4 de junho de 2026

Os médicos e os laboratórios farmacêuticos

Da Folha

Quase metade dos médicos receita o que fábrica indica

Dados são de pesquisa inédita do Conselho Regional de Medicina de SP

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Quatro em cada cinco médicos recebem visita de fabricantes; desses, 48% indicam remédios sugeridos pela indústria

CLÁUDIA COLLUCCI
DE SÃO PAULO

Quase metade (48%) dos médicos paulistas que recebem visitas de propagandistas de laboratórios prescreve medicamentos sugeridos pelos fabricantes.

Na área de equipamentos médico-hospitalares, a eficácia da visita é ainda maior: 71% dos profissionais da saúde acatam a recomendação da indústria.

Os dados, obtidos com exclusividade pela Folha, vêm de uma pesquisa inédita do Cremesp (Conselho Regional de Medicina do Estado de SP), que avaliou o comportamento médico perante as indústrias de remédios, órteses, próteses e equipamentos médico-hospitalares.

Feito pelo Datafolha, o levantamento envolveu 600 médicos de várias especialidades, que representam o universo de 100 mil profissionais que atuam no Estado.

Do total, 80% deles recebem visitas dos propagandistas de medicamentos -em média, oito por mês.

A pesquisa revela que 93% dos médicos afirmam ter recebido, nos últimos 12 meses, produtos, benefícios ou pagamento da indústria em valores até R$ 500.

Outros 37% declaram que ganharam presentes de maior valor, desde cursos a viagens para congressos internacionais.

RELAÇÃO CONTAMINADA

Para o Cremesp, um terço dos médicos mantém uma “relação contaminada com a indústria farmacêutica e de equipamentos, que ultrapassa os limites éticos”.

“Para boa parte [dos médicos], a única forma de atualização é a propaganda de laboratório. E com ela vem os presentes, os brindes. Isso tomou uma dimensão maior, mais promíscua, quando as receitas passaram a ser monitoradas”, diz Luiz Alberto Bacheschi, presidente do Cremesp.

Em 2005, a Folha revelou que, em troca de brindes ou dinheiro, farmácias e drogarias brasileiras auxiliavam a indústria de remédios a vigiar as receitas prescritas por médicos.

Com acesso a cópias do receituário, representantes dos laboratórios pressionavam os profissionais a indicar seus produtos e os recompensavam por isso.

A prática não é ilegal, mas é considerada antiética. Afinal, quem pode pagar essa conta é o paciente. “Na troca de favores, o médico pode receitar um medicamento que tenha a mesma eficácia clínica do que o concorrente, mas que custa mais caro”, explica o cardiologista Bráulio Luna Filho, coordenador da pesquisa do Cremesp.

APOIO

A maioria dos médicos (62%) avalia de forma positiva a relação com a indústria.

Para 73% deles, os congressos científicos não se viabilizariam sem apoio da indústria de medicamentos e de equipamentos.

Luna Filho pondera que, com a internet, o acesso a informações médicas está universalizado. “Essa conversa de que médico tem que ir para congresso no exterior para se atualizar é balela. Ele vai é para fazer turismo.”

Existem várias normas -inclusive um artigo no novo Código de Ética Médica, uma resolução da Anvisa e um “código de condutas” da associação das indústrias- que tentam evitar o conflito de interesses na relação entre médicos e laboratórios.

“O problema é que não existe um controle rigoroso de nenhuma das partes”, diz Volnei Garrafa, professor de bioética da UnB.

Luis Nassif

Jornalista, com passagens por diversos meios impressos e digitais ao longo de mais de 50 anos de carreira, pelo qual recebeu diversos reconhecimentos (Prêmio Esso 1987, Prêmio Comunique-se, Destaque Cofecon, entre outros). Diretor e fundador do Jornal GGN.

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