4 de junho de 2026

A ação política organizada e destrutiva da mídia, por Marcus Ianoni

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Enviado por JM Ribeiro

Do Jornal do Brasil

Que mídia é essa?

por Marcus Ianoni

O que a grande mídia, porta-voz e holofote da coalizão conservadora oposta ao social-desenvolvimentismo, vem fazendo com o PT, Dilma e, recentemente, com Lula é uma ação política organizada e destrutiva de grande envergadura. Essa ação fornece base empírica para responder à pergunta do título nos seguintes termos: a mídia brasileira é altamente concentrada, não plural e partidarizada. Tal estrutura do sistema de mídia prejudica o desenvolvimento da democracia no que ela tem de mais essencial, a igualdade de condições.

Para mencionar apenas um exemplo, entre tantos outros que têm inundado quase que diariamente a radiodifusão e a imprensa desde as eleições de 2014, a ombudsman da Folha de S. Paulo, Vera Guimarães Martins, avaliou em sua coluna, no último dia 7, que o jornal não deu o merecido destaque à menção, no depoimento do delator Fernando Moura à Justiça Federal, na Operação Lava Jato, de que, ao menos desde 2002, Aécio Neves e o PSDB estariam envolvidos em um esquema de corrupção, na Furnas Centrais Elétricas, semelhante ao existente na Petrobras, tendo como mediador o diretor Dimas Toledo. Referindo-se ao rateio tucano da propina do esquema, Fernando Moura afirmou: “um terço São Paulo, um terço nacional e um terço Aécio”.

Formalmente, corporações de mídia são empresas, e não partidos políticos. No entanto, devido à natureza de sua atividade, a informação e a comunicação, que abrange a opinião e o noticiário políticos, essas empresas são peças-chave na comunicação política e na formação da opinião pública. Além disso, quando extrapolam o campo meramente opinativo e partem para a ação, tornam-se partidos políticos no sentido amplo do termo. Havendo oligopólio na estrutura de mídia, a posse desigual de recursos de informação, comunicação, opinião e ação desequilibra a competição político-democrática cotidiana e compromete a diversidade opinativa.

A concentração da propriedade da mídia tem sido uma das principais portas de entrada dos interesses econômicos na esfera política. O ideal neoliberal da primazia do mercado sobre o Estado, portanto, sobre a política, tem na ação da grande mídia concentrada, que desempenha papel estruturante na comunicação política, sua principal vanguarda material de efetivação. A macroeconomia neoliberal, para citar um exemplo especial, embora seja apenas uma visão entre outras, é propalada na grande mídia como se fosse o elixir da longa vida. Atacar a política, considerando-a unilateralmente como ineficiente e corrupta, é a principal plataforma dos ideólogos do partido neoliberal, agremiação sociopolítica na qual a grande mídia se insere como liderança, pelos recursos de poder que possui e mobiliza. 

No que diz respeito ao suposto combate à corrupção, tem sido mais do que visível a política de dois pesos e duas medidas da grande mídia, que vem se tornando, com intensidade crescente, desde as eleições presidenciais de 1989, passando pelas de 1994, 1998, 2002, 2006, 2010 e 2014, um partido antipetista. Além disso, esse partido conservador, vem, também nos períodos não eleitorais, cada vez mais revelando sua seletividade, conforme verifica-se na sua postura tolerante em relação a casos como a compra de votos parlamentares para a aprovação da emenda constitucional da reeleição, o Mensalão e “Tremsalão” tucanos, o aeroporto de Claudio etc. Por outro lado, não há notícia alguma de jornalismo investigativo, mesmo que de média envergadura, sobre o esquema de propina em Furnas, supramencionado.  

Para um lado, tolerância e favores, para o outro, intolerância e lei. Essa polarização ideológica é o principal propulsor da onda autoritária e até de comportamentos sociopolíticos protofascistas em setores do eleitorado, tendo à frente estratos sociais mais abastados, desde a conjuntura aberta pelos protestos de rua, em 2013. O andamento da cena política induz a imaginarmos o que acontecerá com a liberdade de expressão se a oposição neoliberal vencer em 2018.  Não haverá, caricaturalmente, um coeso bloco governamental-midiático, em um contexto no qual as empresas de comunicação, conformando uma estrutura proprietária sem pluralidade, e o Estado a elas associado, inclusive, mas não só, pelo generoso gasto público com publicidade, além de outras capturas, configurarão um regime político semi-totalitário, coveiro da efetiva diversidade de opinião? 

A Unesco (Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura) tem se preocupado com a liberdade de expressão, que, segundo ela, depende muito da existência “de um sistema midiático livre, plural, independente e diverso”.  O acesso à mídia é tão importante quanto a sua independência. No trabalho “Indicadores de desenvolvimento da mídia: marco para a avaliação do desenvolvimento dos meios de comunicação”, essa organização afirma: “Não é apenas a ausência de restrições na mídia que interessa, mas também saber em que medida todos os setores da sociedade, sobretudo os mais marginalizados, são capazes de ter acesso à mídia para obter informações e fazer com que suas vozes sejam ouvidas”. O trabalho sugere que o desenvolvimento da mídia deve ser avaliado com base em cinco categorias principais: 1) se o sistema regulatório é favorável à liberdade de expressão, ao pluralismo e à diversidade da mídia; 2) o nível de pluralidade e diversidade da mídia, com igualdade de condições no plano econômico e transparência da propriedade; 3) o papel da  mídia como uma plataforma para o discurso democrático; 4) a capacitação profissional e apoio às instituições que embasam a liberdade de expressão, o pluralismo e a diversidade; 5) a (in)suficiente capacidade infraestrutural para sustentar uma mídia independente e pluralista.

O sistema de comunicações no Brasil, altamente concentrado e carente de regulamentação das diretrizes elencadas na Constituição de 1988, não garante adequadamente as cinco características supramencionadas. Uma proposta alternativa foi formulada, a partir de 2012, por organizações democráticas da sociedade civil, resultando no “Projeto de Lei de Iniciativa Popular da Comunicação Social Eletrônica”, também denominado de Lei da Mídia Democrática. Trata-se de uma iniciativa popular legislativa, encaminhada por um movimento social que coleta assinaturas de adesão à campanha por uma nova regulamentação da comunicação social no Brasil. Nos seus princípios e objetivos, lê-se: “O novo marco regulatório deve garantir o direito à comunicação e a liberdade de expressão de todos os cidadãos e cidadãs, de forma que as diferentes ideias, opiniões e pontos de vista, e os diferentes grupos sociais, culturais, étnico-raciais e políticos possam se manifestar em igualdade de condições no espaço público midiático. Nesse sentido, ele deve reconhecer e afirmar o caráter público de toda a comunicação social e basear todos os processos regulatórios no interesse público”. 

Seguem-se 20 diretrizes fundamentais: arquitetura institucional democrática;  participação social; separação de infraestrutura e conteúdo; garantia de redes abertas e neutras;  universalização dos serviços essenciais; adoção de padrões abertos e interoperáveis e apoio à tecnologia nacional; regulamentação da complementaridade dos sistemas e fortalecimento do sistema público de comunicação; fortalecimento das rádios e TVs comunitárias; democracia, transparência e pluralidade nas outorgas; limite à concentração nas comunicações; proibição de outorgas para políticos;  garantia da produção e veiculação de conteúdo nacional e regional e estímulo à programação independente; promoção da diversidade étnico-racial, de gênero, de orientação sexual, de classes sociais e de crença; criação de mecanismos de responsabilização das mídias por violações de direitos humanos;  aprimoramento de mecanismos de proteção às crianças e aos adolescentes; estabelecimento de normas e códigos que objetivem a diversidade de pontos de vista e o tratamento equilibrado do conteúdo jornalístico; regulamentação da publicidade; definição de critérios legais e de mecanismos de transparência para a publicidade oficial; leitura e prática críticas para a mídia; e, por fim, acessibilidade comunicacional. Ou seja, há alternativas.

Nada é mais valioso para alcançar paz, desenvolvimento e justiça social na complexa sociedade moderna que a democracia. Esta, por sua vez, requer igualdade de condições, especialmente na esfera da liberdade de expressão, que depende de meios de concretização material, e não de mera formalização normativa. Uma ordem legal que enuncia a liberdade de expressão sem propiciar o acesso, em mínimas condições de igualdade, à mídia é tão retoricamente vazia nesse quesito fundamental quanto aquela que verbaliza o direito à vida sem garantir, na prática, recursos básicos ao saciamento da fome para milhões de pessoas excluídas ou mal incluídas no mercado. 

Se, ao invés de prevalecer a força livre da opinião pública, predominar, sobretudo em algumas conjunturas, como a atual, a pujança da opinião publicada pelo poder econômico midiático ou se, ao invés da liberdade de imprensa, prevalecer a liberdade de empresa dos oligopólios de comunicação, o imenso potencial dos atores sociais, na democracia brasileira, conduzirem a igualdade de condições a degraus mais elevados seguirá represado. A reforma da estrutura de mídia é um imperativo democrático. Assim como há várias possibilidades de política macroeconômica, há diversos meios de regulamentar a comunicação social, conforme mostram a experiência internacional e as investigações da Unesco. Não à toa, os mesmos atores que propagandeiam na esfera pública a ideologia de que só há uma política macroeconômica, a da austeridade fiscal e monetária, propalam também que só há uma estrutura de mídia, essa concentrada, partidarizada e excludente que existe no Brasil. 

* Marcus Ianoni é cientista político, professor do Departamento de Ciência Política da Universidade Federal Fluminense (UFF), pesquisador das relações entre Política e Economia e VisitingResearcheAssociate da Universidade de Oxford (Latin American Centre)

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  1. Lalo

    16 de fevereiro de 2016 12:50 pm

    A FARRA COM O NOSSO DINHEIRO

    Vídeo que deve ser visto e compartilhado por todos, independentemente de suas preferências político-partidárias. Saiba como vários ilustres parlamentares utilizam o NOSSO DINHEIRO para suas farras gastronômicas.

     

    Como os grandes órgãos da imprensa não divulgam essas informações, NÓS podemos e devemos fazer isso em nossas redes sociais.

     

    O deputado Rogério Peninha é o campeão de gastos com alimentação, mas é apenas um exemplo. Veja como ele atua assistindo https://www.youtube.com/watch?v=oSgOSXU-hRM

  2. SERGIO GOVEA

    16 de fevereiro de 2016 1:01 pm

    Onde está esse tal “marco regulatório” ?

    http://observatoriodaimprensa.com.br/jornal-de-debates/dezesseis-anos-tres-decretos-e-nada-muda/

     

    Isso apenas me dá mais certeza de que a grande campanha seja pela conscientização do voto ao Parlamento.

    As grandes questões nacionais vêm sendo abatidas ( mortas ) dentro do Parlamento.

    E o Brasil continua com o jeitão de sempre.

    E nós só podemos agir de quatro em quatro anos. A vida passa… as gerações passam e o Parlamento segue a sua saga de impedir o  Brasil para todos.

    Sem uma ostensiva campanha na blogosfera ( alimentando as tais redes ) pela conscientização  maciça do voto ao Parlamento, a cidadania continuará cedendo espaço vital à possibilidade de surgirem ataques a qualquer momento.

    Ataques esses sempre impulsionados pelo canhão midiático oligopolizado, que todos nós temos que engolir em seco todos os dias.

    A atividade parlamentar tem sim que ser insistentemente e didaticamente esmiuçada à população.

    Os blogs são  sim muito visitados. Se a tal grande mídia faz campanha, nós também temos que fazer.

    Temos que compensar as nossas deficiências, atacando pontos realmente vitais.

    O voto ao Parlamento é vital para que o Brasil deixe de ser um tímido país Gilmoro , para ser uma potência social, econômica e tecnológica. O seu destino natural.

    Deverá haver alguém ( e certamente que há ) com a habilidade redacional e com o conhecimento que eu não tenho, para mostrar, à população, a vital importância da atividade do Congresso Nacional.

    As comissões, as votaçãoes, os projetos e todo o poder parlamentar, que a grande maioria da população ainda imagina que está apenas com a Presidência da República.

    O que mais se vê são pessoas achando que Dilma não  faz nada. O que não é uma verdade “absolutamente absoluta”…

  3. altamiro souza

    16 de fevereiro de 2016 1:03 pm

    ótimo artgio,
    mas precisamos

    ótimo artgio,

    mas precisamos agir, uma vez que de estudos e de textos sobre o assunto há centenas por aí…

    a questão então como bem disse o articulsia é equilibrar o acesso à informação..

    pois o probema é que há liberdade de empresa e um nefasto oligopólio da grande mídia….

    esse oligopólio precisa ser desconstruiído ou, em contraposição, que seja criado

    um sistema que possbilite a liberdade e as condições materiais para

    que a população, movimentos sociais, sindicais,  expressem o seu pensamento tb…

    uma vez que esse oligopólio só quer  destruí-los…

     

  4. Salvador Passos

    16 de fevereiro de 2016 2:46 pm

    Globo censura dois parágrafos de artigo de Stiglitz
    Globo censura dois parágrafos de artigo de Stiglitz. Seguem os parágrafos cortados pelo Globo:

    “There are other policies that hold out the promise of restoring sustainable and inclusive growth. These begin with rewriting the rules of the market economy to ensure greater equality, more long-term thinking, and reining in the financial market with effective regulation and appropriate incentive structures.
    But large increases in public investment in infrastructure, education, and technology will also be needed. These will have to be financed, at least in part, by the imposition of environmental taxes, including carbon taxes, and taxes on the monopoly and other rents that have become pervasive in the market economy – and contribute enormously to inequality and slow growth. ” Uma tradução rasteira seria: “Existem outras políticas que poderiam restaurar um crescimento sustentável e inclusivo. Para começar, é preciso reescrever as regras da economia de mercado para assegurar maior igualdade, buscar mais planejamento de longo prazo, e colocar rédeas no mercado financeiro, com regulação efetiva e estruturas adequadas de incentivo. Mas também será necessário um grande aumento do investimento público em infra-estrutura, educação e tecnologia. Este terá de ser financiado, ao menos em parte, pela criação de impostos ambientais — inclusive sobre a emissão de carbono — e de impostos sobre o monopólio e outras rendas não ligadas à produção — que se disseminaram na economia de mercado e contribuem enormemente com a desigualdade e o crescimento fraco.” Ou seja, a censura ideológica do globo contra políticas econômicas alternativas às políticas ortodoxas de ajuste fiscal. Os parágrafos cortados falam de políticas de distribuição de renda, aumento da intervenção estatal sobre os mercados e sobre impostos sobre rendas de monopólio que se tornaram danosos para a economia de mercado. O que está paralisando a economia mundial O que está paralisando a economia mundialNos EUA, o afrouxamento monetário não promoveu um salto no consumo View on oglobo.globo.comPreview by Yahoo What’s Holding Back the World Economy? What’s Holding Back the World Economy?The dominant policies pursued by developed countries during the post-crisis period – fiscal retrenchment and quantitative easing – have offered little support for h… View on project-syndica…Preview by Yahoo

  5. agincourt

    16 de fevereiro de 2016 3:43 pm

    lulopetiscos

    “A reforma da estrutura de mídia é um imperativo democrático.”

    Ianoni, vai contar essa sua grande descoberta para os lulopetistas, que estão há 13 anos no poder e, não obstante as mil e uma alianças com deuses e diabos – ou melhor: devido a essas mesmas mil alianças -, não investiu nessa reforma.

    Ianoni, vamos falar sério: Lula, o dono e senhor do PT, achou que já era da turma e se deu mal.

    Malandro, agora aguenta.

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