4 de junho de 2026

Contra o imobilismo, Tim by Roberto chegando no Itamar

A trajetória de uma canção revela sua vida, por vezes ela se torna própria. Tim Maia corria atrás de Roberto em 1969 para que este gravasse uma música sua, se aproveitou da instantânea simpatia que despertou na então esposa de RC, Nice,  e depois de muito tentar, Roberto gravou “Não Vou Ficar” (esta história é contada pelo Nelson Motta). Sucesso e momento marcante na carreira do Rei, e claro que Tim disse logo após que teria feito melhor. Tim sempre Tim.

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A música seguiu contemplada (nem sempre gloriosa), pois:  Kid Abelha, Ivete Sangalo, Fabio Jr, Pitty, até os portugueses dos Delfins a gravaram. Mas o interesse fica na junção de uma tríade representativa: o criador Tim Maia, Roberto Carlos que a  tornou popular e, finalmente, o que a demonstrou em síntese: Itamar Assunção.

Chegou a hora, tem que ser agora
E com você não posso mais ficar
Não vou ficar, não (não, não)
Não posso mais ficar, não, não, não
Não posso mais ficar, não

Um amarração perfeita calcada na óbvia co-irmandade entre Tim e Itamar (na velha conversinha de malditos), o que esta longe de explicar a grandeza de ambos, casada com a popularidade e aura de “midas touch” de Roberto. A canção criou vida e se sustentou pelos seus méritos. Roberto a gravou num período que reinava solene com baladinhas adoçadas e rockinhos limpinhos, surpreendeu e contrastou com o arranjo soul e a letra desafiadora, ele podia e tinha fôlego. De sobreaviso Tim insistia e o endosso do camarada rico abriu caminho (de certa forma) para que ele criasse seu próprio reino conturbado e cheio de idas e vindas.

Itamar apresentou a canção nos seus shows em meados da década de 80, até a pouco ela estava inédita em disco, surgiu em meio a caixa recém-lançada agora em 2010, leia excelente matéria do Pedro Alexandre Sanches aqui: http://www.cartacapital.com.br/cultura/o-interprete-do-nao-2. Talvez  (ah, a memória) a ouvi em alguma apresentação no CCSP ou Sesc Pompéia nessa época, não lembro ao certo. Itamar surgiu em meio a onda da chamada vanguarda paulista (Arrigo Barnabé, Rumo, Premeditando o Breque, Hermelino Neder) e era de longe o mais talentoso da cena, e não coincidentemente, o que reinava e era sucesso naquele momento era o RockBr, totalmente branco.

Tim Maia já era um “mainstream” nessa época, a despeito de todas as marés cheias e baixas que enfrentou na carreira. O vanguardista gravou o mainstream que antes havia sido gravado pelo ídolo popular, até onde esta distinção funciona? A menção de Itamar não tornou Tim mais popular, mas referendou uma irmandade talvez não reconhecida até pelos dois. A força,  a letra e o punch de Não Vou Ficar os uniu.

Tim foi embora, pouco depois Itamar, Roberto taí, ainda nobre e com um patrimônio de importância e influência que o permite se esconder atrás das roupas azuis e dos dramas pessoais. Itamar declarou um dia que adorava o Roberto da Jovem Guarda, Tim bateu na porta de Roberto no auge da Jovem Guarda, os três se encontraram em Não Vou Ficar.

Um canção que atravessou décadas e uniu pontas soltas.

Nota: o camarada Fred Maia do MINC me lembra que o show do Itamar (o do vídeo) rolou na Sala Guiomar Novaes/Funarte SP.

Post originalmente publicado no: http://klaxonsbc.wordpress.com/2010/11/21/contra-o-imobilismo-tim-by-roberto-chegando-no-itamar/

Luis Nassif

Jornalista, com passagens por diversos meios impressos e digitais ao longo de mais de 50 anos de carreira, pelo qual recebeu diversos reconhecimentos (Prêmio Esso 1987, Prêmio Comunique-se, Destaque Cofecon, entre outros). Diretor e fundador do Jornal GGN.

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