
Jornal GGN – Em seu artigo publicado no Estadão, o cientista político Marco Aurélio Nogueira argumenta que o cerco ao ex-presidente Luis Inácio Lula da Silva paralisa o Partido dos Trabalhadores e mostra a falta de análise política na própria política. Ele diz que é preciso separar as duas alas políticas do cerco ao ex-presidente, e também considerar o lado das investigações, instituições judiciárias e policiais, juízes, tribunais, advogados, delatores, políticos, empresários, servidores públicos e mídias, cada um funcionando dentro de certa lógica e podendo se deixar levar por interesses próprios. Leia mais abaixo:
Do Estadão
Cerco a Lula paralisa PT e mostra que falta análise política na política
MARCO AURÉLIO NOGUEIRA
O cerco a Lula vem sendo articulado há anos. Parte do que o impulsiona se deve ao desejo de combater a liderança política do ex-presidente e de usar seus eventuais maus passos para desgastar os governos petistas e embolar o meio de campo. É o lado imediatamente político da operação, ativado por muitos daqueles que têm diferenças com ele, com o PT ou com o governo Dilma.
Neste lado político, é preciso diferenciar claramente duas alas.
Uma é a dos democratas republicanos, a ala que tem maior peso. Querem que a dimensão pública prevaleça sobre os privatismos, que se apurem e se punam os crimes de corrupção, doa a quem doer, que se interrompa a reprodução interminável de “esquemas” e falcatruas, que se criem condições para um debate político de qualidade, no qual o pluralismo esteja presente, os direitos sejam respeitados e a liberdade vigore de modo pleno. São críticos do governo Dilma e dos caminhos seguidos pelo PT, mas procuram fazer uma oposição de caráter programático. Muitos de seus integrantes estão no campo da esquerda democrática.
A segunda ala é a dos que são contra o PT a qualquer custo. Agrega uma variedade de pessoas que se unem basicamente pelo desamor que nutrem pelo governo Dilma. Estão aqui muitos dos que foram às ruas pedir o impeachment, que bateram panelas para protestar contra discursos presidenciais, que não gostam dos petistas. Estão aqui os ressentidos de classe média, aquele montão de gente sem muita coisa na cabeça e que ainda acredita que a esquerda come criancinha e nenhum político presta. E, finalmente, incluem-se também os pequenos grupos histéricos de direita, defensores ingênuos da ditadura, cheios de preconceitos, que atacam Lula mais por seus méritos que por seus defeitos.
Mas há o outro lado, o das investigações, que também precisa ser bem considerado.
Nele comparecem instituições judiciárias e policiais, juízes, tribunais, advogados, delatores, políticos, empresários, servidores públicos e mídias. Cada pedaço destes funciona a partir de certa lógica e pode se deixar levar por interesses próprios. Quanto mais pedaços, mais complexidade e mais dificuldade para a compreensão do quadro e a descoberta do que é verdade e do que é boato ou exagero. A divulgação frenética e incessante de fatos e denúncias ocupa posição destacada aqui: faz com que a temperatura suba e anima um movimento de opinião majoritariamente desfavorável aos suspeitos ou acusados. Como, entre nós, a situação está polarizada ao extremo, toda denúncia feita contra alguém gera uma reação contrária de igual magnitude. Se Lula é suspeito de ter um apartamento no Guarujá, por que não se fala também do apartamento que FHC tem em Paris? Os problemas do PT com empreiteiras e imóveis corresponderiam aos problemas do PSDB com merendas e cooperativas. Clinch. Só que não: os dois pugilistas continuam a se bater e ferir, espalhando socos e sangue para todos os lados. Impulsiona-se assim a polarização, com a qual se imagina zerar o jogo. Posso ter feito, mas quem não o fez?
Entre os que frequentam o ambiente da investigação, existem, claro, pessoas querendo tirar a pele de Lula, gente que quer provocar o “derretimento” de Lula para prejudicar o PT, por exemplo, como gosta de falar Ruy Falcão. Mas este é um ambiente povoado por leis, interpretações jurisprudenciais e ritos, que jogam um peso importantíssimo. Isso sem esquecer que é neste terreno que ganha fôlego o “jornalismo investigativo”, seja na sua versão nobre e digna, seja na suas variantes mais oportunistas, dedicadas a vender jornais, a fazer média com os leitores ou simplesmente a “causar”.
Tudo isso forma um bolo enorme, que causa impacto na opinião pública e ajuda a formar opiniões. Em boa medida, cria um clima favorável a um julgamento por antecipação, que retira dos suspeitos o direito de defesa. Muitas vezes, os grandes jornais diários, os sites e blogs (governistas ou oposicionistas, tanto faz) disputam entre si para saber quem faz a “melhor revelação”, dá o melhor tratamento aos fatos e documentos revelados, faz a melhor defesa dos suspeitos ou apresenta as provas mais “irrefutáveis”.
Abre-se aqui um mundo de questões tradicionais do jornalismo, referentes à ética, à oportunidade, às relações entre reportagem e opinião, entre repórteres e editores. O modo como se noticia uma reportagem nem sempre é completamente fiel ao que mostra a reportagem. Uma manchete significa muita coisa. Nas redes, sobretudo. Seria a hora do “jornalismo político” mostrar sua melhor face: analisar e explicar o que está por trás e embaixo das denúncias, das suspeitas, dos “vazamentos seletivos”, das delações premiadas, dos fatos que inundam o noticiário, contribuindo assim para que o leitor entenda quem ganha e quem perde com as informações divulgadas, contextualizando-as rigorosamente.
Porém, se a política está em crise, por que o “jornalismo político” permaneceria incólume? Ele também é afetado pelo clima geral, também se polariza e perde capacidade crítica, analítica. Termina por não funcionar como um fator de resistência às tendências sociais e culturais que hostilizam e depreciam a política, reduzindo-a a um bate-boca entre culpados e inocentes. Nesta trilha, passa a tratar política como sinônimo de polícia. Em alguns momentos, os jornais têm se convertido em uma sucessão de páginas inteiramente dedicadas à revelação de irregularidades, crimes e delações envolvendo políticos. A análise política dos fatos tem mais dificuldades para se afirmar.
Tudo o que é feito de ilícito ou ilegal por servidores públicos, políticos e governantes deve ser investigado minuciosamente, divulgado e debatido amplamente. Os jornais precisam nos informar a respeito de tudo o que rola nas esferas policiais e judiciárias envolvendo políticos. Os culpados devem ser punidos, presos e condenados. Não há como ser condescendente neste ponto. A liberdade de imprensa cumpre aqui sua maior função. Quanto mais plural e democrática for a imprensa, mais chances os cidadãos terão de encontrar nos jornais uma fonte segura de informações e um recurso importante para formar a sua opinião política.
O jornalismo deve poder duvidar de tudo, e especialmente daquilo que diz o poder político. Ir atrás dos fatos, virá-los de ponta-cabeça, descobrir o que os produz, dando igual tratamento aos envolvidos. Do mesmo modo, tem de duvidar da veracidade de uma “delação premiada” ou de um documento repassado ao jornalista por uma fonte incógnita do Judiciário. Não pode simplesmente converter uma denúncia ou suspeita em notícia e fato inconteste. É aí que entra a análise política.
E é precisamente de análise política que mais necessitamos hoje. Não só na imprensa, mas no Estado e na sociedade. Estamos carecendo de ações intelectuais que descubram a unidade dos contrários, revelem o quadro geral que dão sentido aos fatos, em suma, totalizem e unifiquem. Falta isso até mesmo na política, ou sobretudo nela.
Quando Lula e seus assessores dizem que o ex-presidente está sendo “caçado” pelos inconformados e intolerantes, pelos “golpistas” que desejam “derretê-lo” para prejudicar o PT, é sobretudo ao universo dos investigadores que se referem. Ao menos em parte, têm razão. A temporada de “caça a Lula” está de fato aberta desde ao menos o momento em que ele conseguiu eleger Dilma, em 2010, contra todas as expectativas.
O problema é que esta dose de razão não consegue se traduzir em ação política frutífera. Os dirigentes partidários e os assessores de Lula limitam-se a desmentir os acusadores e a denunciar o que seria uma “orquestração” da mídia monopolizada. Por mais que fatos, documentos, declarações, testemunhas e evidências se acumulem, continuam a dizer que tudo não passa de uma campanha contra o PT, interessada em enfraquecer Lula como candidato presidencial em 2018. Destacam a histeria antipetista para escapar das críticas republicanas. Vão assim fazendo com que as suspeitas e denúncias cresçam e circulem ainda mais, estimulando-as a se converterem em senso comum.
Falta análise política da situação política. É uma falta que se desdobra numa espécie de “hiperpolitização”: põe-se política em tudo, menos no que é mais importante, que seria a apresentação, aos cidadãos, de propostas e caminhos para melhorar a vida coletiva. O tiroteio entre os dois polos — governistas e oposicionistas — bloqueia a inteligência política, fomentando uma dinâmica de destruição recíproca que mina o sistema político e a democracia.
Lula é manchete há muito tempo. Tudo o que se referir a ele será notícia, fresca ou requentada. É o preço da fama e do sucesso. O que impressiona é que ele nada faça para desmontar as acusações que lhe são dirigidas ou para diluir as suspeitas. É uma espécie de autodestruição que, no entanto, em se tratando de Lula, talvez faça parte de algum cálculo político. É possível que a ideia seja que Lula, ao ser acuado e atacado implacavelmente, terá mais facilidade de passar por “vítima dos poderosos” e reagirá com maior determinação, como uma fênix.
O desgaste não é só de Lula. Contamina todo o PT e o governo Dilma. Há muitos petistas julgados e presos, uma nuvem carregada de suspeição e desconfiança pesa sobre a cabeça do partido. Quanto mais se fuça, mais se descobre e mais acusações aparecem. Com a Triplo X, por exemplo, chegou-se ao Sindicato dos Bancários de São Paulo e à cooperativa Bancoop, presidida então por João Vaccari Neto. Um vasto conjunto de “esquemas” e redes de relacionamentos políticos está sendo revelado e desbaratado, comprometendo muita gente, com prejuízos enormes para a imagem do PT e, por extensão, da esquerda. Não se trata de espuma, mas de acusações graves, que podem colocar Lula no centro de uma complexa malha de ilícitos, corroendo todo seu capital político.
O melhor seria reconhecer o que todos falam, sabem e veem. Lula é hoje um homem rico. Depois que saiu da Presidência, tornou-se palestrante, disputado a peso de ouro por empresas e auditórios ao redor do mundo. Tem sabido cobrar por este trabalho. Passou a ter relações poderosas na política e no mundo dos negócios. Deve ter usado parte destes rendimentos para impulsionar e manter a empresa LILS, que o converteu em pessoa jurídica. Mas o montante arrecadado também serviu para enriquecê-lo e ajudá-lo a melhorar o patrimônio da família. Nada de errado nisso. É a evolução natural de uma pessoa que viveu uma vida inteira de trabalho e soube ganhar algum dinheiro.
Se não há nada mais do que isso — ou seja, se não há comissões, transações escusas, propinas, vantagens pessoais indevidas, uso abusivo de empresas públicas para fins privados, formação de patrimônio incompatível com os rendimentos declarados, etc. –, não haveria o que temer. Bastaria abrir os arquivos e mostrar ao público os documentos que comprovam a idoneidade de Lula (ou de qualquer outro cidadão) e demonstram que a evolução de seu patrimônio está dentro das regras do jogo. Foi o que tentou fazer o Instituo Lula neste domingo, dia 31 de janeiro, com a nota “Os documentos do Guarujá: desmontando a farsa“. Além de acusar os adversários políticos e parte da imprensa por estarem a “criar um escândalo a partir de invencionices”, a nota apresenta documentos que provariam que o ex-presidente não é proprietário de nenhum apartamento triplex na cidade de Guarujá, no litoral de São Paulo.
É uma resposta mais compatível com a gravidade da situação e a dimensão política do próprio Lula. Talvez não seja suficiente, mas pode ajudar a que se passe um pano nas suspeitas que o envolvem e atingem.
O que todos — políticos, militantes, analistas, procuradores, advogados, jornalistas, cidadãos — querem saber não é algo impossível de ser oferecido. É uma questão simples: além de financiar o projeto político do PT, as operações com empreiteiras, lobistas, “laranjas” e empresas também serviram para enriquecer indevidamente alguns dos operadores?
Diante de tantas suspeitas, do rumor que não cessa, da circulação doentia de tantos fatos, factóides e boatos, do desgaste enorme a que estão sendo submetidos, é surpreendente que Lula e o PT não se dediquem intensamente a desmanchar essa nuvem que compromete a imagem positiva que o petismo tem na história brasileira.
Vladimir
1 de fevereiro de 2016 12:18 pmO presidente Lula foi o maior
O presidente Lula foi o maior presidente que este país já teve e é,ainda hoje,um dos maiores líderes do mundo,isto permitiu e permite que ele chame para si toda a artilharia dos golpistas. Sabe que precisarão de forjar mais do que o domínio de fato para abalar sua liderança.
zé lima
1 de fevereiro de 2016 12:31 pmMas, porque essa sanha…
Mas, porque essa sanha esclarecedora está direcionada apenas para Lula e o PT?
Ninguem, inclusive, você, cobra essa transparência do PSDB, dos governos Alckmin, (de tantos escândalos acobertados pela imprensa venal, parcial, conivente). E o que dizer sobre os podres e corruptos governos do Aécio Neves, dos governos Beto Richa, das falcatruas do Cássio Cunha Lima e quejandos, pelo Brasil afora. E, por fim, porque a blindagem invulnerável adotada ao sacrossanto período dos governos do FHC, com toda a roubalheira patrocinada durante a famosa privataria tucana? De repente essa nova “santa inquisição” foi instaurada a partir do ano de 2003. Somente e só!
Em que pé encontra-se as denúncias de que o Aécio recebia, regularmente, vultosos valores referentes a propina pagas por empreiteiras. Ele não teria que ser investigado e, também, esclarecer, detalhadamente, as acusções que lhe estão sendo imputadas? Cadê o paladino Sergio Moro e, seus asseclas?
Chega a ser uma desfaçatez imaginar que o Sérgio Moro e, seus acólitos, composta por procuradores, delegadas e, por órgãos de imprensa, a exemplo da corrupta Globo, além de outros menos cotados mas, com alto poder para achincalhar a honra dos que lhe são antipáticos, querem combater a corrupção! O que querem é impingir punições de qualquer forma e, sob qualquer pretexto aos “corruptos” do PT, sejam eles reais ou fictícios!
altamiro souza
1 de fevereiro de 2016 12:55 pmo articulista
o articulista analisou razoavelmente mas esqueceu de dizer
que o jornal onde saiu seu artigo é um dos principais responsáveis
pelo caos político deste páís, póis costuma inventar, criar falácias, infamias, blasfemias…..
quer dizer, o artigo até que é bom, mas o jornal que o veicula o desmerece.
deveria começar pela grande mídia. pelo próprio jornal que
publicou esse artigo, uma mujdança, que não virá, pois todos sabem de seus inrteresses espúrios…
lula é um dos maiores estadista deste país, todos sabem do prpjeto
que defende, é inevitável que projetos contrários como
os da grande mídia golpísta queiram derrfocá-lo..
não é questão de análise política, pois lula sempre defendeu
a política com uma das únicas saídas para qualquer problema…
o problema é que a direita e a grande mídia como o estadão e seus conluios
abomináveis querem o golpísmo, o fim da democracia, o estado de excedção,
a caça às bruxas, a inquisição, o maccartismo. onde obviamente não há
comndições para pensar em análise politica comsistente, convincente que dê jeito.
Luiza
1 de fevereiro de 2016 1:24 pmTinha que ser no Estadão.
Concordo, falta análise política na política, e a análise do autor do artigo é proporcional ao republicanismo petista.
Na profundidade há bem mais do que os olhos enxergam. Analisar: verbo transitivo direto: investigar, examinar minuciosamente; esquadrinhar, dissecar.
Juliano Santos
1 de fevereiro de 2016 3:04 pm“Por mais que fatos,
“Por mais que fatos, documentos, declarações, testemunhas e evidências se acumulem,”
Parei aqui. Que fatos, documentos etc se acumalam? O fato de ter desistido de comprar um apê em Guarajá? Declarações da “testumanha”, o tio da portaria de que “dizem que Lula é o dono”? Quais evidências? O bote de lata que dona Mariza comprou com nota fiscal por 4 mil? Que Lula frequenta um sítio, o que ele não nega, que é do sócio do filho, e que a Odebretch ou a OAS (não chegam a um acordo) reformaram?
Gostaria de saber como o autor sugere que se faça “debate político” emcima disso? Além de lançar notas rebatendo, inclusive com documentos, todas as denúncias, o unico “debate político” possível é esse mesmo.
Dizer que essas denúncias fracas, factóides e mentiras são uma perseguição ao maior líder política da esquerda para inviabilizá-lo com candidato em 2018. Porque é disso que se trata. O que não é nenhuma novidade. Desde da persguição ao Getúlio, essa é a unica maneira que a direita udenista instalada no pig sabe fazer política.
PS: Se a oposição afirmar que a política dos “campeões nacionais” criada por Lula induz a carteis que geram corrupção, ai sim, pode-se “debater política”
João José de Oliveira Negrão
2 de fevereiro de 2016 1:53 pmO artigo é interessante,
O artigo é interessante, especialmente quando trata da (in)ação do PT na crise política. Concordo que é preciso “diferenciar claramente as alas”. Nogueira colocou no texto o que julga serem as caracerísticas delas. Mas – se queremos clareza – falta identificar, ainda que parcialmente – seus integrantes: quem são os “democratas republicanos [que] estão no campo da esquerda democrática”? Quem são os “ressentidos” e os “grupos histéricos de Direita”? Quais os “interesses próprios” das distintas parcelas das investigações, do MP, da PF e do próprio jornalismo? No jornalismo, mesmo no seu gênero opinativo, informação clara e completa é essencial.