4 de junho de 2026

VIVÊNCIA EDUCACIONAL

 

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Li um artigo comentando o debate em torno do sistema educacional e a proposta aprovada de não reprovação nos primeiros 3 anos do ensino básico. Com a recomendação de uma prática de “progressão continuada”. Este termo me remeteu a uma infância onde era a prática educacional vigente.

Um novo mundo. Um mundo diferente.

Eu não tinha a noção de  “passar de ano”.  Ao me defrontar com tal conceito e prática, não entendia. Como seria possível “não passar de ano?”  Completei mais um ano de vida e aprendi tanta coisa com minha angélica professora e com meus companheiros de turma, que variavam de 5 a 14 anos, de um ensino em período integral… O ano mudou para todos, sempre, desde que eu me recordava. 

Como era possível crianças de minha idade “não passarem de ano” ? Assustador, mas logo percebi que algumas não passavam. E eram motivo de chacota e castigos.

Neste processo doloroso  descobri a existência de julgadores implacáveis que decidiam quais crianças “passavam” e quais “não passavam de ano” . E junto veio o medo dos tais “julgadores” que passaram a substituir minha querida mestra.

 E também assustaram aquelas turmas todas de crianças da mesma idade. Quem poderia me ajudar? A professora, tão sisuda, nem pensar. Mas que estranho todas (isso mesmo, só meninas) termos a mesma idade. Os mais novos não tinham o modelo e os mais velhos não tinham a perspectiva ou o entendimento dos mais jovens. Pequenos agrupamentos etários que pouco se comunicavam uns com os outros, que não se conheciam, que se isolavam cada vez mais.

E ficar meio dia só também era pouco para aprender tudo que acreditava ser necessário aprender. Tudo a que estava acostumada a fazer na escola: aprender, cantar, rir,  brincar e a “aprontar”. Não havia tempo suficiente.

 Estranho mundo novo.

Tentei compensar lendo muito. Viajando para outros lugares fantásticos através de livros de todos os tipos.

Mas sentia falta de minhas companheiras mais velhas que me transmitiam segurança e me ensinavam a vida. E aquela coisa de provas que deixava todo mundo nervoso, com medo de “repetir de ano”? Tínhamos que tirar umas tais de notas de uma estranha aritmética que dizia o quanto eu havia aprendido. Como isso era possível?

Este processo despertou meu interesse pela educação e pelas diferentes culturas as quais definem seu mundo real, a relação entre as pessoas, os padrões de sobrevivência e, enfim, a estrutura e funcionamento de cada sociedade, de cada agrupamento humano.

O tempo passou e as reflexões e experiências com o aprendizado e formação humana foram se acumulando e dando contorno a uma proposta para o que realmente importa: o desenvolvimento do ser humano em toda sua plenitude e como ele o promove.

Concluo este texto aprovando a decisão de eliminar a “reprovação”, mesmo ainda limitada aos 3 primeiros anos. Espero que as condições para esta nova educação estejam também definidas adequadamente. Salas menos lotadas, professores mais capacitados para serem mais orientadores da formação e desenvolvimento humano e menos transmissores de conhecimento desconectado do mundo real do educando. Equipes docentes com condições dignas quanto a remuneração e condições de trabalho, etc.  Famílias preparadas para acompanhar este novo ensino. O pior seria mudar sem a geração das condições necessárias, pois aí estaríamos no pior dos mundos: nem o passado nem o futuro. Apenas o espaço onde tudo pode ocorrer.

Há muito que caminhar. Há muito que vivenciar e refletir. A reflexão sem vivencia é vazia de sentido.

Sou privilegiada por ter tido esta experiência educacional. Ela abriu minha mente para sempre ter a perspectiva de que é possível mudar. De que é possível existir algo que nem imagino. De que nossa base para a construção das diferentes visões de mundo são as mesmas raízes comuns que nos identificam enquanto humanos.

MariaB/20fev2011

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