Por Leandro C
Esse é o Briefing da Embaixada Japonesa em 2007, observem os editorias da mídia japonesa, sustentando a segurança da usina, mídia bem parecida com a daqui.
http://www.rio.br.emb-japan.go.jp/japanbrief/politica/jb755.htm
Segurança das centrais de energia nuclear do Japão em foco devido a um grande terremoto. Opiniões divergem.
O terremoto com 6,8 de magnitude que abalou a costa do Mar do Japão na província de Niigata, em 16 de julho, deixou 11 mortos e mais de 1.300 feridos, além de centenas de casas destruídas. O tremor, cujo epicentro estima-se ter sido mar adentro a 19 quilômetros ao norte da cidade de Kashiwazaki, levantou também, abruptamente, a questão da segurança da geração de energia nuclear como um todo, e especialmente nesta cidade que abriga a usina Kashiwazaki-Kariwa, da Tokyo Electric Power, e que com os seus sete reatores é a maior central elétrica desse tipo no mundo. Conseqüentemente, o governo foi compelido a pedir à Agência Internacional de Energia Atômica, afiliada às Nações Unidas, que enviasse uma equipe para inspecionar a usina.
Na ocasião do terremoto, três dos reatores estavam em funcionamento, mas a sua operação foi paralisada automaticamente, provando serem capazes de resistir a um tremor de tal magnitude (pelo menos baseado nas evidências disponíveis em 26 de julho). Mas isto parece muito longe de satisfazer a preocupação pública sobre a segurança desta usina nuclear e de outras em geral.
A inquietação aumentou quando se descobriu que vários fatores não esperados, quando a usina nuclear foi projetada, emergiram durante o terremoto, inclusive uma falha sísmica ativa muito próxima. Presumivelmente, por isso, a força do tremor que abalou os reatores foi duas vezes maior que a tolerável no projeto da central. Uma das estruturas do complexo pegou fogo, houve um vazamento de água levemente radioativa no depósito que a continha, e um guindaste que opera justamente acima de um dos reatores ficou danificado, entre outras coisas.
Embora tais incidentes tenham sido considerados sem importância crucial em termos de segurança dos reatores nucleares, eles aumentaram a preocupação das pessoas sobre a geração de energia nuclear num país com notória tendência a terremotos, com 55 reatores operando em 16 centrais elétricas. No mundo, cerca de 20% dos terremotos com 6,0 graus ou mais de magnitude ocorrem no arquipélago japonês. Em tais circunstâncias, a percepção pública sobre a segurança das centrais de energia nuclear é considerada de suma importância, e sem a garantia de segurança, provavelmente, a construção de novas usinas nucleares será suspensa.
O governo japonês adotou uma postura severa para com a Tokyo Electric Power, ordenando o fechamento da usina Kashiwazaki-Kariwa, até sua segurança ser estabelecida sem sombras de dúvida. O ministro da Economia, Comércio e Indústria, Akira Amari, intimou os executivos da companhia e os repreendeu pela morosidade e falta de transparência no relato do ocorrido. O prefeito de Kashiwazaki agiu por iniciativa própria, ordenando o fechamento da central elétrica, considerando a inquietação e a ansiedade dos moradores, numa ação considerada anormalmente ríspida para uma comunidade na qual o governo e a companhia injetaram 70 bilhões de ienes (US$580 milhões) em investimento e infra-estrutura, por aceitarem a usina nuclear que proporciona cerca de 6.500 empregos.
Cerca de 30% da eletricidade do Japão provém da geração de energia nuclear, e planeja-se aumentar esta proporção para reduzir a sua dependência ao petróleo e satisfazer a necessidade de diminuir as emissões de gases de efeito estufa. Para os legisladores e a indústria de geração de energia, o maior dilema é apoiar a geração de energia nuclear ao mesmo tempo em que acalmam a persistente opinião pública sobre a sua segurança, especialmente no contexto dos terremotos.
O ocorrido na usina Kashiwazaki-Kariwa ilustra o dilema e surge como um desafio às autoridades e à indústria de geração de energia elétrica para garantir novamente ao público sobre segurança das usinas nucleares. Esta não é apenas uma questão doméstica, e está chamando a atenção da comunidade internacional devido ao avançado estágio do Japão no campo da geração de energia nuclear, e da demanda de outros países por tecnologia japonesa. Nesta situação, considera-se apropriado que o governo japonês tenha solicitado à Agência Internacional de Energia Atômica o envio de uma equipe para examinar as conseqüências do terremoto na usina Kashiwazaki-Kariwa.
Alarmista ou não?
Nos comentários dos meios de comunicação japoneses, observa-se que o Sankei Shimbun e oYomiuri Shimbun enfatizaram a segurança dos reatores que resistiram ao terremoto. O Sankei, em seu editorial de 24 de julho, disse que “isto é um fato e tanto e a Tokyo Electric Power, e a nação em geral, devem dizer isto com orgulho ao mundo”, adicionando que “muito embora a usina tenha sobrevivido a um terremoto ocasionado por uma falha sísmica ativa, argumentos prevalecentes quanto à segurança das usinas nucleares estão sendo estranhamente conduzidos em outro sentido. Não há sentido em realçar somente os riscos e propagar uma sensação de ansiedade”.
Similarmente, no editorial de 26 de abril o Yomiuri Shimbun advertiu para o que se consideram reações alarmistas, perguntando se “ o escape de radioatividade na usina nuclear Kashiwazaki-Kariwa foi realmente tão grave como os relatos sensacionalistas dos meios de comunicação dizem?… É necessário manter a calma. A quantidade de substâncias radioativas vazada foi mínima, considerando-se que ficou entre um bilionésimo e um décimo de milionésimo dos padrões de emissão estipulados pelo governo e a própria companhia. Considerando-se como os vazamentos ocorreram e os tipos de materiais envolvidos, não se pode dizer que foram do próprio reator, e não causaram danos ao meio-ambiente”. Concluindo o editorial, o jornal observou que “o conhecimento tecnológico do Japão em projetos resistentes a terremotos é o mais alto do mundo. As medidas para garantir a segurança dos reatores nucleares devem ser transmitidas aos inspetores (da Agência Internacional de Energia Atômica). Isto ajudará a afastar os danos causados pela apreensão estrangeira”.
As asserções do Sankei e do Yomiuri parecem ter considerado a posição dos três outros jornais nacionais, o Asahi, o Mainichi e o Nikkei.
No editorial de 26 de julho, o Asahi Shimbun escreveu que “os danos causados pelo terremoto, que em 16 de julho atingiu diretamente a usina nuclear Kashiwazaki-Kariwa na província de Niigata, foram mais sérios do que se pensara inicialmente. Descobriu-se que um guindaste instalado no teto do prédio que abriga o reator nuclear número 6 quebrou. Este reator estava passando por uma inspeção periódica quando o terremoto aconteceu. Caso estivesse em operação, os danos poderiam ter ocorrido exatamente acima do reator, onde ocorre a reação nuclear”.
Em 17 de julho, o jornal observou que “o tremor excedeu a intensidade máxima projetada para a segurança dos reatores nucleares. Houve escape de água radioativa e um incêndio”, e opinou que “alguns dão apoio à geração de energia nuclear dizendo que, diferentemente das centrais de energia térmica que emitem quantidades massivas de dióxido de carbono, as usinas nucleares, que geram energia limpa sendo úteis para prevenir o aumento do aquecimento global. Contudo, não devemos esquecer nunca o fato de o Japão ser suscetível a terremotos”.
O Mainichi Shimbun, em seu editorial de 19 de julho, pediu uma investigação exaustiva e a determinação da responsabilidade total por parte da operadora da usina nuclear, dizendo que “mesmo que se diga que a radioatividade foi em nível desprezível, a comunidade local não se sente segura já que o vazamento de água radioativa foi resultado de terremoto”.
Acerca da aceitação da equipe de inspetores da Agência Internacional de Energia Atômica, oNikkei, em seu editorial de 24 de julho, comentou que “o propósito da inspeção é compartilhar internacionalmente os dados sobre o impacto do terremoto. Seria irrelevante o Japão dar antecipadamente uma ‘garantia’ de que a inspeção resultará em uma confirmação de segurança. Essa estranha expectativa de uma agência internacional demonstra falta de confiança no governo japonês. Os funcionários envolvidos devem refletir seriamente sobre isto”. Continuando, o jornal disse que “um estado de constante prontidão para aplicar ações rápidas é essencial para quando surgirem dúvidas sobre a segurança da energia nuclear. Exatamente por essa capacidade não existir nas agências governamentais envolvidas, há grandes expectativas sobre a inspeção da Agência Internacional de Energia Atômica”.
Ademais, o Nikkei publicou um editorial em 27 de julho argumentando que “a energia nuclear é segura desde que o pior cenário seja evitado, no qual o núcleo do reator se rompe, causando o vazamento de grandes quantidades de substâncias radioativas, ou mesmo o incêndio de um transformador, o derrame de água do depósito de combustível nuclear usado ou a danificação de um guindaste. Tal asserção equivale à típica lógica que é aceitável somente dentro do universo interior (da indústria, legisladores e alguns acadêmicos)”. O jornal disse também que outra lição a ser entendida é que “as agências governamentais que supervisionam a geração de energia nuclear e as próprias companhias elétricas tendem a subestimar os diversos riscos envolvidos”, e pediu o estabelecimento de um órgão regulador de segurança, independente do Ministério da Economia, Comércio e Indústria, o promotor de centrais de energia nuclear.
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