3 de junho de 2026

Como se livrar das suas tralhas

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A casa nova, o Templo Odsal Ling.

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Estou no meio de uma mudança. Não só de apartamento, mas, de certa forma, de estilo de vida. Decidi sair de São Paulo. Troquei um apartamento de 3 quartos nos Jardins por um de 3,5 por 3 metros num templo budista que freqüento há mais de 3 anos.

Não vou virar monge, nem iogue numa caverna. Nem mesmo estou em busca de “paz interior” (um conceito bastante ilusório e um tanto covarde). A bagunça e a calmaria se alternam na vida desde que a conheço, é sua natureza, por que viver com medo disso? Apenas tive a intuição de que era a hora de virar mais uma mesa.

Continuarei trabalhando e postando, claro. Na verdade, eu nem precisaria contar essa história. Ninguém perceberia a mudança, acho. Acontece que blog é isso mesmo, uma conversa. Então resolvi dividir com vocês como fiz para me livrar de todo material que acumulei nos últimos anos. Todos os discos, praticamente todos os livros, a TV, DVD e até mesmo alguns instrumentos musicais.

Não cometi nenhum ato de desapego. Pelo contrário, as decisões foram mais por praticidade. Pensei: afinal, do que exatamente eu preciso para viver? O que faz sentido? O que é tralha e acúmulo desnecessário? O que está guardado apenas por insegurança, medo e esperanças inúteis? Das coisas que possuo, o que poderia ser mais útil nas mãos de outras pessoas, em vez de mofar nos meus armários, à espera de uma atenção que nunca vem? Como faço para ter um armário sustentável?

Tudo foi bastante realista. Ok, desconte uns de 10% de hiponguismo, das velhas leituras beatniks. De resto, foi tudo bem racional. Por exemplo: pra que eu quero um DVD se o computador dá conta? Pra que uma TV de 29 polegadas num quarto pequeno? Para ficar cego? Para que TV à cabo, se há o Joost, se só assisto ao Cranky Geeks e filmes? E por aí vai. “Unpimp my ride, unpimp my mind”.

A única coisa que me impedia de doar tudo era o conhecido “e se?” E se eu quiser reler isso? E se quiser aquilo? “E se” nada. Não fiz até agora, não devo fazer nos próximos anos. Se precisar, praticamente tudo o que doei está disponível na internet.

Depois que me dei conta do ridículo da atitude “armazenadora”, desenvolvi um certo prazer em separar as pilhas da reciclagem, da doação, faturei uns trocados vendendo certos artigos e percebi uma vastidão de caminhos ainda por abrir. Fora que toda mudança é um transtorno. Quanto mais objetos você tem que empacotar e carregar, mais fácil fica desenvolver o desapego. Sobretudo se suas costas doem no final do dia.

Enfim. A dica é: corte rápidamente a mentalidade “e se”. Ela não significa precaução, mas, geralmente, perda de tempo. “Mas eu não consigo, admiro sua coragem”. Coragem? Eu apenas tentei antes de desistir.

Quanto à minha ida ao Templo Odsal Ling, aguarde os próximos capítulos do seriado. O que não vai faltar por lá é trabalho para inspirar dicas e matérias.

Luis Nassif

Jornalista, com passagens por diversos meios impressos e digitais ao longo de mais de 50 anos de carreira, pelo qual recebeu diversos reconhecimentos (Prêmio Esso 1987, Prêmio Comunique-se, Destaque Cofecon, entre outros). Diretor e fundador do Jornal GGN.

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