Filhos de imigrantes egípcios de Nova York ganham uma súbita consciência da sua identidade étnica
Para Esmaeel El Sayed, um jovem de 16 anos de idade que é filho de imigrantes e mora no Queens, a hierarquia da vida sempre foi bem clara: Madona supera Naguib Mahfouz, os Big Macs são mais gostosos do que o baba ghanoush, e ser norte-americano é bem melhor do que ser egípcio, árabe e muçulmano.
Mas, quando dezenas de milhares de jovens egípcios saíram às ruas do Cairo nas duas últimas semanas, Esmaeel, um adolescente de fala suave que é filho de um Chef que migrou da cidade egípcia de Alexandria, e que atualmente é dono de um restaurante na área conhecida como Little Egipt (Pequeno Egito), diz que está passando por uma transformação pessoal. Na semana passada, ele participou da sua primeira manifestação, gritando relutantemente slogans contra o presidente egípcio, Hosni Mubarak. Depois disso ele tem disseminado imagens dos manifestantes do Cairo na sua página do Facebook. E agora ele está pensando em fazer um curso de língua árabe.
“Quando o meu pai sugeriu pela primeira vez que eu participasse de uma manifestação de apoio ao Egito, a minha primeira reação foi retrucar: ‘A manifestação vai ocorrer em uma noite em que tenho escola. Tenho deveres de casa para fazer. Além do mais, essa não é uma luta minha’”, conta Esmaeel, um estudante de segundo grau que pinta quadros e toca guitarra. “Mas quando eu fui lá e presenciei toda a fúria e a paixão nos protestos, percebi que não posso ser egoísta. Tive a sensação de que o Egito é meu país, e de repente senti orgulho”.
Para a geração mais nova de egípcios-americanos em Nova York, a rebelião popular ocorrida a 9.000 quilômetros dali tem proporcionado uma educação política, um despertar cultural e um reconhecimento de uma terra esquecida. Nos últimos dias, alguns dos pouco mais de 20 jovens reunidos no Layali El Helmeya Cafe têm suplicado aos seus pais que os deixem viajar para o Egito a fim de participarem das manifestações. Mas os pais, muitos dos quais vieram para os Estados Unidos para proteger os filhos de tais agitações, mostram-se irredutíveis.
“A geração mais velha pensa e a geração mais nova age, porque eles não têm nada com o que se preocupar”, opina Ali El Sayed, o pai de Esmaeel. El Sayed é um jovial autointitulado “prefeito” de Little Egypt, que abriu o primeiro estabelecimento comercial árabe da região, o Kabab Cafe, em 1987. “Quando Esmaeel me diz que deseja ir para o Egito, eu respondo a ele: ‘Não acredito em heróis mortos’”.
El Sayed diz que está satisfeito com o fato de os acontecimentos no Egito estarem proporcionado a ele a oportunidade de dar aulas de história ao seu filho, que adora o conjunto Guns N’ Roses. Mas ele está igualmente feliz por Esmaeel estar apoiando a revolução de dentro do seu quarto. Já Esmaeel diz que a Internet permitiu a ele sentir como se tivesse saído às ruas do Cairo – sem ter que deixar o seu bairro.
Michael Wahid Hanna, 37, um especialista em Egito da Century Foundation, uma organização que fica em Nova York, diz que os acontecimentos no Oriente Médio empolgaram uma geração que já começara a ter mais consciência da sua identidade muçulmana após os ataques terroristas de 11 de setembro de 2011.
Para muitos egípcios-americanos, esta é a primeira vez que eles olham para o Egito e veem algo de heroico e corajoso”, diz Hanna, que é filho de médicos que emigraram do Cairo. “A cena de manifestantes pacíficos que clamam por direitos universais como a liberdade sendo atacados por brutamontes é algo que está tendo um efeito na consciência coletiva de como os egípcios-americanos veem a si próprios, especialmente entre a população mais jovem”.
Esmaeel, cuja mãe é argentina, diz que aprendeu a respeito da sua herança cultural e étnica egípcia e árabe na cozinha do restaurante do seu pai, onde ele saboreava uma dieta constante de filosofia humanista, juntamente com quitutes como carne de cordeiro com romã e ganso à moda do faraó. Che Guevara era um foco mais importante das lições de El Sayed do que o profeta Maomé. Quando era estudante, El Sayed participou de manifestações estudantis na década de sessenta. A família frequentou poucas mesquitas e fez uma única viagem ao Egito quando Esmaeel tinha dois anos de idade.
“Esmaeel é um garoto norte-americano, e isso me deixa feliz”, diz El Sayed. “Quando era criança, ele adorava ir ao McDonald’s porque queria receber um brinquedo gratuito. Assim, eu tive a ideia de introduzir um “brinquedo falafel” no nosso restaurante”.
Esmaeel diz que os ataques contra o World Trade Center fizeram com que ele passasse “a ter mais consciência da identidade muçulmana”, e essa consciência aumentou quando ele matriculou-se, três anos atrás, na Escola de Bacharelado para Educação Global, onde o seu nome fez com que ele ficasse bastante visível. “Quando eu dizia que era egípcio, as pessoas respondiam: ‘Você é muçulmano. Um árabe’. Isso me perturbava”, explica o rapaz. “O meu nome é Esmaeel e ele rima com Israel, e antes disso algumas pessoas achavam que eu fosse judeu. Mas após o 11 de setembro, isso mudou”.
De fato, membros da geração mais velha e mais nova de Little Egypt dizem que o sentimento antimuçulmano após o 11 de setembro de 2001 fez com que eles se ligassem mais fortemente às suas identidades étnicas, ainda que sentissem que eram profundamente estadunidenses.
Após a rebelião no Egito no mês passado, Samy El Sharkawy, 58, um motorista de limusine que migrou de Alexandria, no Egito, para o Queens em 1990, afirma que o seu filho de 18 anos de idade, Tarek, tem lhe implorado para ir ao Egito juntar-se aos manifestantes. El Sharkawy não deu permissão ao filho, mas no fundo gostou da atitude de Tarek. Ele observa que embora dificilmente vá a mesquitas, o filho faz orações cinco vezes por dia – e com um vigor renovado nos últimos dias.
“É muito difícil manter a sua identidade egípcia nos Estados Unidos”, explica El Sharkawy. “Eu tive a sorte de me voltar para o Alcorão, e não para drogas e sexo”.
Para outros, a rebelião – liderada por indivíduos jovens – expôs a lacuna entre gerações, tanto no Cairo quanto em Nova York.
“Eu não acho que a geração do meu pai conheceu o significado de democracia”, reclama Iman, um médico de 35 anos de idade de Alexandria, que recusou-se a fornecer o seu sobrenome por temer pela segurança dos seus parentes no Egito. “Eles cresceram em um Estado policial e agarraram-se ao passado, muito depois de terem chegado aos Estados Unidos”. Ele aponta para uma parede cheia de fotografias de ícones da década de sessenta: o ex-presidente, Gamal Abdel Nasser; a cantora Umm Kulthum; e Mahfouz, o escritor ganhador do Prêmio Nobel, e diz que aquilo é uma cena “congelada no tempo”.
Mas os El Sayed dizem que os acontecimentos do Egito fizeram com que eles se aproximassem mais. “Agora finalmente nós não seremos conhecidos apenas pelos faraós e a escravidão”, diz Esmaeel.
“Sim”, acrescenta o pai. “Deixem que o meu povo vença!”.
Tradução: UOL
http://m.noticias.uol.com.br/midiaglobal/nytimes/2011/02/05/filhos-de-imigrantes-egipcios-de-nova-york-ganham-uma-subita-consciencia-da-sua-identidade-etnica.htm
Deixe um comentário