita, a Casa Grade, a elite oligárquica e plutocrata, o PIG, tentam retomar o quinhão de poder que perderam nos últimos 14 anos, isto é, o poder político, aquele que depende do voto pupular da maioria dos brasileiros.

    É alentador saber que um cidadão que já serviu à PF demonstra inteligência social, histórica e política e essa consciência sobre a luta de classes em nosso País.

  3. Rogério Bezerra

    28 de março de 2016 12:43 pm

    Nossa elite só

    Nossa elite só merece esse papel higiênico e olhe lá… Muito bom!

  4. Maria Rita

    28 de março de 2016 1:09 pm

    É a mesma elite que quando a

    É a mesma elite que quando a criança falava palavrão na frente de amigos, dizia que seu filho devia ter aprendido com algum empregado. Mito que caiu depois do dia em a que a elite mostrou sua verdadeira face, o dia em que dos camarotes do estádio recém-inaugurado, gritaram malcriadamente para Dilma VTNC! Gente COISA é outra fina.Ai, i, Alfredo, ai, ai,….quem é da tua guangue não tem medo, né? Deixa estar, jacaré.

  5. bonobo de oliveira, severino

    28 de março de 2016 1:51 pm

    Belo texto….

    A hipocrisia das panelas fas por merecer o diagnóstico cruel desenhado pela professora Marilena Chaui. È cruel, porém verdadeiro. Sorry Higienópolis.

  6. André Bogdan

    28 de março de 2016 4:13 pm

    Catotinha
    Quero ver quem vai levantar aquele dedinho sujo com aquela catotinha debaixo das unhas, em riste, para dizer mais alguma coisa … Inflamadamente, esse texto mostra o ranço de nossa sociedade hipócrita que insiste nesse sistema ideológico escravocrata e meritocrático …  Quanto a você Senhor Armando Rodrigues Coelho Neto, nunca vi tanta lucidez, dificilmente conheci um legalista e humanista com tanta acuidade … digo que é um privilégio compartilhar de suas dores, pensamentos… sua existência. Ao que parece, vc não fez muita diferença para muitos dos mais novos da PF, mas posso dizer que quem realmente lhe conhece, sabe o equívoco que esses meninos estão cometendo. Força meu amigo, pois seu papel (que não é rosa-lixa) vem sendo FUNDAMENTALMENTE importante para muitos.  Abração, Força e Muitos sucessos com seus textos…

     

Recomendados para você

Recomendados