Por Paulo Eduardo Neves
No início da década de 50, o físico Richard Feynman passou duas temporadas lecionando no Brasil. O sujeito ainda não tinha ganho seu prêmio Nobel, mas já havia ajudado a construir a bomba atômica. Ele se apaixonou pelo Brasil, tocou frigideira em escola de samba, mas seu relato da Academia brasileira é uma deprê só:
Até acho que melhorou, mas não acho que tenha mudado muito. Já vi situações parecidas como a da delegação de alunos que foi reclamar do curso muito difícil.
Veja só um trecho:Dei um curso na faculdade de engenharia sobre métodos matemáticos na física, no qual tenteidemonstrar como resolver os problemas por tentativa e erro. É algo que as pessoas geralmente nãoaprendem; então comecei com alguns exemplos simples para ilustrar o método. Fiquei surpreso porque apenas cerca de um entre cada dez alunos fez a tarefa. Então fiz uma grande preleção sobrerealmente ter de tentar e não só ficar sentado me vendo fazer.
Depois da preleção, alguns estudantes formaram uma pequena delegação e vieram até mim, dizendoque eu não havia entendido os antecedentes deles, que eles podiam estudar sem resolver osproblemas, que eles já haviam aprendido aritmética e que essa coisa toda estava abaixo do níveldeles.
Então continuei a aula e, independente de quão complexo ou obviamente avançado o trabalhoestivesse se tornando, eles nunca punham a mão na massa. É claro que eu já havia notado o queacontecia: eles não conseguiam fazer!Uma outra coisa que nunca consegui que eles fizessem foi perguntas. Por fim, um estudanteexplicou-me: “Se eu fizer uma pergunta para o senhor durante a palestra, depois todo mundo vaificar me dizendo: “Por que você está fazendo a gente perder tempo na aula? Nós estamos tentandoaprender alguma coisa, e você o está interrompendo, fazendo perguntas”.
Era como um processo de tirar vantagens, no qual ninguém sabe o que está acontecendo e colocamos outros para baixo como se eles realmente soubessem. Eles todos fingem que sabem, e se umestudante faz uma pergunta, admitindo por um momento que as coisas estão confusas, os outros adotam uma atitude de superioridade, agindo como se nada fosse confuso, dizendo àquele estudante que ele está desperdiçando o tempo dos outros.Expliquei a utilidade de se trabalhar em grupo, para discutir as dúvidas, analisá-las, mas eles também não faziam isso porque estariam deixando cair a máscara se tivessem de perguntar alguma coisa aoutra pessoa. Era uma pena! Eles, pessoas inteligentes, faziam todo o trabalho, mas adotaram essa estranha forma de pensar, essa forma esquisita de autopropagar a “educação”, que é inútil,definitivamente inútil!
Oli
31 de janeiro de 2019 7:28 pmEnsino de ponta
Murilo (ou demais),
Poderia indicar a universidade brasileira a que se referiu, ou qualquer outra em que considere o ensino de Física de ponta, comparado (em método) a universidades europeias? Pergunto porque estou na minha 4a faculdade e já estou vendo que não vou ter forças para terminar. De novo. É muita decoreba, se passa por cima das explicações das fórmulas como se não fossem parte da matéria e a quantidade de conteúdo (ex.: Física Geral I-IV) é muito maior do que a de alguns amigos europeus que tenho quando comparamos currículos. E isso é péssimo! Ficamos aprendendo (decorando) fórmula por fórmula enquanto eles aprendem a aplicá-las e, mais importante: chegar nas que não aprenderam. Deduzi-las. Induzir.
Estou muito triste mesmo e sem esperanças com o ensino. Cheguei até aqui, não vou me corromper e começar a estudar para passar a esta altura do campeonato. Mas pelo jeito tampouco vou conseguir terminar. Os poucos professores bons que tive parecem concordar, mas se sentem de mãos atadas. Não consigo estudar assim, qualquer ajuda é bem-vinda!
Saudações!