3 de julho de 2026

O que virá depois do ano da autoflagelação, por Tereza Cruvinel

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Do Brasil 247

O que virá depois do ano da autoflagelação?

Tereza Cruvinel

Tenho lido definições diversas para este ano atípico que acaba de acabar, inclusive a de que ele não é (foi) um ano em si mas, na política e no poder, a continuação de 2014. Sendo ou não sendo, todos querem que ele acabe, na vida pública e na vida pessoal também. Na primeira, foi tormentoso. Na vida de cada um, foi um ano de vacas magras depois do tempo das espigas gordas. E gordas não só para os pobres mas também para os ricos.

No que toca à vida política, econômica e social, a representação do país em sua superestrutura, foi meu amigo argentino Guido Nejamskis, responsável pelo 247 em espanhol, que me lançou a faísca. “Aqui, vendo de longe, parece-me que o Brasil é um país em momento de autoflagelação”.

Fiquei com isso na cabeça e aderi a esta percepção. Nunca todos se esforçaram tanto para chicotear o próprio país. O governo cometendo erros políticos e econômicos seguidos, às voltas com uma espada de Dâmocles sobre a cabeça da presidente, um impeachment com DNA golpista, pela ausência do crime justificado. A oposição tomando os mais nefastos caminhos em busca de sua oportunidade de poder, rasgando (alguns) compromissos democráticos históricos. E quando a crise passar, ficará a nódoa. O mercado apostando alto na piora de tudo, os empresários céticos, os trabalhadores apáticos e, para completar, esta corrente de intolerância que vai tomando ares cada vez mais fascistas. O que houve com Chico Buarque foi o emblema disso. Não há limites para a agressividade destes que saíram do armário do conservantismo dispostos a revelar as posições obscuras que antes ocultavam. E a partir para cima dos que pensam diferente. Não gostam do PT, tudo bem. Mas não gostam dos pobres, não gostam da América Latina, não gostam das cotas raciais, detestam os programas sociais e não gostam do Brasil. Pudessem, não voltavam das viagens ao exterior.

A autoflagelação é o resultado desta mistura de elementos.

É como se tivéssemos combinado. Vamos todos trocar socos e pontapés este ano. Vamos também rasgar a lona do circo e quebrar o picadeiro. Vamos ver quem consegue dilapidar mais as grandes possibilidades que até bem pouco tempo faziam do Brasil um país admirado lá fora por sua capacidade de mudar, realizar e se reinventar. Estamos quase voltando a ser um “bananão”, como dizia Paulo Francis, em sua desilusão com a Pátria Amada de braços dados com a ditadura.

Se todos pensarmos em sair disso em 2016, quem sabe? Todos ganharemos. Já é certo que a ruptura insetitucional perdeu força. É incerto que a economia saia do atoleiro, e este é agora o maior desafio do Governo.

O que devíamos fazer, todos, era um compromisso pelo fim da autoflagelação. Que o governo continue governando, e governe melhor. Que a oposição continue “opositando”, como brincada Ulysses, mas o faça com responsabilidade. E que nós, cidadãos, cada qual em sua trincheiro, façamos a nossa parte, guardemos nossos chicotinhos e tratemos de colaborar, cada um como pode. Certo é que 2016 não pode ser a continuação de 2015.

E para não terminar com política e pseudo-sociologia, encerremos com poesia. Um poema sobre a passagem do tempo, de Sophia Mello Breyner.

 

Krónos

    Não creias, Lídia que nenhum estio
                                Por nós perdido possa regressar
                                            Oferecendo a flor
                                            Que adiámos colher.

                                Cada dia te é dado uma só vez
                                E no redondo círculo da noite
                                            Não existe piedade
                                            Para aquele que hesita.

                                Mais tarde será tarde e já é tarde.
                                O tempo apaga tudo menos esse
                                            Longo indelével rasto
                                            Que o não vivido deixa.

                                Não creias na demora em que te medes.
                                Jamais se detém Kronos cujo passo
                                            Vai sempre mais à frente
                                            Do que o teu próprio passo.

                                Sophia de Mello Breyner Andresen, Antologia

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Curadoria de notícias, reportagens, artigos de opinião, entrevistas e conteúdos colaborativos da equipe de Redação do Jornal GGN

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8 Comentários
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  1. Messias Franca de Macedo

    2 de janeiro de 2016 12:06 pm

     
      …”‘Tá’ vendo” que é

     

      …”‘Tá’ vendo” que é possível viabilizar a equação ajuste fiscal [“sem lascar os pobres”] e desenvolvimento econômico com geração de empregos e distribuição de renda!?…

    ##################################

    PT quer imposto sobre fortunas e CPMF

    Para superar ajuste, partido pede mais impostos e empréstimos da China

    SÃO PAULO — Para superar a pauta do ajuste fiscal, a bancada do PT na Câmara vai intensificar a pressão sobre a presidente Dilma Rousseff com o objetivo de que o governo adote um pacote de medidas na economia, como a reformulação da cobrança do imposto de renda com adoção de alíquota de até 40%, a tributação de lucros distribuídos por empresas a acionistas, além da busca de empréstimos na China.
    (…)
    AS 14 PROPOSTAS
    (…)

    FONTE [LÍMPIDA!]: http://www.conversaafiada.com.br/economia/pt-quer-imposto-sobre-fortunas-e-cpmf

  2. Jaide

    2 de janeiro de 2016 12:14 pm

    Momento de autoflagelação.

    Momento de autoflagelação. Definição perfeita.

    Também serve surto de estupidez que, convenhamos, não é exclusividade brasileira. É mundial.

  3. altamiro souza

    2 de janeiro de 2016 12:51 pm

    então que cronos  permita que

    então que cronos  permita que nossos passos

    permeiem caminhos menos tortuosos a autoflagelantes.

    menos sadismo para que não nos tornemos masoquistas e, assim,

    sofrermos uma imensa dor que mal consegumos definir..

    os que odeiam deviam perceber que, com isso, o masoquismo

    surge.sem que o consciente possa agir e evitar as

    suas nefastas consequencias.

    o interessante desse ótimo artigo é que me fez lembrar

    da tese do mestrre roberto schwarz, baseado na obra machadiana.

    simplificadamente, seria o o seguinte.

    a elite escravocrata posa de iluminista, de vanguardista, viaja e

    copia tudo de fora, mas quando retornava ao seu pedaço

    patrimonialista, açoita seus escravos.

    agora parece que odeia seu próprio pais, açoita-o novamente

    com uma estranha pulsão destrutiva.

    e acaba, com isso, adquirindo afetos sádicos que se transformam

    em masoquismo.

    começa a açoitar a si mesmo…

    ao invés de amar, odeia e odeia-se.

    a caracteristica dessas pessoas é o ricto do desprezo,

    jamais sorriem, jamais  cantam a vida, parece que desconhecem

    e, por isso, odeiam a nossa tradição cultural… 

    daí aos preconceitos, é um pulinho aparentemente infantil, mas que

    guarda um perigo enorme de esgarçamento social… 

    1. altamiro souza

      2 de janeiro de 2016 3:47 pm

      corrigindo  é “caminhos

      corrigindo  é “caminhos tortuosos e autoflagelantes”

  4. Juliano Santos

    2 de janeiro de 2016 2:09 pm

    Perfeita e sucinta sintese do

    Perfeita e sucinta sintese do que foi esse ano. Auto-flagelação, ou segundo os chegados na astrologia, um inferno astral auto-imposto. 

    Todos se esforçaram, governo,oposição e pig para fazer de 2015 um dos piores de todos os tempos. Senão foi, devemos à resistência dos sensatos. Destaco a atuação destes na Força Armadas, no STF e em parte da imprensa, como a Cruvinel, Janio, alguns conservadores democratas e os bravos blogueiros sujos.

    E também a maturidade das esquerdas que souberam superar as diferenças, se uniram, e melhor de tudo não cairam na provocação dos fascistas. O ano acabou mostrando claramente quem está com a democracia e a civilidade e quem está com a bárbarie

  5. alexis

    2 de janeiro de 2016 2:15 pm

    Entre isso e o “vtnc” contra a Presidenta há muito a mudar

  6. Alexandre Weber - Santos -SP

    2 de janeiro de 2016 3:21 pm

    NMHO só Astrologia , Tarot e Geometria para mudar a sina

    Como sou um otimista incorrigível penso que 2015 vai ser o ANO!

  7. Baronato

    3 de janeiro de 2016 11:56 am

    Concordando com ótima análise da autora…

    … Poderíamos enterrar, de uma vez por todas, o lema-propaganda “Brasil: ame-o ou deixe-o”.

    Da sua imposição autorirária, e do tremendo mau gosto e mau uso recente nas manifestações coxísticas, teria lugar:

    “Brasil: se o odeias tanto, por que ficas?”.

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