4 de junho de 2026

Os médicos e os laboratórios

Por Reynaldo L

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Consciente ou não deste papel, há anos o Nassif vêm “treinando” de alguma forma seus leitores para que desenvolvam algo que poderia ser chamado “senso crítico”, através de suas análises profundas, lúcidas e ponderadas. Lamentavelmente,  parece que alguns  jamais vão fugir do senso comum, do maniqueísmo infantil e superficial. Isto está patente nos comentários que lí aqui. A notícia fala que alguns médicos participantes  de diretrizes clínicas tem/tiveram algum vínculo com laboratórios (alguns em grau desprezível). Isto basta para as “análises” e “conclusões definitivas” dos leitores:

1) a medicina é vendida aos laboratórios.

2) médicos são seres desprezíveis cujo único propósito na vida é vender tratamentos ineficazes a quem deles não precisa, somente para ganhar um jabá do laboratório.

3) As “diretrizes clínicas” são um lixo que só refletem os itens 1 e 2 acima.

4) Fármacos produzidos por laboratórios não passam de duas categorias: venenos ou placebos, que só fazem mal, não curam nada, e só prestam ao lucro dos fabricantes.

 

Saindo um pouco do senso comum, tenho um contraponto:

1) As diretrizes clínicas são baseadas em estudos de domínio público que são avaliadas de forma transparente e podem ser contestadas por qualquer profissional de saúde ou não que se disponha a avaliá-las tanto no método quanto no conteúdo. Tal contestação é bem vinda quando embasada em “fatos e dados”, e não tenha dúvida que levariam à desmoralização da equipe caso demonstrassem incoerência, omissão de estudos, fraude, etc.

2) A maioria dos membros das comissões são especialistas com competência reconhecida na sua respectiva área de conhecimento,  nomes de peso nacional e internacional, com publicações científicas em periódicos de avaliação rigorosa e respeitados pelo conjunto de seus pares. Estão muito, mas muito acima de simples office boys de laboratório.

3) Várias diretrizes trilham por caminhos exatamente contrários ao que aqui se comenta: enfatizam a importância de uma anamnese e um exame clínico para um correto diagnóstico, limitam a necessidade de serem pedidos exames complementares ( como por exemplo, de tomografias e ressonância magnética, altamente lucrativas ao “sistema”), e definem as vantagens de terapias não farmacológicas. Tomo a liberdade de reproduzir alguns trechos das diretrizes para cefaléias:

” Para a maioria dos pacientes, mais importante do que um medicamento que alivie os seus sintomas é saber a origem do seu problema. Assim, o manejo das cefaleias, particularmente num cenário de atenção primária à saúde, inicia-se com informação clara e uma adequada relação médico-paciente”

“Exames laboratoriais e eletrofisiológicos, incluindo o exame do líquor, não auxiliam no diagnóstico das cefaleias, pois têm baixa sensibilidade, assim como a tomografia computadorizada, a ressonância nuclear magnética, a angiografia, entre outros”

“É importante evitar o abuso de drogas ansiolíticas para alívio da tensão 10 (D), uma vez que mascaram situações de vida que provocam desconforto e têm um grande potencial de adição, sem que isto resolva o problema do paciente.”

“Medidas gerais devem ser consideradas sempre que se possa determinar um fator desencadeante – seja dietético, de hábitos (particularmente cigarro, ruídos, ritmo de sono), do uso de medicamentos (contraceptivo hormonal, uso crônico de analgésicos), ou mesmo situações em que as crises estejam associadas 8,10,34 . Quanto mais frequentes e intensas, mais provavelmente o paciente estará pronto para aceitar uma abordagem de mudança de hábitos. Trabalhos randomizados mostram que atitudes e atividades que promovam relaxamento e qualidade de vida diminuem a prevalência e a intensidade das crises. 35 . Aparentemente, biofeedback, relaxamento, yoga e outras atividades congêneres têm impacto no quadro, mas não há efeito somatório em fazer mais de uma delas, logo o gosto e a disposição do paciente devem ser considerados”.

4) Isso não impede, é óbvio, que se questione eventuais conflitos de interesse. É uma discussão útil, e porque não dizer, necessária. Daí a afirmar que as diretrizes são feita por gente que mente a mando de laboratórios, vai uma distância muuuuito grande. É lamentável ainda que tais afirmações venham de leitores acostumados diariamente a verem desmontadas críticas contra o governo que apóiam, que usam justamente a superficialidade e generalizações que agora exibem nos seus argumentos

5)Muitas afirmações aqui falam, citam simplesmente profissionais canalhas (desculpem o termo, mas se alguém reutiliza marcapasso de um morto para vender como novo a um vivo, não há outra palavra) como “prova absoluta” que “médicos são uma máfia”. Seria  como julgar o conjunto dos jornalistas pela turma do esgoto. Você paga alguém que se vende e diz: jornalistas não prestam. Lembrem-se que o Nassif é jornalista, ok? Quanto a esse tipo de  profissionais citados: a eles, a lei.

6) Critica-se a abordagem atual dos médicos (rapidez das consultas, por exemplo) como se eles fossem não vítimas como os usuários, mas os principais responsáveis. Querem um consultório limpo, agradável e bem localizado ( que custa dinheiro), que o médico seja competente e atualizado (que custa dinheiro), uma recepcionista atenciosa, simpática e desenvolta (que custa dinheiro) uma consulta de uma hora e meia (que custa dinheiro), mas não explicam como esperam que se pague por tudo isso com uma consulta de 40 reais (sem os descontos de IR e com direito a consulta de retorno). Suponha então que um abnegado médico atenda por esse preço em consultas calmas e personalizadas (como devem ser), 8 pacientes/dia. Aconteceria o seguinte:

a) pacientes ligariam e não conseguiriam marcar consulta pelos próximos 6 meses. Sairiam falando mal do profissional ou mendigariam um “encaixe”, que se conseguido, o levaria a ficar irritado na sala de espera (o que será que ele está fazendo com o outro paciente que a consulta não acaba nunca e eu tenho que ficar esperando?) mas exigente na consulta (agora eu quero ficar minha hora e meia aqui, os demais que esperem) .

b) os ganhos do médico “não mercenário” não dariam para manter sua prática: as paredes do consultório começariam a a ficar sujas, as poltronas rasgadas, sua excelente secretária de anos iria para outro emprego (200 reais a mais, luxo que o médico não poderia cobrir). Começaria a pegar fama de desleixado, reclamariam da ineficiência da sua secretária nova.

c) os ganhos do médico “não mercenário” não dariam para manter sua atualização. Artigos científicos, livros e cursos custam dinheiro que ele não tem. Começa a pegar fama de “velho desatualizado e incompetente”. Ganha alguns processos por má-prática profissional. os pacientes somem.

d) o médico vai a falência, com a última pá de cal no seu túmulo depositada pelos pacientes que achavam que ele tinha que proporcionar consultas suecas a preços africanos. Ninguém chora por ele.

 

Enfim, só algumas divagações, um desabafo às bobagens que li aqui.

Luis Nassif

Jornalista, com passagens por diversos meios impressos e digitais ao longo de mais de 50 anos de carreira, pelo qual recebeu diversos reconhecimentos (Prêmio Esso 1987, Prêmio Comunique-se, Destaque Cofecon, entre outros). Diretor e fundador do Jornal GGN.

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