Mais sobre o caso do menino Sean. As duas versões através da BBC :
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Atualizado em 24 de dezembro, 2010 – 12:33 (Brasília) 14:33 GMT
‘Sean desabrochou no subúrbio americano’, diz amigo da família Goldman
Camila Viegas-Lee
De Nova York para a BBC Brasil
David ganhou a guarda de Sean em dezembro de 2009
Um ano depois de voltar para os Estados Unidos, em cumprimento à decisão da Justiça brasileira, Sean Goldman “se adaptou rapidamente, tem ido bem na escola e tem muitos amigos da idade dele”, segundo Bob D’Amico, amigo da família e membro da Fundação Traga o Sean para Casa.
“É irônico que ele tenha vindo de uma vida muito privilegiada no Rio de Janeiro e que tenha desabrochado vivendo na classe média do subúrbio americano”, afirma D’Amico.
“Acho que é por causa da liberdade, a liberdade de poder jogar bola com os amigos na rua, ou no riacho que passa atrás da casa dele”, acrescenta. “Compare isso com morar em um arranha-céu dentro dos muros de um condomínio fechado, assegurado por guardas fortemente armados, e você vai entender.”
O amigo da família Goldman diz não poder dar mais detalhes sobre Sean, 10, e seu pai, David, para preservar a privacidade dos dois e porque o processo ainda está em andamento.
Ele acrescenta, no entanto, que a volta do menino para os Estados Unidos foi “melhor do que qualquer um de nós poderia ter imaginado”.
CliqueLeia mais na BBC Brasil: Sean foi ‘blindado’ para não falar com família brasileira, diz avó
Disputa judicial
Sean foi levado aos Estados Unidos na véspera do Natal de 2009 depois de uma disputa judicial entre a família da mãe do menino – Bruna Bianchi, morta após o parto de sua segunda filha, em 2008 – e David Goldman.
Em dezembro passado, o Supremo Tribunal Federal (STF) concedeu a guarda do menino, que estava vivendo no Brasil, a David Goldman.
O caso chegou a ganhar proporções políticas: em março de 2009, a secretária de Estado americana, Hillary Clinton, pleiteou, em mensagem ao governo brasileiro, a volta de Sean aos Estados Unidos.
Em reação à disputa pela guarda, um senador americano chegou a apresentar uma moção suspendendo a votação do Sistema Geral de Preferências, um programa de isenção tarifária que beneficiava exportações brasileiras.
O programa só foi aprovado depois da decisão do STF favorável a David Goldman.
Convenção
Para Patricia Apy, advogada de David Goldman, o caso de Sean foi difícil de resolver por ter sido o primeiro do tipo. “Por isso, progrediu vagarosamente no sistema”, afirma.
“Sean Goldman está entre as primeiras inscrições feitas na Autoridade Central Brasileira, e foi a primeira criança americana a voltar do Brasil”, acrescenta a advogada.
“O Brasil havia acabado de estabelecer relacionamento de tratado com os Estados Unidos, aceitando os termos de adesão na Convenção de Haia sobre os Aspectos Civis do Sequestro Internacional de Crianças.”
O sequestro de filhos se dá quando um dos pais leva o filho ou a filha para fora do país e, à revelia do outro genitor, decide não devolvê-los.
No caso Sean, a família brasileira tentou ao longo do processo convencer a Justiça de que era desejo do garoto permanecer no Brasil.
No fim, o STF acabou decidindo pela volta do menino aos Estados Unidos com base na Convenção de Haia, assinada na Holanda em 1980, que determina o retorno imediato da criança ao seu país de residência.
O Brasil é signatário do acordo, e um dos argumentos do Supremo para basear sua decisão foi que manter Sean no país poderia implicar em sanções internacionais.
De acordo com Apy, o fato de o caso ter se tornado público contribuiu para a resolução do caso.
“De agora em diante, espera-se que nenhum pai tenha que levar seu caso a público para poder desfrutar da lei de tratados internacionais”, afirma a advogada. “Agora, espero, o processo está estabelecido para casos no futuro.”
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Atualizado em 24 de dezembro, 2010 – 12:33 (Brasília) 14:33 GMT
Sean foi ‘blindado’ para não falar com família brasileira, diz avó
Júlia Dias Carneiro
Da BBC Brasil no Rio de Janeiro
‘Não conseguimos acordo para falar por telefone’ com Sean, diz Silvana
Desde que Sean Goldman embarcou para os Estados Unidos com o pai americano, um ano atrás, a família brasileira diz que conseguiu apenas cerca de três trocas de e-mails com o menino e cinco telefonemas. Após um último contato por telefone em junho, a avó, Silvana Bianchi, afirma que o neto está inacessível.
“O Sean ficou blindado. Ele não tem celular, não tem e-mail, não tem nada. Ou, se tem, nós não temos conhecimento de nada, porque é tudo tão vigiado que ele não pode se comunicar conosco”, diz Silvana.
“Na escola ele é vigiado o tempo inteiro, dentro de casa ele é vigiado o tempo inteiro”, acrescenta a avó de Sean, que recebeu a BBC Brasil em seu apartamento no Jardim Botânico, na Zona Sul do Rio.
Padrasto do menino, o advogado João Paulo Lins e Silva diz que a família anseia por notícias e está entregue à especulação. “A gente não sabe se ele está gordo, se está magro, se está limpo, de banho tomado. Se dizem que ele está bem adaptado, por que não mostram?”, questiona.
De acordo com Lins e Silva, não existe uma determinação judicial nos Estados Unidos que obrigue o pai a fazer contato com a família brasileira.
“Mas o problema é que não conseguimos fazer contato com ele. O telefone que tínhamos, o David (Goldman, pai do menino) trocou. O celular, ele não atende”, diz o padrasto. “Ninguém quer ser invasivo, mas o mínimo que gostaríamos é uma notícia.”
Disputa judicial
Agora com dez anos, Sean é filho de David Goldman e de Bruna Bianchi, que, em 2004, trouxe o menino para o Brasil e depois se divorciou do americano. Em 2008, ela morreu de complicações pós-parto após o nascimento de Chiara, filha de seu novo casamento com João Paulo.
Após uma batalha judicial que mobilizou os governos do Brasil e dos Estados Unidos, uma decisão do Supremo Tribunal Federal determinou que Sean fosse entregue ao pai na véspera do Natal passado.
A família materna luta para chegar a um acordo que permita visitas e contatos com o menino, que hoje mora nos Estado americano de Nova Jersey com David. “Mas até agora não conseguimos nem um acordo para falar por telefone”, diz Silvana.
Na última terça-feira, um dos advogados dos avós, Carlos Nicodemos, recebeu a notícia de que o Departamento de Justiça dos Estados Unidos não iria intervir para permitir uma visita consular a Sean, como a família brasileira havia solicitado.
Roteiro
Em uma das cinco conversas que conta ter tido com o neto ao longo do último ano, Silvana afirma que teve de falar inglês e seguir um roteiro passado por David por e-mail.
“Eu tinha que perguntar se ele estava indo bem na escola e não podia falar da irmã, que passa pelo quarto dele e pergunta por ele”, diz a avó. “O Sean tem uma irmã uterina com quem teve contato durante um ano e meio, mas agora simplesmente tenta-se apagar isso da cabeça dele.”
Silvana afirma ter enviado agora em dezembro dois cartões de Natal registrados para Sean. João Paulo diz que mandou um computador para o menino logo após sua ida para os Estados Unidos e outros presentes ao longo do ano. “Não sabemos se nada disso chegou”, diz o advogado.
Na sala ampla do apartamento no Jardim Botânico, com fotos de Sean em uma das estantes e do casamento de Bruna e João Paulo em outra, Silvana diz que a família vai continuar batalhando pelo direito de ver o neto.
Ex-chef de um restaurante italiano no Rio, ela diz que só vai conseguir retomar sua vida depois que o episódio “se resolver” – o que, para ela, representa concluir as ações ainda em andamento no Brasil e chegar a um acordo para restabelecer o contato com o neto.
“Por mais que tentem apagar a memória dele, por mais que queiram que ele só fale inglês e esqueça a língua materna, tenho certeza que ele vai nos ter dentro do coração a vida toda”, afirma Silvana. “Isso nunca ninguém vai arrancar dele, embora seja uma violência tentar.”
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