4 de junho de 2026

O mundo de dentro de Dori Caymmi

Dá o que pensar sobre o que Dori Caymmi disse, meio assim sem mais nem menos, no show de Sérgio Santos. Foi alguma coisa como dizer que o Sesc é o “ministério da cultura”. Não dá para entender por que o Ministério da Cultura e a Petrobras, em vez de patrocinar a disseminação da cultura no Brasil, como os Sesc’s fazem, promovendo shows ótimos com preços baixos, oficinas culturais voltadas à população menos favorecida, abrigando há décadas o grupo do teatrólogo Antunes Filho, em vez disso, dão dinheiro para nomes estelares como Maria Bethânia e Gilberto Gil (nada contra; sou fã dos dois), ou ao rico Cirque de Soleil, que não precisa de ajuda de ninguém, em que os ingressos são vendidos por mais de 100 reais (os do Cirque custaram bem mais que isso). Agora, em novembro, o estado gastou a bagatela de 1,5 milhão para a cerimônia de entrega da Ordem do Mérito Cultural, sendo 489 mil reais destinados pelo MinC a Bia Lessa, responsável pela produção e direção do evento.

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Pois um compositor do valor de Dori Caymmi tem dificuldades em distribuir seus discos no Brasil. Com aquele humor, notificou ao público que o disco estava à venda na saída, junto do último de Sérgio Santos e o de André Mehmari e o bandolinista Hamilton de Holanda. Fez alguma referência de que precisava desse dinheiro. Tão pouco divulgado, em 2009, Dori lançou Mundo de Dentro, apenas com composições de sua lavra, com o “parceiro da humanidade” (das 13, 12 são dele). É assim que, brincando, chama Paulo César Pinheiro.

Salvo engano, Dori não grava um disco autoral há mais de dez anos. ContemporâneosInfluências e Cinema – A Romantic Vision são mais discos de intérprete. Por isso, o lançamento de Mar de Dentro deve ser considerado um acontecimento.

Sua música nunca foi exatamente esfuziante. Dori é um dramático. Como sua irmã, tem um pé na densidade. Suas vozes também são graves e funcionam muito bem em despertar emoções fortes. A voz de Dori vem de “dentro”, é coisa de alma. Deve ser fruto de herança genética. Mesmo quem ouviu à exaustão o velho Caymmi, nunca deixará de se emocionar em cada audição de O Bem do Mar, apenas com o violão, ou de A Jangada Voltou Só. Tem Dois de Fevereiro e O Que É Que a Baiana Tem, mas aí é outra história. O “dengo” de Dorival é baiano. Dori nasceu no Rio. Isso não significa que não consiga fazer uma marchinha “pra frente”. É que no tom menor ele é maior.

Quebra-Mar, que abre o disco, é uma composição em que não há outro qualificativo se não o de maravilhoso para defini-la. Com Renato Braz dividindo os vocais, é uma peça emocionante. O grave da voz de Dori e o agudo de Braz se complementam. A próxima, Rio Amazonas, foi gravada antes por Wanda Sá. Não são inéditas também as belas É o Amor Outra Vez, gravado por Maria Bethânia, e Sem Poupar Coração e Saudade de Amar, pela irmã Nana (parecem ter sido feitas na medida para ela). Canções como DelicadezaFora de Hora e Armadilhas de Um Romance, são baladas, em tom menor. Tem canções nem tão esfuziantes como Dança do TucanoFlauta, Sanfona e Viola. Mesmo o frevo – Chutando Lata –, em que divide os vocais com Edu Lobo, não é daquelas de fazer alguém sair por aí dançando ou chutando lata.

As letras de Paulo César Pinheiro são o perfeito complemento para o tom dado pelo músico. Exemplos: Sem Poupar Coração (Não quero mais/ Ouvir quem diz/ Que o amor é só/ Pra ser feliz/ Angústia ou paz/ Prazer ou dor/ Eu quero é mais/ Morrer de amor// Eu quero amar demais/ Sem poupar coração/ Que pra mim o amor que apraz/ É uma louca paixão/ Um amor só satisfaz/Além da razão.), ou Mundo de Dentro (…/ Cego é quem olha pro mundo e o mundo se põe como centro sem enxergar um segundo o mundo do mundo de dentro/ Cego só vê a medida do que alcança a visão, não olha nunca pra vida com olho do coração).

Redação

Curadoria de notícias, reportagens, artigos de opinião, entrevistas e conteúdos colaborativos da equipe de Redação do Jornal GGN

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Repórter do GGN há 9 anos. Especializada em produção de conteúdo para as redes sociais.

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