4 de junho de 2026

O que Marx escreveria no quinto volume de O Capital

Custou a Marx quatro volumes de “O Capital” para demonstrar que o fundamento da acumulação de lucro pelo capitalista estava na apropriação da mais valia, isto é, na apropriação da diferença entre o valor de reprodução da força de trabalho e o valor dos bens que ela produz. Isso mudou. Se estivesse vivo, Marx prestaria mais atenção no que acontece hoje fora da fábrica, ou seja, nas relações monetárias e fiscais que transferem renda direta dos mais pobres para os muito ricos, seja no boom, seja especialmente nos momentos de crise econômica, pela via da disputa do orçamento público.

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Na fábrica, exceto situações extremas como a da China e de outros países asiáticos onde temos ainda um processo de acumulação primitiva baseado na super-exploração do trabalho, o valor da força de trabalho vai-se aproximando cada vez mais do valor que ela produz em face da concorrência de preços inter-capitalista. As grandes corporações não negam generosos aumentos salariais. Apenas os transferem, coordenadamente, aos preços. É na disputa da mais-valia extra fábrica – ou seja, no orçamento público – que se concentram os grandes ganhos empresariais. Isso, na crise, fica explícito.

Por que os conservadores europeus, chefiados por Merkel, advogam políticas monetárias expansivas e políticas fiscais restritivas? Pensem bem. Quem toma dinheiro emprestado em bancos, a taxas reduzidíssimas, senão os que têm garantias patrimoniais para oferecer? E quem tem garantias, exceto os ricos? Assim, nas crises financeiras como a atual, a política monetária expansiva, em nome da facilitação do crédito, não passa de um artifício para facilitar a apropriação direta da mais-valia social pelos mais ricos – primeiro, os bancos que têm acesso às taxas básicas, depois, a sua clientela que se beneficia de taxas igualmente baixas.

Na prática e na teoria, conhece-se a falácia da política monetária expansiva para combater a recessão desde, pelo menos, a Grande Depressão dos anos 30. Ali se descobriu o fenômeno do “empoçamento” do dinheiro nos caixas dos bancos e a metáfora que o descreve: política monetária é como uma pedra amarrada por barbante; você pode puxar a pedra com o barbante, produzindo recessão, mas não pode empurrá-la para produzir uma retomada. É que o dinheiro fica empoçado no caixa dos bancos e das grandes empresas justamente por falta de demanda agregada que justifique novos investimentos.

E que dizer da política fiscal? Em tese, a política fiscal pode ser um campo de transferência de renda dos mais ricos para os mais pobres. Em países de perfil social-democrata, como os europeus, isso produziu uma civilização avançada, com o estado atuando no sentido de transferir renda para o financiamento de serviços públicos universais como saúde, educação e previdência, essenciais para o bem estar coletivo e a estabilidade social e política. Nesse caso, a mais-valia social produzida no nível das empresas, conjuntamente por trabalhadores e capitalistas, é em parte apropriada pelo Estado e transferida na forma de benefícios aos menos privilegiados.

A pressão conservadora em favor de políticas fiscais restritivas nada mais é que uma reação aos processos de transferência de renda de perfil social progressista. Entretanto, assim como a política monetária tem sido um fracasso – na debilitada economia americana as grandes corporações têm parados nos seus caixas, portanto sem investir, mais de 2 trilhões de dólares -, a política fiscal tem sido um tiro no pé: a Grécia, a que se impôs um programa de austeridade fiscal draconiano, registrou uma contração no PIB de 6,5% no primeiro trimestre, e uma contração da receita pública de 25%. Isto é, só por esses números vê-se que o plano de recuperação acertado com a troika – FMI, BCE e Comissão Européia – já foi para o espaço porque a dívida pública em relação ao PIB cresceu, em lugar de diminuir, embora não tenha havido um euro de gasto público deficitário, mas sim cortes profundos no orçamento.

O quinto livro de “O Capital” revelaria que o fator responsável pela apropriação parcial da mais-valia social pelos países social-democratas reais foram as fortes pressões políticas resultantes do lento processo de expansão dos direitos de cidadania e da democracia no mundo. Por isso, para reverter a tendência, é necessário quebrar a espinha da democracia. Na Itália e na Grécia puseram tecnocratas no poder. Na Alemanha e na Inglaterra, políticos ignorantes de economia defendem o jogo da direita, mesmo com o risco de um futuro desastre eleitoral. Isso nos anima. Se a democracia sobreviver na Europa, uma nova direção política, da qual Hollande, da França, é um precursor, poderá retirar o continente das cordas com uma nova combinação de políticas monetária e fiscal, restaurando a combalida social-democracia européia.

 

P.S. Não se impressione com os 100 bilhões europeus para o resgate dos bancos espanhóis. Nem um único euro será usado para financiar investimentos. Ou seja, mesmo que a taxa de juros baixe para a Espanha, isso em nada contribuirá para uma real recuperação da economia e queda do desemprego de 25%.

 

*Economista, professor de Economia Internacional da UEPB, co-autor, junto com Francisco Antonio Doria, do recém-lançado “O Universo Neoliberal em Desencanto”, pela Civilização Brasileira. Esta coluna é publicada também no site Rumos do Brasil e, às terças, no jornal carioca Monitor Mercantil.

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